Os dilemas de um cronista, semana após semana

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Imagem: iStock

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Opinião

Talvez não exista no Planeta Terra cronista que não tenha escrito um texto sobre a folha em branco. Aquela que repousava intacta outrora na máquina de escrever, hoje na tela do computador. É aquela velha história da inspiração, da criatividade, principalmente para quem tem a obrigação de entregar uma crônica toda quinta-feira.

Não é o meu caso hoje.

Beirando as 500 crônicas semanais enviadas para CartaCapital, na quinta-feira, dia 8 de julho de 2021, é apenas mais um dia útil da semana. A página estava em branco até poucos minutos atrás, quando escrevi o título desta crônica: Os dilemas de um cronista, semana após semana.

É caminhando pelas ruas da Lapa, em São Paulo, passeando com o Canela, o vira-lata mais simpático do pedaço, é que costumo costurar uma, duas, três ideias para a crônica da Carta. Hoje cedo, assim que o dia nasceu pra ser feliz, pensei:

Poderia escrever sobre a CPI, mas o site da revista está repleto de Comissão Particular de Inquérito. Deixei de lado. Pensei em escrever sobre uma história curiosa, típica de ‘Que História é Esta, Porchat?’ quando, um dia, pedi informações para um deficiente visual em Paris, sem perceber que tratava-se de um deficiente visual. Ele riu e disse que eu estava do outro lado da cidade. Insisti que não, quando abriu o sinal e eu pude ver ele esticando sua bengala branca.

Pensei em escrever sobre ex-BBBs. Não aguento mais ver Gil do Vigor e Juliette na televisão, anunciando tudo. Fiquei com preguiça de escrever, não vejo BBB e conheço pouco de Gil do Vigor, apenas o seu bordão Brasiiiiiil! De Juliette, conheço a imagem dela cantando Disparada, de Geraldo Vandré, num anúncio da Globoplay.

Depois pensei em escrever uma crônica sobre embalagens. Estou implicado com isso. Compro um Cappuccino e, quando abro o pote, vejo que tem apenas metade dele ocupado. Comprei um comprimido para dor de cabeça que veio num embalagem enorme. Achei que não teria dor de cabeça por anos e anos e quando abri, lá de dentro saiu uma cartela pequena com oito comprimidos.

Desisti.

Na esquina de Faustolo com Roma, veio a ideia. Escrever uma crônica sobre Pinóquio, cheia de sutilezas, sem tocar na CPI.

Também desisti.

Pensei escrever uma crônica sobre as bancas de jornal que praticamente não vendem mais jornal. Aqui perto de casa, vendem Coca-Cola, capinha de celular, Mentos, Paçoquinha Amor, mochilas e plaquinhas de metal: Bacurau, se for vá na paz. Jornal, só velho para forrar o chão para o cachorro fazer cocô.

Várias coisas me passaram pela cabeça: nossos ídolos chegando aos 80 anos, o dia em que vi o Papa Francisco por acaso, as minhas provas orais no Institut Français de Presse, os anos em que trabalhei num laboratório do Ministério da Agricultura, a vida dos pombos, coisas assim.

Quando cheguei em casa, o porteiro do meu prédio me entregou um pacote vindo de Belo Horizonte, enviado por minha irmã. Quando abri, eram dois cadernos do MEC e vários papéis soltos, coisas dos meus pais, mortos há décadas.

Mergulhei nos papéis tentando decifrar o que era aquilo. Um dos papéis era uma receita médica assinada pelo Doutor Marcelo Prazeres. Ele indicava cada água que os meus pais deveriam tomar diariamente no Parque de São Lourenço. A quantidade certa de alcalina, de magnesiana, de sulfurosa. São Lourenço era o refúgio dos dois, cansados de guerra.

Pensei: isso dá crônica!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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