

Opinião
Oração ao tempo
Calendário apertado, recuperação de atletas, amadurecimento de jovens talentos… O “compositor de destinos” também dita regras no futebol
“Compositor de destinos”, como canta Caetano Veloso, o tempo é a chave para entender os movimentos dos clubes de futebol neste início de temporada, que terá um calendário ainda mais apertado, devido ao novo formato da Copa do Mundo, com maior número de partidas. Pela primeira vez, o torneio reunirá 48 seleções – ante 32 na edição anterior – e será disputado em três países: Estados Unidos, México e Canadá.
Cada clube resolve à sua maneira como acomodar o elenco ao sair das férias e logo ser exigido em várias competições simultâneas, especialmente com a antecipação do Campeonato Brasileiro, que começa em 28 de janeiro. Para preservar o elenco titular, o Flamengo optou por disputar as primeiras partidas do Campeonato Carioca com a equipe Sub-20 e abriu mão da Copa São Paulo. Na lanterna do estadual, o time está, teoricamente, ameaçado de rebaixamento. Isso me trouxe à lembrança uma conversa animada sobre o tema com Márcio Braga, vitorioso ex-presidente do clube rubro-negro, que minimizou o risco com um deboche: “Time grande não cai”.
No Palmeiras, outro grande do momento, o técnico Abel Ferreira manteve a defesa titular, mas testou jovens talentos no ataque. Essa mescla é uma estratégia inteligente para dar oportunidade a todos.
A Copa São Paulo, por sinal, chega ao fim mostrando a força dos clubes que cuidam melhor de suas bases. O Ibrachina da Mooca surpreendeu com a classificação para as semifinais, derrotando o favorito Palmeiras. Seguindo a tradição, o campeão da Copinha será conhecido no próximo domingo, 25 de janeiro, data em que a capital paulista completa 472 anos.
O tempo também é fundamental para a recuperação de atletas lesionados. Preocupa-me verificar, nos noticiários esportivos, tantos comentaristas falando em “acelerar” esse processo. A propósito, um dirigente santista comentou com muita propriedade que o Santos “trata com paciência e respeita” o tempo de recuperação de Neymar. O astro revelado pelo Peixe fez bem em buscar refúgio no clube que o lançou e poderá, em breve, retribuir.
Fato curioso: alguns clubes europeus permitem que jogadores sul-americanos retornem aos seus países para tratar lesões. O rigoroso inverno europeu parece retardar a recuperação, enquanto o calor teria efeito oposto. Além disso, estar próximo da família provavelmente exerce função terapêutica.
O tempo de amadurecimento dos atletas é igualmente relevante. Há poucos dias, o treinador Fernando Diniz afirmou que Rayan deveria “ficar um pouco mais” no Vasco antes de acertar sua transferência para o futebol europeu. Após receber uma tentadora proposta do Bournemouth, o atacante de 19 anos manifestou o desejo de atuar na Premier League, mas o técnico ponderou que ele ainda pode fazer uma temporada no clube carioca melhor que a de 2025, quando marcou 20 gols. No Brasil, continuará em evidência e poderá valorizar ainda mais seu passe.
É preciso respeitar até mesmo o tempo dos gramados. O tapete do Estádio do Maracanã, sempre considerado exemplar, sofreu desgaste após abrigar 73 partidas em 2025 e vinha recebendo críticas justas. Passará por rigorosa manutenção, com raspagem e rebrota da grama.
Providencial Mané
A final da Copa Africana de Nações, disputada entre Marrocos e Senegal em Rabat, teve de tudo. Tenho repetido nesta coluna que os marroquinos não param de evoluir no futebol, e hoje sua seleção figura entre as melhores do mundo. Na Copa de 2022, terminaram em quarto lugar. Agora estão na oitava colocação do ranking da Fifa e seguem revelando craques extraordinários, como Achraf Hakimi e Lamine Yamal, embora este último tenha optado por defender a seleção espanhola.
Desta vez, os marroquinos ficaram sem chão. Tinham a vitória nas mãos após a controversa marcação de um pênalti a seu favor no fim do segundo tempo, mas desperdiçaram a cobrança com uma cavadinha ridícula de Brahim Diaz, defendida com facilidade pelo goleiro senegalês, e acabaram derrotados na prorrogação.
Antes disso, houve uma confusão generalizada. Inconformado com a penalidade assinalada pelo árbitro de vídeo, o técnico Pape Bouna Thiaw pediu que os jogadores de Senegal abandonassem o gramado. Alguns chegaram a se dirigir ao vestiário, mas retornaram a pedido do genial atacante Sadio Mané, que deu provas de seu discernimento providencial.
Mais do que o bicampeonato da Copa Africana, a decisão sensata de prosseguir na partida pode ter salvado o Senegal de uma punição ainda mais grave. A seleção corria risco até de ser desclassificada da Copa do Mundo deste ano, na qual deve enfrentar o Brasil na fase de grupos. Mané salvou a equipe. •
Publicado na edição n° 1397 de CartaCapital, em 28 de janeiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘Oração ao tempo’
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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