Marcos Coimbra

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Sociólogo, é presidente do Instituto Vox Populi e também colunista do Correio Braziliense.

Opinião

O problemão do capitão

Em três anos e meio no governo, Bolsonaro não conseguiu ampliar a presença entre eleitores que não votaram nele e perdeu uma parcela considerável do apoio daqueles que o elegeram

Foto: EVARISTO SA / AFP
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Entra pesquisa, sai pesquisa, o problemão do capitão continua o mesmo: é o governante brasileiro mais mal avaliado da história, considerando as circunstâncias. Talvez, por condescendência, pudéssemos dizer que fica “praticamente” idêntico, após, nos últimos meses, um sinal mínimo de melhora, na margem de erro das pesquisas. O que, no fundo, significa a mesma coisa.

Todo governante, do prefeito da cidade pequena ao presidente que quer ficar no cargo, tem um problema: precisa defender, perante a maioria do eleitorado, o trabalho que fez no mandato, de maneira a justificar o pedido de um voto na continuidade. O capitão está nesse ponto. Quer ficar no poder, por razões que vão desde proteger seus interesses a evitar que seus atos como presidente sejam julgados. O que preferiria, claro está, é não ter de se submeter a uma eleição, recebendo o apoio de soldados e tanques para permanecer. Mas, lamentavelmente (para ele), tudo indica que caminhamos mesmo para votar e acatar o resultado.

Importa pouco que tenha obtido, em 2018, a maioria no segundo turno. Dado o desconhecimento que prevalecia a seu respeito, cultivado por sua campanha, que o escondeu do escrutínio popular com o subterfúgio dos “problemas de saúde”, muitos eleitores votaram em Bolsonaro aceitando correr um risco. Para levá-los a votar outra vez seria necessário convencê-los de que a aposta deu certo, que o voto valeu a pena.

A esse contingente se soma o eleitorado que preferiu outros nomes, no primeiro ou, especialmente, no segundo turno. Em princípio, eleitores que poderiam estar satisfeitos ou ser atraídos por seu trabalho como presidente, a ponto de se dispor a rever o voto dado na última eleição. E ainda restam os que votaram nulo, deixaram o voto em branco ou não compareceram há quatro anos, entre os quais poderia conquistar apoiadores.

Os três subconjuntos formam uma sólida maioria e são o problemão do capitão: em três anos e meio no governo, ele não conseguiu ampliar a presença entre eleitores que não votaram em seu nome e perdeu uma parcela considerável do apoio dos que o elegeram.

A aprovação do governo, nas pesquisas mais recentes, anda na casa de 30%, dividida entre alta (em torno de 12%) e média (em torno de 18%). Vice-versa, a desaprovação está próxima de 70%, com 50% da população afirmando que “desaprova muito” o governo e cerca de 20% que o desaprova, mas não totalmente.

Estamos a cinco meses da eleição e Bolsonaro faz um governo desaprovado por mais que o dobro daqueles que o aprovam. Que é muito desaprovado por cinco vezes mais brasileiros que aqueles que o aprovam muito.

É possível reverter esses números em cinco meses, quase dobrando a aprovação (e, portanto, reduzindo a quase a metade a desaprovação) de um governo que levou 40 meses para chegar a esse ponto? A maioria se convencerá de que tudo o que viu da atuação do governo, que a levou às opiniões que tem, estava errado e que o correto é o inverso, que o capitão faz um governo que merece aprovação? Que deve prosseguir por outros quatro anos?

Há quem tenha uma avaliação tão desrespeitosa dos sentimentos populares que acredita que é tudo questão de dinheiro. Que o verdadeiro milagre necessário a mudar as percepções do País a respeito do capitão pode ser comprado: um tanto de dinheiro na mão do eleitor, um tanto na mão de prefeitos, um tanto na mão de deputados, um tanto na mão de bispos picaretas. Sem contar, é claro, um tantão nas mãos de sempre, de bilionários e magnatas da mídia.

Alguma diferença pode fazer, mas a respeito da eficácia dessa estratégia para melhorar as percepções sobre Bolsonaro, temos uma boa referência: o que aconteceu com ele em 2020. No fim de abril, a avaliação positiva do governo estava em 33%, segundo pesquisa telefônica do Datafolha, e passou para 37% no fim de dezembro, de acordo com o mesmo instituto. O que quer dizer que subiu 4 pontos porcentuais em oito meses, algo próximo a meio ponto ao mês.

Foi essa a melhora da avaliação do governo, enquanto perto de 500 bilhões de reais eram distribuídos, dos quais mais da metade em transferências diretas (Auxílio Emergencial, aumento do Bolsa Família etc.). Nunca se viu a distribuição de tanto dinheiro e nunca se viu um crescimento tão pequeno da popularidade­ de um político. O que sugere que a matéria-prima da imagem do capitão é tão ruim que nem assim melhora.

Ele tem mesmo um problemão.

PUBLICADO NA EDIÇÃO Nº 1205 DE CARTACAPITAL, EM 27 DE ABRIL DE 2022.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título “O problemão do capitão”

 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Marcos Coimbra

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