Paulo Nogueira Batista Jr.

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Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

Opinião

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Oportunidade de ouro para o Brasil

O País presidirá em 2024 o G-20 e os BRICS e pode fazer a diferença

Imagem: iStock
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Posso fazer mais uma fuite en avant? Queria falar um pouco da enorme oportunidade que se abre para a atuação internacional do Brasil de 2023 em diante, admitindo-se, claro, que não venhamos a cometer o desatino de reeleger o atual presidente da República.

A oportunidade decorre da conjugação de três fatores: 1) um país que é um dos gigantes do mundo com 2) um presidente experiente e respeitado mundialmente, 3) em ambiente de escassez de lideranças políticas no mundo – lideranças que sejam não só fortes, como aceitas amplamente.

Se Lula fosse o grande líder de um país pequeno, como o uruguaio Mojica ou o timorense Xanana Gusmão, não teria, por maiores que fossem as suas qualidades, possibilidade de fazer grande diferença fora do seu país. Mas o Brasil é um continente em si mesmo – quinto maior país em extensão territorial, sexta maior população e oitava economia do mundo. Quando foi presidente, entre 2003 e 2010, Lula demonstrou o grande impacto internacional que o Brasil pode ter.

Uma diferença em comparação com aquela época é a ausência de líderes de alcance mundial. No Ocidente, o quadro é desolador – Biden, Boris Johnson, Scholz e Macron não convencem. Lideranças fortes como Xi Jinping e Putin, por outro lado, são vistas com desconfiança e rejeitadas pelo Ocidente, principalmente o russo. Já Lula tem um perfil e uma trajetória que o tornam capaz de dialogar com todos.

Há uma circunstância especial que favorece ainda mais a ação internacional do futuro governo. Por uma feliz coincidência, cabe ao Brasil exercer, em 2024, tanto a presidência de turno do G-20 como a dos BRICS! Veja, leitor, que o timing é ideal. 2023 seria cedo demais. 2024 dá tempo para que o governo se organize para produzir grande impacto mundial – com repercussões políticas, diga-se de passagem, dentro do nosso país.

O G-20, que reúne os principais países desenvolvidos e quase todos os principais emergentes, enfrentou a sua fase mais difícil nos anos recentes, sobretudo agora em 2022, em razão principalmente das desavenças entre Estados Unidos, China e Rússia. Depois da invasão da Ucrânia, as divisões dentro do G-20 se acentuaram, com os Estados Unidos, Canadá e Reino Unido se recusando a participar de reuniões na presença da Rússia. Tentou-se até mesmo, sem sucesso, expulsar a Rússia do G-20.

Até 2024, é possível que o conflito Rússia-Ocidente perca alguma intensidade e pode até ser que o Brasil, atuando em conjunto com outros países, exerça um papel pacificador. Mais provável, entretanto, é que o conflito não se resolva tão cedo, o que torna mais difícil a atuação eficaz do G-20. Assim, cresce a importância do G-7 do lado dos desenvolvidos e a dos BRICS do lado dos emergentes.

Os BRICS se ressentiram muito do declínio do Brasil nos governos Temer e Bolsonaro. Dou o meu testemunho de alguém que participou do processo BRICS desde o início, em 2008: nós, brasileiros, com a nossa criatividade, energia e entusiasmo, éramos em muitos períodos o principal motor do grupo. Agora podemos voltar a sê-lo, valendo-nos da oportunidade de presidir os BRICS em 2024.

Muito pode ser feito. Alguns exemplos. É fundamental revigorar as principais iniciativas financeiras dos BRICS: o fundo monetário (chamado de Arranjo Contingente de Reservas – ACR) e, principalmente, o banco de desenvolvimento (batizado de Novo Banco de Desenvolvimento – NBD). Alguma coisa se alcançou, ainda que com atraso e dificuldades, mas o progresso tem sido insuficiente. E lacunas e distorções foram se acumulando, principalmente no NBD.

Além de retomar e corrigir as iniciativas passadas, não seria o caso de introduzir novos temas na cooperação econômica dos BRICS? O sistema monetário internacional está se tornando gravemente disfuncional. Perdeu-se há algum tempo qualquer pudor de usar o dólar, o euro e o sistema financeiro ocidental como armas em guerras econômicas, a maior e mais recente contra a Rússia, que teve cerca de metade de suas reservas internacionais congelada. Não teria aumentado, assim, a importância de definir caminhos alternativos, que diminuam a dependência em relação ao dólar, ao euro e aos bancos americanos e europeus?

A discussão do assunto já começou dentro dos BRICS. A Rússia propôs que se lance o projeto R5, assim denominado por causa da coincidência de as cinco moedas dos BRICS começarem com a letra R – real, rublo, rupia, renminbi e rand. Esse projeto poderia desembocar no aperfeiçoamento e multilateralização de acordos de pagamento em moedas nacionais, bypassando o dólar. E poderia – quem sabe? – avançar para objetivos mais ambiciosos, como a criação de uma nova moeda de reserva internacional, amparada na força das economias dos BRICS.

O Brasil, sob novo comando de 2023 em diante e presidindo os BRICS em 2024, pode dar um impulso decisivo a esses temas de importância estratégica. •

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1212 DE CARTACAPITAL, EM 15 DE JUNHO DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “Oportunidade de ouro para o Brasil”

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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