Carla Jimenez

Jornalista há mais de 30 anos, foi diretora e editora chefa do EL PAÍS no Brasil e co-fundou o portal Sumaúma

Opinião

Os peixes pequenos vão para a cadeia. Os grandes lavam as mãos

Enquanto réus do 8 de Janeiro pegam penas até 17 anos de prisão, militares de alta patente se desdizem sobre a tentativa de golpe

O ex-ministro da Defesa Braga Netto e o ex-presidente Jair Bolsonaro. Foto: Evaristo Sá/AFP
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Três réus que invadiram Brasília no dia 8 de Janeiro foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal a penas entre 15 e 17 anos de prisão. Nesta semana, outros réus irão a julgamento no plenário da Corte e há uma fila de algumas centenas deles à espera de sua sentença. A maioria, pode-se dizer, inocentes úteis. Em poucos meses, se tornaram agentes de golpe de Estado e vão pagar por isso. 

Tristemente, viraram massa de manobra dos peixes graúdos, que agora esqueceram onde estavam, o que falavam, o que faziam para incentivar e manter a moral dessa tropa de patriotas.

Quanto mais alta a patente, maior a amnésia. Ninguém sabia, ninguém viu. A estratégia da extrema-direita golpista para se desvincular dos atos terroristas que assombraram o País em dezembro do ano passado, e em 8 de Janeiro, é dizer que não sabia de nada. E que se não havia comando, não pode ser considerada uma tentativa de golpe. 

Não sabiam nada sobre os ataques no dia 12 de dezembro, nem sobre a tentativa de colocar uma bomba num caminhão que entraria no aeroporto de Brasília no dia 24 — noite de Natal —, e nem sobre a invasão de golpistas em Brasília. 

De fato, não sujaram as mãos no quebra-quebra, nem nas artimanhas de instalação de bomba. No depoimento do general Heleno à CPMI dos Atos Golpistas, nesta terça-feira 26, houve uma aula magna sobre esse cinismo. O ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional disse não saber de nada, não ter visto nada comprometedor que pudesse chegar a um ato extremo. 

Heleno disse, inclusive, que não lia relatórios do próprio GSI, embora a segurança da informação e cibernética esteja sob o comando do Gabinete. Oras, qualquer pessoa que estivesse num grupo de WhatsApp ou Telegram bolsonarista àquela altura sabia mais do que o general Heleno disse não saber. 

Autorizado pelo Supremo Tribunal a se manter em silêncio diante das perguntas, Heleno abriu mão desse direito para dar respostas vazias e tergiversar os fatos. Com ar de avô distraído, o general insinuou, inclusive, que o comandante Mauro Cid relatava ‘fantasias’ em sua delação à Polícia Federal. Negou que autoridades militares tivessem presenciado reuniões de teor golpista sob o comando de Jair B.  

O general se contradisse algumas vezes enquanto senadores e deputados lhe faziam perguntas sobre o papel do órgão que ele comandava diante dos atos golpistas.

A constatação óbvia de alguns senadores é que o interrogado mentiu ao longo do depoimento. A senadora Eliziane Gama (PSD-MA) foi firme em apontar as contradições do militar, a ponto de tirá-lo do eixo, e ele dizer ao advogado que ficava “puto” com as perguntas dela. 

Heleno foi um dos que afirmou que não se pode chamar de tentativa de golpe algo que não tem comando. Os deputados bolsonaristas presentes à sessão ecoaram a mesma cantilena.

São ases em apontar os supostos erros cometidos pela segurança do governo Lula no início deste ano, que levou às cenas dantescas na Praça dos Três Poderes. Mas é difícil descolar esses agentes do caos dos fatos ocorridos.

O mesmo general Heleno recebeu na sede do GSI alguns golpistas que ficavam em acampamentos em frente aos quartéis — incluindo youtubers de extrema-direita que alimentavam o Whatsapp da ‘tropa’, como revelou a Agência Pública. Jair e o general Braga Netto também se comunicavam com os manifestantes, como ficou registrado em inúmeros vídeos. Alimentaram esses grupos com a esperança de que as Forças Armadas viriam a intervir, caso o povo fosse para as ruas. 

Hoje esses mesmos golpistas civis correm o risco de pagar por crimes como se fossem eles os únicos autores dos atentados, e não as autoridades militares, políticas, empresariais e religiosas que incentivaram esse terrorismo. Deram corda para que eles mesmo se enforcassem.

Uma coisa é certa. Já sabemos que a tentativa de golpe foi mal sucedida porque o Exército não teria aderido, segundo trechos da delação de Mauro Cid que já vieram a público. Mas sabemos também que o golpe não aconteceu porque o momento geopolítico é outro, comparado a 1964. No século XXI, grandes potências, como os Estados Unidos, pressionaram o Brasil para que se mantivesse sob a democracia.

Num momento em que a extrema-direita se movimenta com facilidade no mundo, preservar e fortalecer o regime democrático se torna um enorme desafio. É nesse ponto que nos encontramos. A maioria na Corte Suprema já deixou claro que não pretende suavizar as penas de quem atentou contra o Estado de Direito. Falta agora, finalmente, encaixar os militares nessa equação

O Tribunal Superior Eleitoral já deu um recado nessa direção ao excluir as Forças Armadas da comissão que fiscaliza as urnas eletrônicas, após a criminosa politização sobre o tema, endossada por militares. Estamos diante de uma oportunidade de reescrever a história, fazendo finalmente justiça contra o golpismo da caserna. Não podemos perder esse bonde uma vez mais.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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