Erica Malunguinho

Pernambucana, artista e educadora. Mestra em Estética e História da Arte, tornou-se a primeira deputada estadual trans eleita no Brasil, em 2018.

Opinião

O que a jovem trans linchada nos diz sobre a história da educação e da cultura

Chegamos no momento em que é preciso represar e tratar a corrente de ódio que toma o País

Foto: Reprodução
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Existe um lugar onde é possível reunir forças contra os maiores males da humanidade. O recinto perfeito para o combate à intolerância, a estrutura-mãe da educação: a escola deve ser colocada no âmbito sacro de uma sociedade ideal, onde governaria o bom senso e a cooperação.

Enquanto o racismo, a misoginia e a LGBTfobia se entrelaçam numa mesma herança de ódio, a escola carrega consigo a esperança por dias melhores. E assim se faz desde os mais remotos tempos.

A contemporaneidade nos remete a alguns marcos da corrida por igualdade, sempre com a instituição como protagonista. Foi nela que, em 1960, Ruby Bridges se tornou peça de uma das mais icônicas imagens do século 20, ao subir as escadarias da Escola Elementar William Frantz cercada de seguranças, tornando-se a primeira criança negra a estudar em uma escola primária caucasiana. O fato ocorreu na Louisiana, nos Estados Unidos, reverberando um passo fundamental no lento processo de inclusão dos negros à uma sociedade dominada por brancos.

Todes conhecemos a história de Malala Yousafzai, a menina que enfrentou o Talibã pelo direito à educação e quase perdeu a vida quando foi atingida por um tiro, no ônibus quando voltava da escola. Malala assim como Ruby Bridges são símbolos de luta e emancipação das meninas pelo direito à educação.

Muito antes, as mulheres obtiveram algumas conquistas rumo à emancipação, e lá estava a escola como marco fundamental. O ingresso delas na educação iniciou uma nova era na percepção social – controlada por homens – de suas capacidades e possibilidades.

No Brasil Colônia, quando as escolas eram geridas pelos jesuítas e voltadas exclusivamente à elite masculina, foi uma indígena, Catarina Paraguassu, segundo registros históricos, a primeira brasileira alfabetizada, contra a vontade da rainha de Portugal. Às mulheres só foi permitido o ingresso nos cursos normais no início do século 19, quando a sua força no mercado de trabalho já não podia ser ignorada.

As lutas pela inclusão na educação formal são históricas e seguem vulnerabilizando as chamadas minorias políticas. Mas se a escola resiste como território de esperança, apesar dos retrocessos a que assistimos no Brasil, um dos grupos menos absorvidos na caminhada pela inclusão é o da população trans, cujos relatos de opressão e violência em suas rotinas diárias são estarrecedores.

Segundo a Pesquisa Nacional sobre o Ambiente Educacional no Brasil, publicada em 2016, 43% das pessoas trans entrevistadas sentiam-se inseguras com relação à identidade e ou expressão de gênero no ambiente escolar. Já 55% afirmaram ter ouvido comentários negativos especificamente a respeito de pessoas trans nestes locais; 68% dos entrevistados já tinham sido agredidos verbalmente e 25% deles sofreram agressões físicas na escola, por causa da identidade e ou expressão de gênero.

Essas informações nos levam aos acontecimentos recentes em Mogi das Cruzes, na Escola Estadual Galdino Pinheiro Franco, onde uma aluna trans foi espancada por um grupo de 10 jovens. O absurdo fato nos faz refletir, com ainda mais afinco, sobre a necessidade urgente de retomarmos o papel da escola enquanto berço da construção de cidadanias, como local onde toda forma de discriminação deve ser combatida.

Precisamos nos empoderar dos direitos conquistados pela população trans e levá-los, mais que nunca, ao âmbito escolar. Sempre importante ter em mente a Resolução n.12/2015 do Conselho Nacional de Combate à Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Travestis e Transexuais, que “estabelece parâmetros para a garantia das condições de acesso e permanência de pessoas travestis e transexuaisnos sistemas e instituições de ensino, formulando orientações quanto ao reconhecimento institucional da identidade de gênero e sua operacionalização”.

Chegamos no momento em que é preciso represar e tratar a corrente de ódio que toma o País. É preciso se atentar às crescentes células ligadas a pautas neofascistas / nazistas e a discursos de intolerância, minimizando a escravidão e a violência contra a mulher, que têm se espalhado de forma muito veloz. Diferentemente dessas vozes, precisamos amplificar a denúncia e a nossa indignação. Que essa seja a tônica de 2022 e adiante sempre!

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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