Oração ao tempo ou esperança: os aniversários de Bethânia e Chico

Escrevo para celebrar essas existências que nos relembram o Brasil que canta, samba, faz poesia e segue firme

Chico e Bethânia em 1975 (Foto: Reprodução/YouTube)

Chico e Bethânia em 1975 (Foto: Reprodução/YouTube)

Cultura,Opinião

Há pouco escrevi sobre as tantas mortes da pandemia. Agora sou levada a escrever sobre a vida. A que ainda vale a pena ser vivida apesar dos combates, ou justamente por causa deles. Morte e vida caminham lado a lado incessantemente. 

O que inspira este texto é a emoção que senti ao saber que, na mesma semana, Maria Bethânia e Chico Buarque fizeram aniversário. Quase juntos, nos dias 18 e 19 de junho. Falar sobre eles, nesse contexto tão terroso, é quase urgente. É um ufa! aliviado por ainda estarem com a gente, em todos os sentidos. É um verde que se esparrama entre as palavras com esperança, é uma Gota d’água para quem tem sede.

A baiana e o carioca, mais brasileiros que o próprio Brasil neste momento, fazem 75 e 77 anos, respectivamente. Anos bem vividos, militantes, criativos, inteligentes, políticos e poéticos, fazendo o melhor com o pior que nos cerca. A forte Bethânia é uma moça Senhora. O tímido Chico, um Idoso mocinho. Embora eu hesite em escrever, os dois são, segundo a classificação etária, idosos: ou seja, estão no grupo de risco para a pandemia. 

Mas ambos seguem (mais uma vez) nadando contra a corrente. Vão em direção à vida, protestando e criando, mas não sem a tristeza que a realidade escancara. Chico tem ido às manifestações. Bethânia continua nos arrebatando, no bom sentido, com suas leituras de voz firme, que enraízam com leveza o ar tão raro em nossos pulmões.  Seguem jovens no imaginário, armados com arte e resistência e estabelecendo um tempo da delicadeza, como diz a música Todo o sentimento, quando a vida dura esmaga seus ponteiros em nossas consciências.  

Escrevo para celebrar essas existências que nos relembram o Brasil que canta, samba, faz poesia e segue firme, como Bethânia em Carta de amor

Sou como a haste fina que qualquer brisa verga, mas nenhuma espada corta”

Os dois são a história do Brasil e de sua arte. E também fazem parte da minha história. A primeira vez que fui ao teatro para um concerto, fui para ver o Chico. Estava sentada muito longe do palco, mas estava lá. E Bethânia foi a primeira artista que eu consegui ouvir depois de passar por um período extremamente difícil e sensível, no qual não conseguia ler meus livros, nem ouvir músicas cantadas.  Voltar a ouvi-la era um sinal de que eu voltava, então, às palavras e à vida. Assim, esse texto escrito no início da semana  é uma pequena celebração de aniversário, uma Oração ao tempo, na voz de Maria Bethânia,  ou um ousado pedido de esperança.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Médica, escritora e mestranda em psicanálise na Sorbonne em Paris

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