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O Príncipe e a Feminista

Opinião

Era uma vez uma atriz norte-americana – divorciada e feminista declarada – que casou com o Príncipe ocupante do 6º lugar na linha sucessória para o trono de um reino questionavelmente unido. Para isso, foi treinada para a discrição e abandonou a carreira na TV e o ativismo em prol da equidade de gênero, materializado no seu papel como Embaixadora da ONU Mulheres. Ah, o amor.

Estariam Meghan Markle e o Príncipe Harry apaixonados? Espero que sim, pois não tenho coração de gelo e o amor pode ser lindo. No entanto, o afeto entre o princeso e a plebeia pouco importa para os propósitos deste texto. O foco aqui é em outro fato, este inequívoco: as comemorações do casamento que os transformou em Duque e Duquesa de Sussex são manifestações de uma tradição midiática característica deste período elisabetano.

A coroação da Rainha Elizabeth foi a primeira da história das monarquias globais a ser transmitida ao vivo, na então incipiente TV BBC. Antes disso seu pai George VI, apesar de gago, fazia festejados discursos transmitidos pela Rádio BBC.

Ele, que assumiu a contragosto o posto de Rei porque seu irmão mais velho, Edward VIII, abdicara para casar-se com Wallis Simpson – outra americana divorciada, e por isso na época era inconcebível que ela fosse aceita no palácio. Poucos anos depois Margaret, irmã de Elizabeth, declinou a legitimação social do amor por seu amante divorciado e não se casou com ele, garantindo os benefícios de sua titulação de Princesa.

Charles, o 1º na linha sucessória para a coroa, casou-se com Lady Diana Spencer em uma cerimônia fabulosa assistida por 2b de pessoas ao redor do mundo – a primeira da monarquia britânica a ser transmitida ao vivo pela TV, em 1981 (curiosamente, 25 anos após a primeira e até então única transmissão de um casamento real, o de Rainier III de Mônaco com Grace Kelly, também atriz americana).

Diana tinha origem aristocrática, mas entrou para a História como a “Princesa do povo” porque soube controlar sua narrativa e legado pessoal como filantropa depois de sucessivamente escandalizar Buckingham com o descumprimento de protocolos reais.

Um deles o bastante público divórcio, complementado por uma entrevista em que detalhava o caso do futuro ex-marido com a também aristocrática Camilla Parker-Bowles. A relação, mantida antes e durante os primeiros matrimônios de ambos, durou após seus finais: os dois se casaram em 2005, o que conferiu a Parker-Bowles o mais importante título de Duquesa do reino… que calha de ser justo o da Cornualha.

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William (3º na linha sucessória), sua bela recata e do lar esposa Kate Middleton, de família plebeia porém rica, e seus filhos George, Charlotte e Louis (4º e 5º na linha sucessória, e visto que o 6º posto é de Harry não há prêmios para quem adivinhar qual não conta), vêm sendo usados como o pôster da família tradicional britânica desde o casamento deles, em 2011.

Nem as imagens dos dois sendo levados de um barco a um avião em cadeiras carregadas por corpos negros quando em visita oficial, ou fotos de um William rodeado de mulheres numa balada nos Alpes, parecem ter abalado a apresentação do casal.

Harry é o membro desta geração de Windsors cuja juventude foi mais marcada por escândalos. Uma foto de suas reais e ruivas pudendas aparentes em uma festa em Las Vegas é pinto comparada à roupa usada pelo Príncipe em outra balada VIP: o moço, cujo avô Philip veio da aristocracia alemã e é parente de apoiadores do nazismo, aparece dançando (com um amigo fantasiado de membro da KKK e outro de blackface/minstrel) e com uma camisa que ostentava insígnias do III Reich.

Os Windsor, e a noção de monarquia, no entanto, parecem sair mais fortes de escândalos. Isso deve ser porque usam o frenesi da audiência como barômetro para manter constante a pressão que resulta do interesse em suas representações. Rituais, escândalos e romances são material manipulável para, com uso estratégico das mídias, manter a opinião pública interessada em um império em risco de ser obsoleto.

Quando Elizabeth participou de um sketch em que interage com Daniel Craig representando James Bond, para a cerimônia de abertura das Olimpíadas de 2012, a linha borrada que mal distinguia o que é ficção ou realidade no mundo deles ficou aparente. A monarquia britânica, já sem a força do império territorial, mantém seu domínio e relevância na arena do simbólico, adaptando tradições para parecer moderna enquanto segue vivendo sustentada por dinheiro público e valores do establishment.

Monarquias e casamentos são duas instituições construídas sobre valores do establishment, e veementemente questionadas pelos feminismos. É objetivamente bizarro que laços consanguíneos, Estado-patrimônio consolidado por matrimônios (que historicamente beneficiam homens em detrimento de mulheres) e a crença assoberbada de ser representante de Deus na terra mantenham certas pessoas em posições tão assombrosamente privilegiadas.

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Não é de surpreender a discussão feminista sobre o casório: ele sinalizou, como poucos fenômenos culturais conseguem, disputas, antipatias e contradições dos feminismos dos nossos tempos e pagos, por ter congregado elementos passíveis de análises de gênero, classe, mídia, colonialismo, religião, representação, representatividade, modelos de Estado, dinheiro público, fetiche, contrato e, importantemente, raça, visto que a noiva – bem como sua mãe e uma parcela significativa dos presentes na cerimônia, o elemento mais inédito deste ritual tipicamente espetaculoso da monarquia britânica – é negra.

Racismo tem relações íntimas com o projeto colonial, assim como machismo tem com realeza, e acusar o Reino Unido de práticas imperialistas é chover no molhado – eles não foram donos de praticamente um terço do planeta distribuindo algodão-doce. Porém o reino vem encolhendo, e vertiginosamente desde a coroação de Elizabeth, e sua manutenção depende da adesão do povo.

Meghan Markle – como Kate e Camilla, sobretudo após a morte de Diana – sabe disso muito bem: “É um novo capítulo”, ela afirmou sobre o casamento, deixando talvez escapar o que pensa sobre o caráter novelesco das narrativas acerca de sua nova família.

O furor midiático resultante dos rituais reais pode ser lido de forma semelhante àquele causado por nosso interesse por novelas, filmes e seriados. São estórias, que servem mesmo para organizar nossa visão de mundo. O que consideramos certo, errado ou desejável é, em boa parte, construído pelo poder, e é por isso que não me surpreende que os feminismos tenham se ocupado desta discussão, tão aparentemente frívola.

A noiva negra e feminista afinal reafirma ideais românticos se rendendo ao príncipe des/encantado, ou ressignifica tradições com o poder midiático de sua identidade? E importantemente, isso importa? O feminismo brasileiro deve se ocupar com o que acontece com os ricos poderosos do norte global?

Depende de como o engajamento se dá. O feminismo, me parece, deve estar atento ao que pensam as mulheres, e não somente as feministas. Se o casamento ainda é vendido – e comprado – como conto de fadas e destino ideal (o que é mesmo uma ficção, como prova a realidade até mesmo da família que promove com força esse valor), é importante sim estar presente em diálogos sobre isso. É papel do feminismo se atentar a símbolos que sustentam estruturas de opressão, para poder fazer disputas com conhecimento do que eles representam para outrem.

Feminismo, como colocou Nancy Hartsock, é “um modo de análise, um método de abordar a vida e a política, uma forma de levantar questionamentos e buscar respostas, ao invés de um arcabouço de conclusões políticas sobre a opressão das mulheres”.

Liberdade demanda reflexão crítica, e feminismo não existe para salvar nem redimir ninguém. O feminismo não substitui o proverbial príncipe encantado.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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É fundadora da Casa da Mãe Joanna e mestre em Gênero, Mídia e Cultura.

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