O Ubuntu e sua contribuição para preservação do meio ambiente

a sua arrogância, o homem branco acreditou ser possível controlar a natureza, esquecendo-se de que no meio do temporal ninguém é rei

Cachoeira dos Amores, em São Bento do Sapucaí. Foto: Miguel Schincariol/Secretaria de Turismo dp Estado de São Paulo

Cachoeira dos Amores, em São Bento do Sapucaí. Foto: Miguel Schincariol/Secretaria de Turismo dp Estado de São Paulo

Opinião,Sustentabilidade

Umuntu ngumuntu ngabantu, que em uma tradução livre significa que “uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”, é um provérbio dos Zulus que de certa forma reúne um conjunto de interpretações que se consolidam hoje em torno do termo Ubuntu.

Ubuntu é um termo que tem interfaces filosóficas, culturais, éticas e políticas pluriversais, conectando realidades muito distintas, como salientado por Rocha Júnior ao afirmar que existe no continente africano uma diversidade imensa de línguas e de culturas, sendo que podemos reconhecer neste conjunto uma unidade cultural. Unidade esta que Diop denomina como a unidade na diversidade.

A dimensão ética de Ubuntu e seu apelo mobilizador reforça a noção e o esforço de construção coletiva, e do prinípio da solidariedade, levando em consideração a capacidade que esta construção pode fomentar na materialização de consensos. Por isso, o termo foi/é amplamente mobilizado em contextos de crise, cada vez mais recorrentes no mundo contemporâneo, como, por exemplo, na realidade da África do Sul do pós-apartheid.

Nesse contexto, um dos legados de Mandela foi a difusão dessa concepção político-filosófica, segundo a qual cada pessoa é parte de um todo. Ubuntu: eu sou porque nós fomos, eu sou porque nós somos e eu sou porque nós seremos. Isso não significa uma anulação da nossa individualidade, pelo contrário. Como afirmou Mandela: “Ubuntu não significa que uma pessoa não se preocupe com o seu progresso pessoal. A questão é: o meu progresso pessoal está a serviço do progresso da minha comunidade? Isso é o mais importante na vida. E se uma pessoa conseguir viver assim, terá atingido algo muito importante e admirável”.

 

A partir dessa ética podemos nos articularmos e mobilizarmos muitas noções importantes para a civilização, como a própria garantia dos direitos humanos, como respeito a diversidade, como o exercício de uma cidadania ativa e com certeza, a própria defesa do meio ambiente, tendo sempre em mente o alinhamento da cosmovisão compartilhada em muitas comunidades do continente africano, bem como dos povos indígenas brasileiros, que incorporam o que entendemos por “natureza” como parte fundamental do seu modelo de mundo, e da vida em comunidade, enquanto parte integrante e não dissociável da própria ancestralidade.

Em síntese, isso significa que o “nós” do Ubuntu não acolhe exclusivamente o ser humano, mas a natureza como um todo. Nós somos porque também são os demais animais, nós somos porque o fogo, a terra, o ar, a água, o vento, os mares, as matas e os rios também são. A natureza não é algo externo a nós, não é um recurso a ser explorado e vilipendiado de maneira irresponsável. Essa distinção entre humanidade e natureza é típica das dicotomias da modernidade eurocêntrica e nos traz a esse contexto de crise no qual vivemos atualmente.

A tradição ocidental desde muito cedo excluiu os animais, por exemplo, de quaisquer considerações morais, sendo os sofistas gregos os primeiros a se afastarem das perspectivas cosmocêntricas. Sofistas, como Protágoras, debruçaram-se unicamente sobre a questão do homem, contribuindo para a sedimentação da cultura antropocêntrica, e deslocando a questão do conhecimento do cosmos para o indivíduo, que passa a ser referencial de medida para todas as coisas. Firmado o discurso sofístico e inaugurado o humanismo grego, a vida do animal e o meio ambiente como um todo passam a ter uma única finalidade: a de servir ao homem.

 

Foto: Amanda Oliveira/GOVBA

Não à toa, vivenciamos momentos de pandemias catastróficas, como uma causa desse desrespeito contínuo ao equilíbrio do ambiente. Na sua arrogância, o homem branco acreditou ser possível controlar a natureza, esquecendo-se de que no meio do temporal ninguém, ninguém, é rei, como diz a tradicional “Saudação à Yemanjá”, cantada nos terreiros da diáspora.

Não preservar o meio ambiente representa autodestruição e não podemos continuar a negar isso. Por essa razão, é urgente que outros modelos éticos sejam difundidos para a construção de sociedade sustentável. Nós precisamos aperfeiçoar a noção de direitos fundamentais transindividuais, como o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado e ao patrimônio cultural imaterial, que devem ser preservados para as gerações futuras. E Ubuntu surge aqui como ferramenta, como tecnologia, que representa expressões culturais e tradições resgatadas em reforço à nossa ancestralidade, garantindo assim que tenhamos um futuro.

Futuro este que também é ancestral.

Asè.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutoranda em Ciências Jurídico-políticas pela Universidade de Lisboa, em Co-tutoria com a Universidade de Roma/La Sapienza, Mestra e Bacharela em Direito. Integrante do grupo Abayomi Juristas Negras.

Babalaô. Formando em letras, administração financeira, gastronomia, estilista e ciência política em Benin e no Brasil. Mestrado em memória social na Unirio. Professor de francês e de Yoruba.

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