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O uso das redes por policiais: o caso do youtuber Gabriel Monteiro

Além de desastrosa para a sociedade, youtuber policial vem causando incômodos na própria polícia do Rio de Janeiro

Recorrentemente, Gabriel Monteiro tem sido pauta de notícias. Ele é um soldado da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro que divulga vídeos polêmicos pela internet. Atualmente, seu canal no Youtube tem 2,3 milhões de inscritos e cada vídeo possui milhares de visualizações.

Para aqueles que não são familiarizados com as polícias militares, pode-se dizer que internamente elas são divididas em outras duas corporações: uma com as carreiras mais baixas- entre elas a de Gabriel – que são as praças, e outra com as carreiras superiores, os oficiais. As diferenças entre elas permeiam toda a carreira policial, desde o processo seletivo, a formação, os salários, o desempenho das funções, as punições, entre outras. Essas diferenças não se restringem aos aspectos formais, elas abarcam ainda diversas formas humilhações e abusos direcionados, sobretudo, aos policiais militares que ocupam carreiras mais baixas.

Em seus vídeos, por meio do recurso de edição, Gabriel constrói narrativas que ridicularizando os entrevistados e enaltecendo a Polícia Militar carioca e demais pautas ou personalidades conservadoras, o que não difere muito de outros youtubers bolsonaristas. No entanto, desperta atenção nos vídeos a excessiva aparição de símbolos ligados à PMERJ.

 

Já foram alvos dos vídeos de Gabriel: o Cel. da reserva Íbis Pereira, pessoas que acompanharam o enterro da menina Agatha Félix (morta aos seis anos durante uma operação policial), alunos de universidades públicas, feministas, professores, moradores de favela, e mais recentemente, um dos vídeos tratou de forma transfóbica uma estudante ao não adotar seu nome social para constrangê-la. Ao mesmo tempo, em outros vídeos ele chora ou reclama das perseguições que sofre dos oficiais da Corporação, colocando-se como uma vítima do sistema hierárquico militar.

A atuação virtual de Gabriel é incompatível com o regulamento disciplinar militar, que prevê como transgressões: representar a Corporação sem estar devidamente autorizado; manifestar-se publicamente a respeito de assuntos políticos e; discutir, ou provocar discussão, por qualquer veículos de comunicação, sobre assuntos políticos, militares ou policiais-militares, excetuando-se os de natureza exclusivamente técnica, quando devidamente autorizados.

Não se trata de defender o Regulamento Disciplinar, pelo contrário, a reformulação deles é uma pauta necessária, uma vez que eles contemplam como transgressões comportamentos que regulam excessivamente sobre a vida privada desses policiais, entre eles: contrair dívidas, frequentar locais incompatíveis com seu nível social, deixar de oferecer lugar ao superior, entre outros.

Entretanto, nesses regulamentos são menos frequentes regulações acerca da conduta deste policial para a sociedade, o que reforça como a reprodução da hierarquia e a disciplina militar possuem mais centralidade do que os valores democráticos e a atuação deste policial para a sociedade.

A postura de Gabriel, além de desastrosa para a sociedade, gera um incômodo para a estrutura hierárquica militar. Além disso, esse caso trás luz a debates importantes sobre as polícias. Em primeiro lugar, seu canal possui um alcance muito grande e seus apelos têm grande adesão entre seus seguidores, possivelmente muitos deles também são policiais. Pode-se dizer que ele busca atuar como uma espécie de porta voz dos demais praças, que possuem direito de voz restrito na estrutura da instituição.

Em segundo lugar, o pronunciamento oficial da Corporação sobre o caso apontou que ele estaria sofrendo Processos Administrativos por conta das ofensas dirigidas aos integrantes da Corporação e recorrentes faltas em serviço do policial. Nesta perspectiva, as agressões dirigidas a um oficial e as faltas ao serviço parecem ser mais importantes para conduzir o processo de desligamento do policial, do que todas as demais dirigidas a população.

Em terceiro lugar, a atuação de Gabriel Monteiro reacende um debate que vem ganhando cada vez mais importância que é a proibição ao direito de organização em associações ou sindicatos por parte de policiais militares. A ausência de instâncias oficiais para os policiais reivindicarem suas pautas contribui para que narrativas extremas e descabidas como essas ganhem cada vez mais espaço entre o público policial.

Ao mesmo tempo, é evidente que os planos de Gabriel Monteiro não se encerram na atuação policial, sem dúvidas ele está construindo uma expulsão da Corporação que impulsione sua plataforma política.

Figuras como Gabriel se alimentam da insatisfação desses policiais com as estruturas hierárquicas policiais, os baixos salários e condições precárias, somado a um discurso de ódio dirigido a minorias para construir suas plataformas digitais. Este cenário, somado a possibilidade de criação e a circulação de (in)verdades que a internet gera, infelizmente, ainda poderá nos trazer muitos outros como ele.

Fernanda Novaes Cruz

Fernanda Novaes Cruz
Pesquisadora de Pós-Doutorado no Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo - NEV/USP. Doutora em Sociologia pelo IESP-Uerj. Mestre em Ciências Sociais pelo PPCIS- Uerj. Graduada em Ciências Sociais (UERJ) e Comunicação Social (UFRJ). Pesquisadora Associada do Núcleo de Pesquisas em Direito e Ciências Sociais (DECISO- IESP-UERJ).

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