Tales Ab'Sáber

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É psicanalista, ensaísta, professor de filosofia da psicanálise na Universidade Federal de São Paulo, autor de, entre outros, “Lulismo, carisma pop e cultura anticrítica”.

Opinião

Os maus modos do neofascismo brasileiro

Nosso neofascismo diz respeito aos modos de nossa conversão própria da política em violência, o que ninguém pode negar

Manifestantes pró-Bolsonaro em frente ao Congresso Nacional em Brasília (Foto: EVARISTO SA / AFP)
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O neofascismo no Brasil, para quem não entendeu, não emula o fascismo italiano dos anos 1920. Nunca foi isso, evidentemente. Muita energia importante foi gasta com esse debate estéril, de especialistas querendo fixar pontos históricos e palavras, enquanto a vida política do país se degradava de fato. A evocação do termo fascismo vem de uma tradição do pensamento político do século XX, que se refere a uma escala imaginária, ou efetiva, dependendo do que somos capazes de ver, do mal na política. É isso o que importa. Nosso neofascismo diz respeito aos modos de nossa conversão própria da política em violência, o que ninguém pode negar. Ele se ordena e se unifica, por fim, ao redor do bolsonarismo. Uma conversão sistemática, organizada por circuitos oficiais e randômicos sociais, nos seguintes termos:

  1. Liberalização cínica e excitada, por grupos de massa degradados na internet, e por maganos millionarios do mercado financeiro, da linguagem da violência, da estupidez, da corrupção consentida dos deveres conspícuos de Estado, como dimensão legítima da política. Degradação e estupidificação da linguagem – acanalhamento – e da cultura política nacional. Luta constante plena e arrogante por posição de forçar a submissão e o poder sobre qualquer outro. Seja pelo político ou agente público, seja pelo fascista comum da rua, ou bolsonista robô de internet. Permitida exclusivamente para a direita.
  1. Ataque sistemático e continuo às estruturas de compromisso do vínculo Estado/Sociedade. As estruturas técnicas e burocráticas portadoras de uma ética pública. Aceitação plena da irresponsabilidade e do descompromisso como política de Estado.
  1. Utilização da cultura da agressividade e da insolência, que fere constantemente direitos e pessoas, como escudo de choque para o choque neoliberal real de desmontagem da constituição que projetava as linhas de fuga de uma social democracia.
  1. Liberalização de todo nível de exploração e violência na vida nacional que gere algum incremento de mais valia, para qualquer um, em qualquer nível, que seja forte suficiente para submeter qualquer outro. Daí o império de posseiros, garimpeiros, milicianos, polícias, o gozo imaginário cotidiano dos bolsonistas, e o inferno de índios, jovens negros pobres, ativistas de direitos humanos, ambiente, ou direitos sociais.
  1. Apagamento radical e compulsivo – sintomático – da história de sucesso de dez anos de governos de esquerda – de desenvolvimento e crescimento econômico constante , aumento do mercado de consumo interno, aumento constante do emprego formal, manutenção da democracia como princípio da linguagem política, superávit e pagamento de dívidas, economia significativa de reservas e atuação positiva com múltiplos focos e de igual para igual dentre os países do mundo. Choque psíquico constante, ao redor da falácia e do erro da esquerda sobre o ponto, com a utilização falsa da ideia de corrupção na história da democracia brasileira.
  1. Aceitação de toda ação degradante do governo dos piores como algo normal.

  1. Destruição total das regulações legais que davam qualquer estrutura de direito e de proteção ao trabalho no Brasil.
  1. Economia voltada para a concentração máxima da renda nacional pelos mais ricos.
  1. Animação de polícias e exércitos intervencionistas para segurar a crise social violentíssima provocada por toda estas ações de governo, transformando a crise social fabricada em caso de polícia e desejo difuso de ditadura.
  1. Ataque sistemático e de liquidação de sistemas sociais de cultura e ciência, que tenham vínculo de política ou financiamento com o Estado. Investimento, em compensação, em máquinas de mentira pública, e de rebaixamento da linguagem, na internet, desde a estrutura de Estado da própria Presidência da República, os “gabinetes do ódio” ativos de propaganda oficial neofascista.
  1. Entreguismo econômico e relação servil hierárquica em posição de inferioridade com os EUA, como única política do Brasil em relação aos fluxos Globais de capital, democracia e cultura. Reativação de inferioridade neocolonial, projetando lugar de protetorado americano, isolado do mundo, e em quadro de inimizade com os vizinhos, para o Brasil. Uma mistura de israelização com cijordanização do Brasil.
  1. Uma zona cinza, indefinida mas ativa, de relação subterrânea extra-legal do governo com máfias policiais e milícias, modalidades de crime organizado. Não se tem nenhuma ideia onde a politização das polícias, oficiais e subterrâneas, vai chegar na vida democrática e republicana.

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