Sobretudo sê fiel e verdadeiro contigo mesmo; e como a noite ao dia, seguir-se-á que a ninguém serás falso”.
Do Hamlet, de William Shakespeare
O Bardo sabia perfeitamente que o óbvio é inimigo da arte.
Oscar Niemeyer também sabia. Por isso, repetia que a primeira regra da arquitetura é surpreender.
Pedro Almodóvar tem isso claro.
Seu último filme, Natal Amargo, é a prova.
O roteiro, em metalinguagem, surpreende. De tão avançado, muitos espectadores têm dificuldade até de compreender.
Mais uma marca de obras de arte – que, muito comumente, não conseguem ser compreendidas pelos contemporâneos.
Esse roteiro ousado encontra o complemento perfeito em atores, atrizes, figurinos, cenários e trilha sonora extraordinários, não faltando as usuais homenagens à cultura latino-americana, no caso, a mexicana, na voz impagável de Chavela Vargas.
Rossy de Palma não é a atriz principal, mas rouba a cena mesmo com curta aparição. Idem para Patrick Criado, um autêntico Rodrigo Santoro ibérico, em que o talento rivaliza com a beleza.
Assisti ao filme após participar da 29ª Parada Gay de Porto Alegre, que, como a de São Paulo, teve como lema “Nosso orgulho na urna”.
Uma chamada para lá de engajada e necessária, em tempos de ameaça do retorno ao poder da extrema direita, corrupta, assassina e genocida.
As falas foram corretíssimas, corajosas e leves, a um só tempo.
Que junho delicioso, Santo Antônio dia 13 e agora São João, dia 24.
A quadrilha dos Bolsonaro está cada vez mais próxima da prisão e o Brasil, em direta proporção, mais livre das trevas que nos engolfaram de 2016 a 2022.
Neste junho, até o pedófilo megalomaníaco teve de recuar ante a dignidade do povo iraniano. O terror cedeu passagem à paz também no Oriente Médio.
A brutalidade imperial sequer conseguiu diminuir o momento de congregação universal que nos proporciona a Copa do Mundo, apesar das inúmeras arbitrariedades cometidas pela potência decadente.
Não entenderam que o mundo não se identifica com os prepotentes, ao contrário, ama os despossuídos da Terra: o goleiro de Cabo Verde, eletricista e jogador da segunda divisão, que parou a máquina espanhola milionária; a presidenta do México que cedeu seus ingressos para mulheres empobrecidas; o prefeito de Nova York que negociou ingressos para aqueles que não poderiam comprá-los e os transportou de graça até o estádio; além da seleção do Irã, exposta a todo tipo de vexames pelas autoridades migratórias estadunidenses, mas, ainda assim, entrando em campo com mochilas simbolizando aquelas das 168 crianças mortas pelos EUA no bombardeio da escola no país persa.
E Portugal que acaba de empatar com a República Democrática do Congo por 1×1?
Poderia ser mais bonito? Uma ex-potência colonial que tanto explorou e matou africanos empata com um país que teve 10 milhões de homens, mulheres e crianças massacrados pela Bélgica colonial e que ainda hoje sofre a espoliação dos EUA e da UE, que fomentam guerra civil em seu território para melhor roubarem as imensas reservas minerais, inclusive terras raras, de que o país é uma das principais jazidas.
Sem falar nas torcidas do Marrocos e da Bósnia que levantaram bandeiras da Palestina.
Quanto à seleção brasileira, além do
pouco que se viu em campo, o que dizer da escalação de um jogador lesionado, cujo feito mais comentado foi levar uma coleção de relógios avaliados em 21 milhões?
Muito não vale elocubrar sobre ela e a CBF, infelizmente. Caberá, sim, reconhecer que a seleção é patrimônio nacional e, por isso, não sendo passível de apropriação por uma entidade privada como a CBF, que
com ela tem ganhos milionários, sem participação social.
Vini Júnior salvou nossa pele e Endrick poderá fazer outro tanto, além de Paquetá.
Mas o mais importante são as oportunidades que temos de falarmos e festejarmos… com pessoas desconhecidas, na fila do caixa, na academia, no mercado etc.
Só por isso, já vale a pena.
Em Filosofia para quem não vai ser filósofo (Tomo editorial), Luis Fernando Munaretti da Rosa estimula-nos a pensar, questionar e debater. Assim, recorda as origens da filosofia:
“A filosofia… surgiu como uma quebra com a explicação mítica… Os filósofos foram aqueles que suspeitaram… de (o) saber mítico, que não aceitaram essa explicação metafórica sobre a origem das coisas, sejam elas físicas ou divinas. Buscavam superar a explicação de cunho poético e imaginário presente nos mitos, inaugurando um modo de explicar e argumentar mais racional, com base no logos. Essa palavra de origem grega tem muitos sentidos: ‘discurso’ e ‘razão’ são os mais presentes nas escritas dos filósofos. O termo logos deu origem a palavras importantes, e não somente nas línguas latinas. Exemplo de termos descendentes do logos em nossa própria língua é a palavra ‘lógica’, e também o sufixo, frequentemente presente no nome de várias ciências, ‘logia’ (por exemplo: ‘Biologia’, ‘Geologia’, ‘Morfologia’, ‘Cardiologia’ etc) … Houve, no século VI a.C., uma quebra de paradigmas: da explicação mítica sobre o mundo, a natureza e o Homem, passou-se para a explicação filosófica”.
Filosofemos nas praças, nos bares e após os cinemas. Que nossas vidas sejam perguntas e respostas; trocas, diálogos, em que a razão dê espaço à emoção, ao vibrar juntos, com os injustiçados, os oprimidos e todos, todas e todes que anseiam pela verdadeira liberdade de pensar, agir e amar.