Alberto Villas

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Jornalista e escritor, edita a newsletter 'O Sol' e está escrevendo o livro 'O ano em que você nasceu'

Opinião

O vizinho do oitavo

Uma pequena história de um grande condomínio

O vizinho do oitavo
O vizinho do oitavo
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Tenho uma amiga muito divertida, muito animada, que gosta de conversar com todo mundo, puxa papo todo dia com o porteiro do prédio, com a diarista, com quem está dentro do elevador, na fila do banco, na feira escolhendo tomates durinhos, na porta do banheiro do shopping ou na fila da Claro.

Minha amiga gosta de ser amiga de todo mundo, ninguém escapa do seu papo, nem que seja pra comentar o calor, o frio, se vai chover ou não vai chover. Tudo que acontece ao seu redor é assunto, até mesmo aquele pernilongo de barriguinha cheia pousado no teto.

– Como tem pernilongo por aqui, né?

Quando minha amiga se mudou para um grande condomínio, foi um problema. Era gente demais pra fazer amizade. Conseguiu muitas, na piscina, no salão de festas e, principalmente, nas reuniões de condôminos.

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Ficava às vezes assustada de ver tanta gente reunida, gente que morava em cima dela, embaixo, ao lado, em frente e, mesmo depois de alguns anos morando ali, nunca tinha visto.

Conheceu donas de casa, advogados, professoras, engenheiros, comerciantes, contadores, tinha de tudo naquele grande condomínio. Famílias com um filho, dois, três. Gente solteira, gente com trinta anos que ainda morava com os pais, artistas, jornalistas, gays dentro do armário e fora.

Toda vez que minha amiga estacionava o carro na garagem, ficava imaginando quem seria dono daquele Onyx laranja, daquele fusquinha azul-calcinha, daquela camionete Toro novinha e daquele Mini Cooper preto e branco.

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Era difícil para ela decifrar quem era quem naquele condomínio quase cidade. Com alguns, ela fez uma amizade mais sólida, gente que ela conheceu no dia da inauguração da churrasqueira. Entre um coraçãozinho de galinha e uma costelinha, ela ficou sabendo que a moradora do sétimo também estudara no Colégio de Aplicação, que o morador do quinto era o dono do Mini Cooper preto e branco e que o senhor grisalho do décimo era o pai de uma famosa apresentadora de TV.

Mas tinha um morador que ainda intrigava a minha amiga, aquele que sempre parava no oitavo andar. Às vezes, entrava no elevador, cumprimentava todo simpático, comentava que estava um dia bom pra piscina, que era o dia do rodízio dele e que com os assaltos no bairro, estavam precisando colocar câmeras de vigilância no muro do prédio.

No dia seguinte, ao cruzar na portaria, ele sequer olhava pra ela, fingia que não conhecia e se ela dizia bom dia, ele muitas vezes nem respondia.

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– Só pode ser um cara bipolar, ela pensou.

Na semana passada, abriu a porta do elevador e o morador fez questão de ajudá-la a colocar pra dentro todas as sacolas de cânhamo que comprara no Whole Foods Market de Picadilly Circus, em Londres. Ele foi gentil e até elogiou as sacolas, tão resistentes e bonitas.

Mas, no dia seguinte, subiu no elevador, desceu, como sempre, no oitavo andar, sem sequer olhar pro seu rosto.

Minha amiga chegou em casa, abriu a porta e foi logo dizendo pra filha:

– Que cara louco esse do oitavo. Tem dias que me cumprimenta, que conversa, tem dias que finge que nem me conhece. Agora, nunca mais cumprimentar. Vá se danar!

Foi quando a filha olhou pra ela e disse:

– Mãe, você não percebeu que eles são dois, que são gêmeos?

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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