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O planeta na UTI
Não é mais possível separar a saúde pública da saúde do planeta. Entramos definitivamente no Antropoceno
Estamos completando o primeiro quarto de século XXI presenciando um colapso ecológico sem precedentes.
Uma revisão publicada neste mês na revista Nature mostra, com grande clareza, que a preservação dos biomas do planeta é condição indispensável para a garantia de dignidade e para a própria sobrevivência da humanidade.
Como escreveu Sarlet (2022), a dignidade da pessoa humana revela-se indissociável da integridade do sistema biofísico que a sustenta. Não há mais como separar a saúde pública da saúde do planeta, entramos definitivamente no Antropoceno.
Nesta nossa época, “o homem tornou-se a principal força geológica e biológica da Terra”, redefinindo o surgimento e a gravidade das doenças e tornando-se algoz de sua própria existência e das demais espécies que habitam o planeta.
A destruição dos biomas, e todo o desamor que ela encerra, traduz-se em um grande catalisador de crises sanitárias.
As mudanças climáticas alteram a dinâmica das doenças infecciosas na medida em que afetam a propagação dos vetores, pela água e pelo ar. O aquecimento global expande o alcance de mosquitos como o Aedes aegypti, e de insetos como o barbeiro.
É por isso que o vírus da dengue surge em áreas anteriormente imunes, como o sul da França e a Flórida, e que o Texas reporta casos autóctones de doença de Chagas.
Surtos de vírus respiratórios já foram observados fora de época este ano, e com mais gravidade, tornando necessária a revisão de estratégias vacinais e de proteção de populações mais vulneráveis.
A elevação da temperatura do Oceano Pacífico trará o super-El Niño, esperado para os próximos meses.
Os eventos climáticos extremos, como secas prolongadas ou inundações catastróficas, vão piorar este cenário. Inundações contaminam fontes de água potável, enquanto secas obrigam populações a consumir água de fontes poluídas, exacerbando surtos de cólera e outras doenças diarreicas.
À medida que as mudanças climáticas alteram os padrões de surgimento e da transmissão de doenças infecciosas, os sistemas de saúde devem estar prontos para responder às demandas que surgem.
Nessa nova realidade que já vivemos, torna-se importante a identificação e o reforço de cadeias de suprimentos de medicamentos e tecnologias essenciais, como testes, vacinas e equipamentos de proteção para os profissionais de saúde. É muito importante lembrar que tais crises ecológicas exacerbam situações de desigualdade.
O conceito de “racismo ambiental”, como deixa claro a Nature, denuncia a exposição desproporcional de comunidades negras, indígenas e periféricas aos riscos ecológicos e à escassez de recursos.
No Brasil, populações ribeirinhas e povos indígenas são os mais atingidos por práticas agrícolas predatórias e pelo extrativismo mineral, que contaminam os rios, impedindo o acesso básico à água e à alimentação segura. A proteção desses grupos é vital, pois seu modo de vida está arraigado à sustentabilidade.
O uso indiscriminado de agrotóxicos coloca em risco a nossa saúde e, ao contrário do que dizem aqueles que advogam em seu favor, eles causam perdas econômicas importantes. Vide o veto recente à carne brasileira pela União Europeia, devido ao uso abusivo de antibióticos e hormônios nos rebanhos nacionais.
Mais que nunca, as práticas de sustentabilidade devem ser incorporadas ao agronegócio, tanto por uma questão de zelo à saúde pública quanto por razões de ordem econômica.
Práticas predatórias do meio ambiente estão sendo marginalizadas. Já temos tecnologia suficiente e acessível para evitar a destruição da biodiversidade e produzir alimentos com eficiência e segurança.
As empresas que adotam leis de preservação ambiental e de respeito aos direitos humanos têm mais lucro.
Em maio de 2026, a Organização das Nações Unidas declarou que os países serão responsabilizados se apresentarem postura de inação climática – atitude que passa a ser considerada uma violação do direito internacional, passível de pedidos de ressarcimento e reparações.
Se o nosso aprendizado não vier por amor, virá pela dor. A sustentabilidade é, enfim, o maior ativo econômico do século. •
Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O planeta na UTI’
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