Os 500 dias de Lula preso são (mais) um esqueleto no armário de Fachin

Cinco anos depois, o ministro que manteve todas as decisões de Moro, descobre que na verdade ele era incompetente

Ex-presidente Lula. Foto: Leo MALAFAIA / FOLHA DE PERNAMBUCO / AFP

Ex-presidente Lula. Foto: Leo MALAFAIA / FOLHA DE PERNAMBUCO / AFP

Justiça,Opinião

“Ahá, uhu, o Fachin é nosso!” sentenciaram os procuradores da República nas mensagens infames reveladas em parte pelo site The Intercept, em parceria com outros veículos de imprensa, e depois pela Operação Spoofing. Mensagens na posse dos advogados de Lula, que tem semana a semana produzido uma hemorragia na credibilidade dos agentes jurídicos que participaram da Lava Jato, como também dos veículos de imprensa que atuaram como assessoria da operação e hoje em dia não dão um pio sobre o assunto.

Foi demonstrada a farsa da Lava Jato acima de qualquer retórica.

Eis que Fachin, um sujeito que sempre votou contra os pedidos de contenção dos arbítrios de Curitiba, saca da cartola uma anulação de todos os processos envolvendo Lula, por incompetência do juízo.

Ora, a incompetência da supercompetência da Lava Jato é apontada há, pelo menos, seis anos, quando todos os caminhos levavam a Roma, isto é, a Curitiba. Não importa onde, como e quando, quem julgava era Sergio Moro e sua turma de bom moços intocáveis.

Vale dizer que a incompetência pode ser suscitada por qualquer juízo em instância superior a de Moro, tal como Fachin. Cinco anos depois, o ministro que manteve todas as decisões do juízo, descobre que na verdade ele era incompetente.

 

Como disse meu pai, Roberto Tardelli, em ligação telefônica, Fachin precisa reconhecer que manteve uma pessoa presa por mais de 500 dias por ordem de um juízo incompetente. Trata-se de mais um esqueleto no abarrotado armário do ministro.

De outro lado, repercute-se a consequência de que as ações que tratam da parcialidade de Sergio Moro perdem o objeto. Bom, não sei se é por aí. Me parece um tanto quanto apressada essa conclusão. Primeiro porque a ação que discute a parcialidade de Moro está a cargo da Turma composta por ministros de outro grupo, daquele que vem apanhando da mídia nos últimos anos, apesar de estarem na grande maioria das vezes certos quanto os abusos de Curitiba. Eles vão perder a oportunidade de expor a Lava Jato, Sergio Moro, Dallagnol e tudo mais só porque o ministro “ahá, uhú” decidiu pela incompetência? Me parece ingênuo acreditar nesse desfecho.

Além disso, Moro não processou e condenou Lula em conluio com a acusação aplicando o Código do Russo. Muito pelo contrário, ele condenou um monte de pessoas, muitas das quais já cumpriram sua pena ou estão cumprindo suas penas.

Se Moro foi parcial para julgar um, foi para todos, sobretudo aquelas pessoas cujas condenações e delações foram utilizadas como instrumento para manipulação do processo contra Lula.Ou seja, o julgamento do vício de imparcialidade de Moro vai além de Lula em pessoa. A bem da verdade, sendo a Lava Jato canonizada pela mídia mídia durante anos, o vício de fé pública de Moro foi um vício contra todo o país. Independe da ação de um indivíduo.

Fachin continua sendo e sempre será deles, com direito à Ahá, uhu!. Com essa decisão, ficou nítido que estava insuportável para os envolvidos na Operação – da Procuradoria ao Supremo, passando pela mídia e financiadores da aventura em geral – a prolongada hemorragia na credibilidade da Operação. Evidente que uma súbita iluminação em relação à incompetência de Moro não foi obra de cinco minutos de reflexão do ministro, mas sim de um acordo cuja extensão nunca saberemos, a não que outro hacker de Araraquara nos brinde com um vazamento. Fachin não é Fachin em si, ele é de outras pessoas e a mando delas age. Ahá, uhú, ele é deles.

Na estratégia movida pela frente fachiniana, como diz o ditado popular. vão-se os anéis, ficam os dedos.

E apesar de todos os ahás uhus, a verdade é que estamos sendo governados por um sujeito abjeto, com ministros e filhos tão abjetos quanto. Um governo que nos envergonha internacionalmente e que produz mortes aos montes no país por incompetência ou até mesmo por um projeto.

A elegibilidade de Lula, o único segundo as pesquisas apto a derrotar a marcha bolsonarista, é uma vitória, independentemente de acordão para livrar a Lava Jato. Agora que seus processos estão anulados, que a operação siga sendo denunciada e exposta como a grande farsa que foi, como corajosamente Djamila Ribeiro denunciou em sua coluna da Folha há algumas semanas.

Da mesma forma, que comemoremos a volta daquele que nunca deveria ter sido preso e que foi afastado pela disputa em 2018 de forma injusta e manipulada, tal como ocorreu a eleição do atual presidente.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Editor no site de CartaCapital. Advogado, fundou o site Justificando, onde foi diretor de redação por quatro anos. 

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