O protagonismo evangélico

O esperto oportunismo que aprendeu a adoçar a boca de Bolsonaro talvez seja o principal fato político recente

Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

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Opinião,Política

Infelizmente, a administração Bolsonaro tem se caracterizado por aprofundar a separação dos brasileiros em lugar de harmonizá-los em torno do que deve ser nosso objetivo comum: a construção de uma sociedade civilizada, na qual mesmo o menos privilegiado de seus membros encontre, com seu esforço pessoal apoiado em políticas públicas bem concebidas e focadas, forma de realizar-se socialmente com dignidade. Os preconceitos identitários que determinam sem nenhum suporte empírico razoável medidas truculentas do Executivo contra o Legislativo (exemplo: forçar a aprovação da liberdade das armas) e contra o Supremo Tribunal Federal (exemplo: criticar a medida civilizatória sobre a população LGBT), não podem ser justificadas por “ele ter sido eleito com 59 milhões de votos”, como supõem alguns dos seus primitivos seguidores, mesmerizados pelo mito do “Messias”.

É preciso reter bem estes números: o presidente foi eleito com 39% dos votos válidos de 146 milhões de eleitores que elegeram o Congresso. O seu partido, o PSL, conseguiu pouco mais de 10% da Câmara dos Deputados. Ele não pode governar sem estabelecer uma maioria estável como, aliás, ocorre em todas as democracias. Logo, ele tem de compartilhar, republicanamente, o poder. As duas imensas manifestações públicas da última semana, a dos evangélicos e a LGBT em São Paulo, mostraram como estamos longe de uma eventual maioria com poder para calar qualquer minoria, se isso fosse possível numa democracia.

Foto: Isac Nóbrega/PR

A importância que está assumindo o esperto oportunismo evangélico que aprendeu a adoçar a boca de Bolsonaro, é talvez o fato político mais relevante da última semana. O enorme protagonismo político assumido pelas igrejas evangélicas não deveria ser surpresa. Há alguns anos a Igreja Católica, sabe-se lá por que, proibiu a participação de seus sacerdotes na política partidária. Ninguém mais lembra do comportamento de seus deputados. Eram oradores brilhantes e intelectuais esclarecidos. Lentamente, ela reduziu a quase nada a sua atividade pastoral urbana, onde era a mais importante instituição promotora da solidariedade local. Concentrou sua atenção no campo e assumiu um pobre “marxismo de paróquia”, criado por pequenos intelectuais cristãos em estado de dúvida religiosa. Ela abandonou a população urbana (85% da total) à própria sorte, traindo sua missão evangélica.

No bairro do Cambuci, na cidade de São Paulo, onde eu nasci há 91 anos, a velha Igreja do Carmo era o centro dinâmico da solidariedade local. Os fiéis reuniam-se nos fins de semana para a prática religiosa seguida de uma rica convivência. Sob o comando do enérgico pároco, ajustavam-se os problemas familiares; as grávidas recebiam um pequeno enxoval feito pelas outras senhoras; o desempregado arranjava emprego com a colaboração dos outros; o doente era ajudado e confortado, tudo como se fosse uma harmoniosa família cristã. Hoje vazia, ela é uma sombra do que foi. Felizmente, foi substituída por uma dezena de “templos evangélicos” onde, de modo diferente, se constrói a mesma solidariedade. É certo que exigem o “dízimo” que os enriquece, mas o fato é que funciona!

Funciona tanto que seu crescimento político tem sido exponencial, a ponto de se transformarem em diversas organizações partidárias, nas quais prevalece a ordem e a fidelidade que, numa certa medida (e graças a Deus!), competem entre si pelo poder, o único desejo insaciável do homem, do qual nem o mais santo bispo escapa. Mas a diferença é adjetiva. Todas negam o conhecimento empírico e prendem-se a um dogmatismo moral e religioso.

O eleitorado evangélico sob o comando inteligente do deputado federal paulista Marco Feliciano encaixado no Podemos, que habilmente adula Bolsonaro, parece ter tocado no nervo exposto do presidente à questão religiosa. Estamos ameaçados por uma nova ideologia: o dogmatismo religioso de inspiração evangélica que sofre de hemiplegia mental. Só é capaz de pensar um lado e é imune à acumulação gigantesca de evidências empíricas contra seus preconceitos.

Hoje o maior problema do presidente é sua incapacidade de organizar o seu gabinete civil: uma mixórdia de Casa Civil, Secretaria de Governo, Secretaria-Geral, assessoria ideológica e os filhos. Posto no liquidificador, isso produz “confusão e fofoca”. Há um erro organizacional que torna disfuncional o cérebro do governo e que precisa ser corrigido. Apenas a nomeação de um ilustre general (mais um oficial superior da ativa!), o senhor Luiz Eduardo Ramos, mesmo evangélico, será incapaz de corrigi-lo.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Formado pela USP, é professor de Economia, além de ter sido ministro e deputado federal.

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