O que você acha da gente pedir?

'Com a portaria do meu prédio transbordando de compras, a síndica teve de fazer um puxadinho pra armazenar os pacotes'

Foto: iStock

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Opinião

Nos primórdios da Internet, me lembro bem, o brasileiro morria de medo de comprar qualquer coisa online. Dar o número do CPF, do cartão de crédito, data de validade, código de segurança? Nem morto!

O brasileiro saia de casa com o dinheiro na mão pra comprar qualquer coisa. Comprar de tudo, fazer o supermercado, comprar o pão de cada dia, e comprar também coisas grandes: geladeira, televisor, sofá, cama, colchão.

Além de ter certeza de que não estava revelando seus dados pra ninguém, ele gostava de ver tudo de perto. Ligar o televisor, ver o corte do jogo de facas, a tampa da garrafa térmica, abrir e fechar a porta da geladeira, medir a cama King Size para saber se cabia no quarto de casal.

Ai veio a pandemia!

Aos poucos, ele foi criando coragem e arriscando. A primeira vez que comprou meia dúzia de pratos na Tok Stok, ficou com o coração na mão e batendo disparado.

Será que vai dar certo?

Será que não vou cair num golpe?

Vão entregar em três dias úteis?

Chegarão inteiros os pratos?

Chegaram! No dia certo, na hora certa, inteirinhos, embalados em papel bolha e tudo. Aí o brasileiro disparou a comprar pela Internet, sem medo de nada, sem medo de ser feliz.

Com a portaria do meu prédio transbordando de compras, a síndica teve de fazer um puxadinho pra armazenar os pacotes que chegam a cada minuto. Caixas de aspiradores, liquidificadores, televisores, forninhos, pacotes de travesseiros, edredons, livros, tem de tudo.

E pedir comida?

Entre meio-dia e duas da tarde, vejo aqui da janela pelo menos uns seis entregadores na porta do prédio, esperando os moradores virem buscar seus pedidos.

Hambúrgueres.

Estrogonofes.

Esfirras.

Feijoadas.

Bifes à milanesa com fritas.

Risotos.

Japas.

O cardápio é variado, sempre acompanhado de Coca, Guaraná, Fanta, Cerveja, suco de laranja, de mexerica, de uva, de melancia, de morango.

Verdade seja dita. Depois de trabalhar a manhã inteira no home office, ninguém tem coragem de pilotar um fogão e o que mais se ouve nesta hora é:

O que você acha da gente pedir?

O mundo delivery está a todo vapor. Outro dia desci para buscar o meu almoço e uma mocinha chegou junto comigo. O porteiro entregou a ela um embrulho meio enjambrado do Magalu e ela respirou aliviada:

Que bom, chegou o meu espanador!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

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