Alberto Villas

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Opinião

O retrato que eu lhe dei

A música grudou na minha cabeça até o final da faxina, até a limpeza geral na cozinha com o infalível Mister Músculo

Foto: Grant Hindsley/AFP (Getty Images)
Foto: Grant Hindsley/AFP (Getty Images)
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Antes de qualquer faxina aqui em casa, há uma palavra de ordem. Antes mesmo de encher o balde com todos os produtos de limpeza, panos, escovinhas, Polyflor, antes de mesmo de passar a mão na vassoura, no espanador, no rodo, a ordem:

Alexa, toca música brasileira!

Sábado passado, ela começou sua playlist com a voz doce da Adriana Calcanhoto, cantando um velho sucesso dos anos 1960, quando eu não costumava fazer faxina em casa. Quem fazia era Antônia.

O retrato que eu lhe dei

Se ainda tens não sei

Mas se tiver

Devolva-me

A música grudou na minha cabeça até o final da faxina, até a limpeza geral na cozinha com o infalível Mister Músculo.

Depois de Devolva-me, a Alexa nos brindou com Morena Tropicana, Juventude Transviada, Preta Pretinha, Ouro de Tolo, Dia Branco, mas o que ficou grudado em mim foi o tal do retrato que lhe dei.

Primeiro, pensei com os meus botões: Gente, ninguém mais vai na Fotoptica tirar um 3X4 preto e branco para dar para a namorada, para o namorado. Todo mundo dava e as carteiras de couro onde guardávamos as notas de cruzeiro tinham espaço para duas fotos, uma foto dele, outra dela.

A última foto que recebi, com dedicatória no verso, foi a de Teresa, uma loirinha que morava na cidade de Cataguases, na Zona da Mata mineira. Ela tinha os cabelos escorridos até os ombros e estava seriíssima na foto, olhando fixamente pra câmera da única lojinha que fazia fotos 3X4 naquele cidade do interior.

A foto ficou um tempo na minha carteira e eu via Teresa todos os dias quando ia gastar meus poucos cruzeiros de estudante. Pessoalmente, só a via quando ia passar os fins de semana em Cataguases, depois de uma viagem de ônibus que parecia não ter fim.

Não me lembro, mas eu também devo ter dado uma foto para Teresa guardar na sua carteira de couro vermelho. Lembro-me dos meus olhos meio esbugalhados com o flash, os cabelos cheios de caracóis, uma camisa com a gola bem engomadinha, vaidoso que eu era.

Na época, eu ouvia muito aquele primeiro disco tropicalista do Caetano que terminava com a música Êles, ainda com circunflexo, que dizia que não há amor como o primeiro amor, como o primeiro amor, que é puro e verdadeiro. Eu acreditava nas palavras do jovem poeta baiano.

Cinquenta e tantos anos depois, confesso que o retrato que Teresa me deu eu não tenho mais. Mas o retrato que eu lhe dei, Teresa, se ainda tens não sei, mas se tiveres, devolva-me.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Alberto Villas

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