O silêncio do ministro Nelson Teich e seus 15 Boeings em queda

O tempo entre uma morte e outra caiu para pouco mais de três minutos. E essa janela é cada vez menor

(Foto: Reprodução/TV Brasil)

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Opinião

O novo ministro da Saúde, Nelson Teich, assumiu há quase duas semanas e o saldo, até aqui, é grave: disse ‘nada com coisa alguma’ enquanto o Brasil somou mais de três mil mortes desde que ele foi anunciado como sucessor de Luiz Henrique Mandetta. O número de mortos mais que dobrou no período. É como se 15 Boeings 737, cheios de gente, tivessem caído Brasil afora nesses dias.

Um sinal de que a crise da saúde avança. O Observatório Covid-19 BR, coletivo que reúne especialistas de sete instituições e mede a ‘velocidade’ da doença no país, verificou recentemente que a curva de óbitos segue aumentando a um ritmo mais acelerado do que o registrado na Espanha quando o país europeu estava na mesma fase da pandemia, três semanas atrás.

Da primeira fala, ainda antes da posse oficial, e nas poucas entrevistas que deu até aqui, Teich limitou-se a afirmar obviedades. Constatou, ainda no dia da posse, o medo da população diante novo coronavírus e afirmou que é preciso ‘entender a doença e ter dados e informações’. Quanto tempo ele ainda precisa para perceber que o sistema de saúde dá sinais de colapso? Médico de carreira, ele tem agido como um consultor estéril, bem ao estilo do Governo que representa, mas bem longe do que era  esperado de um líder diante da mais grave crise sanitária dos últimos cem anos.

Teich está certo, devemos reconhecer, quando diz que o povo está com medo. Mas pelo o que se viu e ouviu até aqui, ele aparenta ser um motivo a mais para o medo e a insegurança do país. O novo ministro é um mal menor, claro, quando o comparamos com o próprio vírus ou com as declarações e atos irresponsáveis e negacionistas de Bolsonaro. Mas não precisávamos de mais um. Os dois, doença e presidente, já são ameaças mais que concretas de que caminhamos rumo a um obituário extenso, colecionando milhares de mortes em poucos meses, apesar dos esforços de governadores e prefeitos.

E as primeiras cenas de Teich na tarde de quinta-feira 16, quando anunciado para o cargo, já revelavam muito. Ao lado de Bolsonaro, no Palácio do Planalto, Teich parecia amedrontado, provavelmente com receio de já contrariar o ex-capitão em seus primeiros minutos como ministro. Sua postura (e também suas palavras) eram o avesso daquilo do que se espera de uma liderança em saúde pública em tempos de crise – ainda mais diante da envergadura e letalidade da pandemia.

Um líder não se esconde. Mas o novo ministro, sim. Nervoso, ele deixava os braços colados junto ao corpo, escondido atrás do púlpito com o microfone. São sutilezas da comunicação não-verbal que comunicam mais que quaisquer palavras. Os ombros arqueados e a cabeça levemente projetada para a frente emitiam outra mensagem igualmente preocupante: estávamos diante de um ministro submisso, subserviente às vontades do presidente.

A simples leitura corporal dos primeiros minutos de Teich como ministro nos diz que Bolsonaro, finalmente, havia conseguido o que queria: um soldado para mandar e não um aspirante a general que ousaria rivalizar e questionar as atitudes que beiram a insanidade presidencial. Não é surpresa alguma, portanto, o silêncio do ministro da Saúde diante de um presidente que, na pele de candidato a ditador, subiu na caçamba de uma caminhonete para inflar, no domingo passado (19), um aglomerado de insensatos lutando pelo fim da democracia e pela instituição de um novo AI-5.

Tampouco surpreende um Nelson Teich calado enquanto o ex-capitão estimula carreatas pedindo o fim da quarentena e fazendo buzinaços na porta de hospitais sobrecarregados de pacientes com a Covid-19, como aqueles protagonizados por apoiadores em São Paulo. A horda bolsonarista se diz nacionalista, mas visivelmente não respeita a vida de seus compatriotas.

Nunca é demais lembrar: Bolsonaro entra para a história como o primeiro presidente em todo o planeta a demitir seu ministro da Saúde em pleno caos sanitário. Talvez outros sejam trocados mundo afora, mas com certeza Mandetta será o único demitido por fazer o trabalho que tinha de ser feito e seguir o receituário preconizado pela Organização Mundial da Saúde.

Desde então, Nelson Teich só fez crescer – de maneira tão exponencial quanto a curva de propagação do novo coronavírus – o medo e as incertezas sobre como o governo agirá daqui pra frente. Primeiro, pela voz trêmula e a hesitação na escolha das palavras. Segundo, pelas frases pomposas, mas completamente carentes de conteúdo, como essa, dita há quase duas semanas: “Como a gente tem pouca informação e é tudo muito confuso, a gente começa a tratar a ideia como se fosse fato e começa a trabalhar cada decisão como se fosse um tudo ou nada e não é nada disso”.

O novo ministro se mostrou – lá atrás e também depois – um completo neófito em saúde pública. Um tecnocrata de laboratório sem qualquer vivência em gestão de crise. Dos seis minutos e meio de seu primeiro pronunciamento, gastou quase um terço do tempo discursando sobre a importância da atividade econômica. Tão estranho quanto se Paulo Guedes se arriscasse a falar sobre os benefícios da cloroquina no tratamento da Covid-19.

Teich, que fez mestrado em Avaliação Econômica de Tecnologia de Saúde na Universidade de Iorque, no Reino Unido, falou como um empresário da saúde, que sempre viveu do e para o sistema privado. Para o novo ministro, a saúde é um negócio, o que é o oposto dos princípios universais e humanistas do SUS, o Sistema Único de Saúde. Na coletiva, uma semana depois, ele se mostrou mais preocupado com a saúde financeira dos hospitais privados, durante e após a crise, do que com um dado que ele trazia anotado em um papel à sua frente: o número de mortos no dia. Naquela tarde, beirávamos as três mil mortes.

Na lógica teórica e empresarial do novo ministro, é preciso fazer escolhas. Ainda antes de ele assumir a pasta, circulou por grupos de WhatsApp uma fala dele durante um congresso de oncologia, em maio de 2019. No vídeo, Teich diz: “Você vai ter que fazer escolhas. Então você vai ter que decidir onde você vai investir. Então, sei lá, eu tenho uma pessoa, que é uma pessoa mais idosa, que tem uma doença crônica avançada e ela teve uma complicação. Para ela melhorar eu vou gastar praticamente o mesmo dinheiro que eu vou gastar para investir num adolescente que tá com um problema. O mesmo dinheiro. É igual. Só que essa pessoa é um adolescente que vai ter a vida inteira pela frente e o outro é uma pessoa idosa que pode estar no final da vida. Qual vai ser a escolha?”

As palavras ‘dinheiro’ e ‘investimento’ se repetem e são a base de seu raciocínio. Como empresário e, agora, como ministro. É o que ele têm como parâmetro para as decisões que devem ser tomadas na Saúde. Bolsonaro elencou para o Ministério alguém que enxerga com naturalidade a escolha entre quem vive e quem morre. É o avesso do que prega um sistema de saúde universal, cuja missão é salvar pacientes, seja ele idoso ou jovem.

O SUS, a propósito, só foi citado por ele en passant, quando defendeu um amplo programa de testes para diagnosticar o novo coronavírus. É o que todo mundo defende e o que foi feito países que conseguiram reverter o quadro, antes da curva ascender vertiginosamente. O ministro só se esquece que há uma carência enorme em acesso a testes e temos 200 milhões de habitantes.

Nelson Teich passou boa parte do tempo, do primeiro pronunciamento às coletivas, em falas teóricas. Abril praticamente chega ao fim e o ministro parece parado no espaço e no tempo em suas conjecturas, que podem até funcionar em lives com investidores, mas não refresca a vida de médicos e enfermeiros Brasil afora. Para ele, é preciso entender a doença e trabalhar com análise de dados, o que vai determinar o momento que será possível relaxar o isolamento social. 

Na quinta-feira 16, o Brasil alcançava o patamar de duzentas mortes por dia, algo como um Boeing 737, destes que faz a ponte-aérea Rio-São Paulo, cheio de passageiros e tripulantes. Os seis minutos e 30 segundos que ele gastou para dizer nada com coisa alguma em sua primeira fala eram o intervalo exato, naquele dia, entre uma morte e outra provocada pelo novo coronavírus. Ou quem sabe o tempo suficiente para enterrar em valas coletivas ao menos 10 novos caixões de vítimas da nova doença, como aquelas que vimos em cenas em Manaus, tão tristes quanto apocalípticas.

Nesta terça-feira 28, porém, foram mais de 470 mortes – ou um Boeing 777 das rotas internacionais. O tempo entre uma morte e outra caiu para pouco mais de três minutos. Para o medo mais que justificável da população, essa janela de tempo é cada vez menor. A tempestade chegou e, ao que tudo indica, estamos sem piloto em meio à mais pesada das turbulências.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É jornalista e assessora parlamentar no Congresso.

É jornalista e consultor em comunicação política.

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