Opinião
Os custos do sucesso da direita
Mais do que pensar em lideranças, é necessário desfazer certa hegemonia de direita, o que exige movimentos de longo prazo e profundidade, por vezes estranhos à dinâmica eleitoral
As direitas deram o tom da política brasileira na última década. Mesmo nas mais marcantes derrotas, lideranças do campo foram bem-sucedidas em pautar o debate público e as eleições. Enquanto a esquerda adota uma postura defensiva, disposta a ceder anéis para conseguir manter alguns dedos, atores de direita parecem aumentar crescentemente a radicalidade dos seus discursos e apostar em um futuro virtuoso.
Há pelo menos duas consequências do cenário descrito. A primeira é a normalização de discursos ostensivamente à direita, de modo que expressões antes tidas como radicais passaram a ser identificadas como habituais e ganharam certa feição de senso comum. Não só é normal ser de direita, mas afirmá-lo enfaticamente. Seus adversários, no caso a esquerda, passam a ser vistos como anomalias, desvios no curso regular das coisas, o que, por um lado, justifica ataques mais duros e, por outro, constrange atores públicos, como jornalistas, intelectuais e influenciadores, a não expor signos progressistas.
Há, contudo, um segundo desdobramento: a identidade entre a direita e o senso comum faz com que discursos antes vistos como extremistas, intoleráveis no mundo contemporâneo, passem a ser progressivamente aceitos. Se o radical se torna corriqueiro, o extremista, antes rejeitado, passa a ser tolerado. O que era discurso de ódio agora surge como exercício legítimo da liberdade de expressão daqueles que, apesar de todos os seus recursos de poder e acesso a espaços de mídia, reclamam constantemente de serem silenciados.
O cenário permite às direitas apostar em uma retórica e em ações extremas, que prometem prontamente “mudar tudo o que está aí”. Enquanto as esquerdas precisam demonstrar constantemente suas credenciais de respeito às instituições e prestar reiteradas homenagens à moderação, resta às direitas, na pior das hipóteses, o benefício da dúvida: mesmo quando dizem absurdos, predomina uma hermenêutica generosa que atenua declarações, apara excessos e ignora afirmações com pouca margem de dúvida.
O debate público é, portanto, francamente favorável à direita e à ultradireita, de modo que mais do que candidaturas vitoriosas ou coalizões politicamente influentes, temos um campo político e social hoje hegemônico, dotado não apenas de forte base social e recursos no Brasil, mas também afinado com os movimentos do cenário internacional.
Nem tudo, porém, é otimismo. O sucesso recente traz custos, como o cenário eleitoral de 2026 bem demonstra.
A direita está eleitoralmente dividida em diversos projetos de candidaturas: o rebento escolhido pelo ex-presidente, Flávio Bolsonaro; o nome preferido pela maior parte das elites, Tarcísio de Freitas; o representante da extrema-direita surgida de uma nova sociabilidade das redes e do antipetismo, caso de Renan Santos, do MBL; e o futuro escolhido pelos movimentos de diversos governadores, do trio do PSD — Ronaldo Caiado, Eduardo Leite e Ratinho Junior — a Romeu Zema. Talvez com a exceção de Leite, que iguala Lula a Bolsonaro, e de Santos, que busca construir uma ultradireita não bolsonarista, todos os outros nomes manifestam algum grau de adesão aberta a Bolsonaro, sendo que em alguns casos, como Flávio e Tarcísio, há uma submissão integral às vontades do ex-presidente.
Parece improvável que Flávio Bolsonaro e Tarcísio compitam entre si, com a balança agora mais favorável para o filho do ex-presidente, e outros projetos provavelmente naufragarão, mas dificilmente o campo terá menos de três candidaturas – a do bolsonarismo, a do PSD e a do MBL/Missão – e não seria surpresa o surgimento de novos nomes.
Parte da atual pulverização decorre, sem dúvida, da inelegibilidade de Jair Bolsonaro, a mais popular liderança do campo. Com ele fora do pleito, não há um candidato evidente e se cria certo clima de incerteza, estimulante para aventureiros. Soma-se a isso a ausência de um partido equivalente ao PT, que organiza boa parte da base e das elites de esquerda. Há, contudo, outro aspecto relevante.
O grande número de candidaturas está relacionado à crença de que a conjuntura, local e global, se move para a ultradireita, o que ofereceria grandes chances para candidatos do campo. O estímulo para tantos nomes não vem somente do cenário de incerteza, mas da crença de que a direita radicalizada é o lugar das oportunidades, no presente e no futuro. Todos almejam ser o novo Bolsonaro, um parlamentar de baixíssimo clero que chegou à Presidência com boas articulações com elites, uma estratégia eficiente nas redes sociais e certa dose de fortuna, no sentido do velho Maquiavel. Tudo isso em um cenário de radicalização prévia da direita tradicional, movida pelo antipetismo, e de desorganização das instituições pela Lava Jato.
Os muitos pretendentes à liderança da coalizão entre extrema-direita e direita radicalizada, que não se restringe ao bolsonarismo, enfrentam, entretanto, claros problemas de coordenação política. Ainda mais em um cenário no qual o candidato de esquerda tem uma base consolidada de votos, como Lula, a ausência de um nome evidente obriga o campo a uma travar uma luta fratricida, que tende a favorecer seus adversários. A facilidade de circulação e o aumento do volume de discursos, promovidos pelas redes sociais, tornam a dinâmica ainda mais delicada. Apostas em alianças de segundo turno são sempre complicadas, muitas vezes prejudicadas pelos embates prévios aos olhos do eleitor, e a transferência de votos carrega inevitável incerteza.
Parte das dificuldades para 2026 decorre, portanto, de efeitos imprevistos do sucesso da direita na última década.
No longo prazo, o cenário assume outras feições. Mesmo perdendo a atual eleição, a direita se mostra mais capaz de produzir lideranças e de impor a agenda política, enquanto a esquerda permanece tímida e fortemente dependente de um Lula já na casa dos 80 anos. Mais do que pensar em lideranças, é necessário, contudo, desfazer certa hegemonia de direita, o que exige movimentos de longo prazo e maior profundidade, por vezes estranhos ao tempo e à dinâmica das eleições.
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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