O tamanho do ‘terremoto’ causado por Lula nas redes sociais

nos últimos quatro dias nas redes sociais, a pauta Lula superou a polarização, crescendo alheia à reação do campo bolsonarista

Foto: Kássio Geovanne

Foto: Kássio Geovanne

Opinião

Até o início dessa semana, a debate político nas redes sociais se dava entre dois polos: um bolsonarista, marcado pelo apoio ao governo federal, e outro anti-bolsonarista. Os bolsonaristaS (identificados por um “devir antipetista”  e formado por alianças intensivas, contranaturais e cosmopolíticas) e, mais recentemente, os anti-bolsonaristas (pessoas de esquerda e/ou progressistas, agora acrescidos por alianças extensivas, culturais e sociopolíticas) protagonizam um processo interminável de interesses, narrativas, ataques, contra-ataques, defesas e ofensivas. Esse embate visa, dentre outras coisas, garantir o domínio de um dos polos sobre o debate público. Para ter sucesso nesse plano, contudo, é preciso que o polo oposto também se engaje nesse assunto.

E aqui está o extraordinário: nos últimos quatro dias nas redes sociais, a pauta Lula superou a polarização, crescendo independentemente do engajamento bolsonarista. O engajamento, dessa vez, partiu de atores que até então não se envolviam diretamente com a polarização política nas redes. Essa adesão amplificou a repercussão e transformou o ex-presidente em pauta central dos últimos dias.

A lógica da polarização política nas redes sociais se assemelha, em alguns aspectos, ao processo antropofágico de populações originárias da América do Sul. O antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, cujas ideias são aqui apresentadas de forma simplista, reforça a importância da vingança como processo construtor e mantenedor de uma narrativa. Assim, ela permeia a vida e a história dos povos, permitindo que a transformem em um meio para a eterna recriação do conflito, da rivalidade e da disputa.

Em suma, a dificuldade em reagir que o bolsonarismo enfrentou e enfrentará nos próximos dias não é fruto apenas da falta de clareza do discurso bolsonarista, mas também — e principalmente — da irrelevância que este grupo adquiriu na condução do tema. Se em inúmeras outras pautas, o engajamento de ambos os polos foi essencial para o crescimento e a consolidação do tema, a participação ativa de um dos polos, desta vez, foi irrelevante. Por consequência, a reação bolsonarista se mostrou debilitada, enfraquecida e residual. Hoje, ela é extremamente dispensável para a manutenção do tema, sendo substituída por atores alheios ao debate político regular e que, além disso, enaltecem a linha argumentativa de um dos polos.

 

Na segunda feira, o campo bolsonarista (em laranja) representou apenas 13% das manifestações sobre Lula nas redes sociais (Imagens: Pedro Barciela)

A debililidade após o discurso de Lula apresenta-se também em números. Durante os dias 08, 09 e 10, a oposição bolsonarista ao evento formou um único agrupamento durante todo o período. Partiu o de 13% dos usuários na segunda-feira, chegou a 15% do universo dos usuários analisados na terça e, após discurso de Lula, retrocedeu para 14%.

Na quarta-feira 10, após o discurso de Lula a ala bolsonarista (em roxo) ficou isolada no debate virtual (Imagem: Pedro Barciela)

Já a maioria das manifestações de apoio ou exaltação ao ex-presidente partiram de diversos agrupamentos. Ao analisarmos o cenário posterior ao discurso no ABC, a extrapolação da polarização política se confirma: entre o agrupamento de usuários que exalta o Lula, a esquerda/partidária não predomina. Nesse cenário, o maior volume de interações vem de outros quatro agrupamentos. Já o agrupamento bolsonarista conquistou apenas o quinto lugar em volume de usuários, e ficou longe de conseguir uma posição de destaque nesse debate.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Pedro Barciela é analista de redes sociais online com foco em política.

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