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Os legados prejudiciais ao Meio Ambiente na Era Merkel

Colunista Ana Graça Wittkowski fala sobre o episódio do lixo atômico na cidade de Gorleben

(Foto: John Macdougall AFP)
(Foto: John Macdougall AFP)

Para quem ainda não sabe, a Alemanha encontra-se no momento sem um governo oficial. A pandemia desmascarou também aqui a desigualdade de direitos, a segurança oferecida através da possibilidade de consumo obsoleto pela camada pobre deu a ilusão de estarem bem, principalmente quando eles se comparam com o resto do mundo que dispõe de uma infraestrutura precarizada pelo capitalismo.

Diariamente são jogadas toneladas de alimentos no lixo enquanto aumenta a quantidade de crianças que chegam na escola sem alimentação e uma a cada cinco criança deste país não tem direito à uma refeição saudável, isso também é a era Merkel.

Depois de 16 anos de governo Merkel a democracia está passando por uma “prova de fogo”. No dia 26 de setembro passado, cumpri minha obrigação e meu direito de votar em um partido que teve na sua pauta questões trabalhistas como, por exemplo, a garantia de aposentadoria para os que trabalham em situações precárias, assim também como a questão da sustentabilidade e os direitos das crianças. Todavia, vejo dois meses depois que muito pouco do programa social sobreviveu aos compromissos da chamada “coalizão do semáforo”, como está sendo chamada por conta das cores representam os partidos que disputam os cargos de poder.

Angela Merkel foi a primeira mulher na Alemanha a ter este cargo, a primeira que assumiu o posto mais alto da federação, até então um lugar de homens brancos e, por isso, foi muito aplaudida pelas feministas europeias. Merkel é mulher e doutora em Química, o que automaticamente comprova a tão aplaudida “racionalidade” dentro de perspectivas ocidentais. Mas o que é que nós, mulheres migrantizadas e precarizadas, tivemos como benefícios dessa legislatura? Pouco, muito pouco.

Aqui na Alemanha mulheres ainda recebem salários menores do que homens, inclusive porque o partido de Dra. Merkel é contra as políticas de cotas. As consequências estão à vista de qualquer pessoa: nos caixas de supermercados se sentam as mulheres que nunca chegaram nas universidades da Alemanha, a não ser para limpar.

Algumas migrantes até possuem um grau acadêmico que geralmente não é reconhecido aqui, fadadas à precarização por conta da migração.

Doutora Angela Merkel esteve na política da Alemanha por nada menos que 31 anos, quando foi eleita para representar o povo nas eleições de 2 de dezembro de 1990 pelo CDU (Christliche Demokratische Union – União democrática cristã). Desde então ela foi passando de um cargo para o outro e sempre dentro dos cargos de poder, pelo partido política do qual faz parte.

Entre 1991 e 1994 Merkel esteve no Ministério para Mulheres e Jovens (Bundesministerin für Frauen und Jugend), na gestão de Helmut Kohl, que, assim como ela, também esteve no poder nada menos que 16 anos, 4 legislaturas consecutivas.

Mas o foco aqui será a trajetória de Merkel na sustentabilidade, sobretudo a partir de 1994. Pois foi entre 1994 e 1998 ela assumiu a pasta do Meio Ambiente (Bundesministerin für Umwelt, Naturschutz und Reaktorsicherheit). Nas lutas ambientalistas que hoje temos, cujo ápice por aqui é a “Fridays for future”, não esquecemos que foi Doutora Merkel que, na sua posição como Ministra do Meio Ambiente, recusou o parecer de geógrafos, geólogos e ambientalistas e decidiu que lixos atómicos fossem depositados na cidade de Gorleben em um depósito para lixo atómico, inadequado por ser minas de sal.

Atualmente, são diversas provas de conhecimento público que esta região não era adequada para este tipo de depósito, mas, mesmo assim, Merkel, ciente de todas, optou por fazê-lo. O lixo atómico está lá e as pessoas que lá vivem ainda lutam porque não se sabe os efeitos desse lixo na saúde da população local, agora e daqui há 50 ou cem anos, quando provavelmente o assunto terá sido esquecido, sobretudo os responsáveis políticos por essa decisão.

Só depois de Fukushima é que seu partido começou, aparentemente, falar em meio ambiente, e mesmo assim a atual Ministra da Agricultura, também do CDU, permitiu que possa ser usado glifosato na alimentação, considerados como “provavelmente cancerígenos” aos seres humanos pela Organização Mundial de Saúde. No mesmo sentido, o antecessor na pasta permitiu a cultivação de batatas com manipulação genética, uma medida bastante controversa. Será muito difícil reparar os erros de tantos anos, como retirar o glifosato da lavoura. Será difícil.

A gestão de Angela Merkel passa por uma série de temas que devem ser debatidos em outras publicações. A migração, a saúde e assistência social são discutidos por poucos políticos de forma séria e é por isso que estamos passando pela quarta onda de pandemia e ainda não temos um plano para as escolas públicas.

O que se buscou aqui foi apresentar somente como foi a parte da gestão no meio ambiente e na sustentabilidade e, nesse sentido, a passagem de Angela Merkel pelo poder deixou uma série de problemas graves. Como será a próxima legislatura eu sinceramente não sei, mas tenho certeza que é necessário falar sobre desenvolvimento sem esquecer a sustentabilidade.

A sustentabilidade não tem mais tempo, precisa acontecer.

Ana Graça Correia Wittkowski

Ana Graça Correia Wittkowski
Nascida e criada em Salvador da Bahia. Quinta de oito crianças, formada em Letras Vernáculas pela UFBa. Pós-Graduada em Literatura Contemporânea pela UEFS-Bahia. Formada em Etinologia e Lusitanística pela Johannes-Gutenberg-Universität-Mainz. Fundadora da ONG-BrasilNilê. Embaixadora da Década Internacional dos Afrodescentes na Alemanha.

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