O protagonismo das juventudes na construção de outros modos de fazer política

Acreditar na potência dos jovens brasileiros não é simplesmente falar, da boca para fora, que eles são 'o futuro da nação'

 Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Opinião

Os jovens não estão apáticos em relação à política. A palavra é outra: antipatia. Não pela política em si, que, de alguma forma, está no dia a dia de grande parte deles, mas pela maneira como a política vem sendo gerida. Antipatia pelos protagonistas da nossa democracia – um elenco antigo, datado, que se recusa a sair de cena.

Um dos grupos mais impactados pela pandemia e pelo retrocesso das políticas públicas, os jovens vêm sendo menosprezados, colocados em segundo, terceiro, quarto plano – mesmo sendo cerca de 25% da população. É uma fatia bem grande e que precisa ser levada em conta não só como executores, mas como fazedores e realizadores de novas realidades. É, acima de tudo, uma fatia que importa e que pode – vai – fazer a diferença.

Uma pesquisa na América Latina divulgada em outubro pelo Latinobarómetro mostra que o maior “déficit democrático” na região está entre os jovens. Há 15% menos jovens apoiando a democracia do que adultos. Fica claro que, do jeito que está, a democracia deixou de chamar a atenção dos jovens.

Ao mesmo tempo, eles e elas têm plena consciência de que os líderes têm o poder de decisão em relação à ação climática, ou seja, ao futuro coletivo. Os jovens não estão alienados, pelo contrário: sabem muito bem como as decisões políticas impactam suas vidas. Inflação, desemprego, retrocesso em políticas públicas – tudo isso interfere para que possam imaginar politicamente futuros possíveis.

Como bem colocou Márcio Black, sociólogo e coordenador do programa de Cidadania Ativa da Fundação Tide Setúbal, uma série de barreiras  impostas romperam o ciclo de desenvolvimento das juventudes. E esse desenvolvimento de que estamos falando não é só econômico; é também social, emocional, educacional, é acesso ao lazer e cultura, é sustentabilidade. São perspectivas de futuro.

Paulo Freire tem uma frase que sempre me inspira: “Esperançar é se levantar, esperançar é ir atrás, esperançar é construir, esperançar é não desistir! Esperançar é levar adiante, esperançar é juntar-se com outros para fazer de outro modo…”  Ao entrar em contato direto com jovens inovadores na política institucional e eleitoral brasileira, através do projeto Jovens No Poder, que está sendo desenvolvido pelo Instituto Update, pude conhecer pessoas e histórias de jovens que viram na política uma ferramenta de transformação social. Conscientes dos desafios atuais e atentos/as às mudanças tecnológicas e digitais, estão propondo transformações estruturais que possibilitam o resgate da confiança na política.

 

Ainda há muitos desafios no que se refere à participação de jovens na política. Para mudar essa realidade, precisamos nos juntar e pensar em estratégias convidativas para que mais jovens, com qualidade democrática e práticas de inovação política pautadas na redução das desigualdades sociais e justiça climática , possam ocupar espaços de poder e de decisão. Parte disso vem com a delegação de jovens na COP26, que, maior do que nos anos anteriores, está participando ativamente da definição das metas fundamentais para o combate à emergência climática.

Acreditar na potência dos jovens brasileiros não é simplesmente falar, da boca para fora, que eles são “o futuro da nação”. É muito mais do que isso: é abrir espaços no presente para que pessoas negras, trans, quilombolas e indígenas estejam no centro das tomadas de decisão, cocriando futuros democráticos, plurais e baseados nos princípios do bem-viver.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Relações públicas, especialista em Educação e Cultura pela Flacso Brasil. É coordenadora da pesquisa Jovens no Poder: Redesenhando o rumo da política do agora, do Instituto Update

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