Jamil Chade

Jornalista, correspondente internacional, escritor e integrante do conselho do Instituto Vladimir Herzog

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O quintal europeu de Trump 

Os Estados Unidos minam a União Europeia e apostam em um continente fragmentado e submisso 

O quintal europeu de Trump 
O quintal europeu de Trump 
O presidente dos EUA, Donald Trump. Foto: Kent Nishimura/AFP
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Dois líderes europeus de países aliados dos EUA acabam de descobrir que, para Donald Trump, não há qualquer limite à ingerência em assuntos soberanos de outros governos. Georgia Meloni, primeira-ministra da Itália e representante de um movimento ultraconservador, foi obrigada a ir às redes sociais para rebater uma provocação por parte do republicano. Segundo ele, a italiana teria mendigado por uma foto ao seu lado e tentado se aproveitar de sua imagem. Meloni respondeu com vigor e fez uma pergunta: por qual motivo o líder dos EUA faz isso com seus próprios aliados? A pergunta é a que todos se fazem na Europa.

Dias depois, Trump cruzaria outra fronteira ao publicar, em suas redes sociais, uma mensagem de que Keir ­Starmer iria renunciar ao cargo de­ ­premier do Reino Unido antes mesmo de o britânico fazer o anúncio aos seus cidadãos, 24 horas depois.

Ingerência, humilhação e pressão têm marcado a relação entre o Velho Continente e os Estados Unidos. Enquanto as capitais da Europa tentam coordenar posições e buscar formas de lidar com essa nova realidade, uma constatação finalmente domina os corredores do poder no continente: a Europa é apenas mais um quintal de Trump.

A impressão de submissão não vem apenas de gestos públicos ou de uma diplomacia de redes sociais. A Casa Branca sinalizou que seu objetivo é o de promover uma ruptura em relação ao status quo com a Europa, enfraquecer o projeto de integração e lidar individualmente com os governos nacionais. Na visão de Trump, não há mais a ideia de um Ocidente Liberal unido, uma construção que dominou o imaginário de europeus e norte-americanos desde quando as democracias de ambos os lados do Atlântico se deram as mãos para derrotar o nazismo.

Em todas as decisões, a Casa Branca passou a usar apenas uma régua, o seu próprio interesse diante do que muitos em Washington consideram um desafio existencial da hegemonia norte-americana no século XXI. O que era uma suspeita ao longo dos primeiros meses de 2025 ganhou estrutura política em dezembro. Num documento histórico, o governo Trump anunciou a Estratégia de Segurança Nacional e, nele, há apenas uma certeza em relação ao Velho Continente, o desejo de Washington de promover uma ruptura em uma região “decadente”.

A chantagem em relação à anexação da Groenlândia, território de um país europeu e aliado, a aplicação de tarifas contra economias da UE ou os atritos com diferentes líderes revelaram aos chefes de governo e negociadores do bloco que a lógica da Casa Branca mudou. Argumentos que os uniam, como a defesa de democracias liberais, deixaram de servir de parâmetros para a tomada de decisões conjuntas. A segurança não está relacionada sequer com um perfil específico de nações.

As críticas à Otan ilustram a vontade de se desvincular de um sistema de segurança coletiva. Durante a reunião do G7 na francesa Evian, ficou claro que a guerra na Ucrânia era ainda o catalisador dessas tensões. Do lado de Paris e Berlim, a escolha por bajular o norte-americano na esperança de que ele volte a assumir a defesa de Kiev resultou em um dos capítulos mais humilhantes da história recente do continente. Ao recusar-se a apoiar de forma inquestionável a Ucrânia, Trump força a Europa a assumir os custos de sua defesa. E qualquer ocasião é usada para reforçar essa mensagem. Em 9 de abril, após uma reunião com o secretário-geral da organização, Mark Rutte, Trump publicou no Truth Social uma crítica à aliança militar, alertando que ela não esteve presente quando ele necessitou, no caso do Irã, e que não iria perdoar esse fato.

Trump ainda declarou uma guerra civilizatória na Europa. Para construir esse afastamento, a imagem desenhada ao longo de década de uma relação entre aliados foi substituída por uma mensagem de uma Europa frágil e decadente. No lugar de uma união cada vez mais forte, a Casa Branca aposta na volta do Estado-nação como centro do debate e o fim do consenso europeu. Em sua receita para o Velho Continente, sugere o nacionalismo como uma espécie de resistência.

A contrarrevolução promovida pelos EUA não é apenas uma influência difusa na Europa. Trata-se de um movimento organizado para promover uma mudança de regime no continente por meio de cúmplices como o AfD na Alemanha, o Chega em Portugal ou o Vox na Espanha. Trump, portanto, alimenta não apenas um ataque do exterior ao bloco, mas a partir de suas próprias entranhas.

O objetivo dessa ofensiva é uma Europa fragmentada, que não se reconhece mais em uma união construída ao longo de décadas. Mas em Estados-nações indivi­duais, mais fácil de dominar e nos quais ecoam termos como ­Hinterhof, ­podwórkiem, b­aghave, dvorom e ­l’arrière-cour. Ou simplesmente, quintal. •

Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O quintal europeu de Trump ‘

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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