O “outro lado” e o “não obstante” no jornalismo de educação

Na Jeduca, o duplo desafio de qualificar a cobertura da educação e de conviver com financiadores politicamente interessados

O “outro lado” e o “não obstante” no jornalismo de educação

Opinião

Durante o 3º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação – realizado de 19 a 20 de agosto – a Fundação Itaú Social e a Associação de Jornalistas de Educação (Jeduca), organizadora do evento, lançaram um edital de bolsas cujo objetivo, segundo os proponentes, é “fomentar a produção de material jornalístico de qualidade sobre temas relevantes da educação pública brasileira”.

O site da iniciativa explica que, “por meio da comissão do edital, [a Jeduca] oferecerá mentoria aos selecionados no processo de apuração. (…) [incluindo] diálogos sobre fontes de dados, possíveis entrevistados e demais aspectos relacionados à produção do material jornalístico. Não obstante o suporte oferecido pela Jeduca, o jornalista terá total liberdade para a construção do material jornalístico, desde que a reportagem contemple várias fontes, busque o contraditório e dê espaço para o outro lado”.

“Não obstante”: a frase na qual essa locução é usada visa evitar que se interprete o suporte aos contemplados como intervenção no conteúdo das reportagens produzidas. Não obstante é justamente a necessidade de empregar uma locução com valor adversativo, o que chama atenção e incita a dúvida. A frase continua, e a expressão condicional “desde que” é convocada, então, para matizar a “total liberdade” em favor do jornalismo decente, baseado, sob esse ponto de vista, na garantia de espaço para o “outro lado”.

O trecho citado acima é reproduzido na versão integral do edital, mas sucedido pelo seguinte complemento, o único do item que é omitido no site: “Não haverá qualquer tipo de aprovação de conteúdo por parte da Comissão Editorial, da Jeduca e/ou do Itaú Social”. Só que o item seguinte do mesmo edital estipula que o acompanhamento dos selecionados será feito pelo envio de relatórios a cada 10 dias (no máximo) sobre o andamento da apuração, relatórios que “deverão incluir como anexo ao material produzido as fontes de dados, referências legais, estudos e outros dados usados no material jornalístico. O descumprimento destes deveres acarretará na devolução do apoio financeiro”. O edital não esclarece como a Comissão avaliará os relatórios e o que os proponentes querem dizer com garantir o “espaço para o outro lado”: será um acompanhamento sem aprovação de conteúdo?

O cuidado em reiterar a garantia da “total liberdade” – observados os limites de um jornalismo equilibrado – contrasta com a descrição do prêmio feita no site e logo no início do edital, que faz saber que “para a Categoria Jornalista, serão ofertadas, no mínimo, quatro bolsas para a produção de uma reportagem – sendo duas com temas definidos pelo Itaú Social e duas com pautas livres sobre educação pública brasileira”. Em seguida, chegando ao nível do pormenor, o edital (mas não o site) complementa: “No caso de haver mais que quatro propostas contempladas, não será mantida a lógica de, necessariamente, metade dos temas serem relacionados a cada parceiro; contudo deverá haver, no mínimo, duas pautas dos temas propostos pelo Itaú Social na totalidade das bolsas”.

É aí que descobrimos a “lógica” que rege a outorga das bolsas: metade dos temas são “relacionados a cada parceiro”. Isso quer dizer que duas reportagens terão temas definidos pela Fundação Itaú Social (que constam da última página do edital) e duas serão de, digamos, “pauta livre” – na verdade, orientadas pelo segundo parceiro, a Jeduca. Se houver mais contemplados, mais temas “livres” serão admitidos, desde que duas das reportagens garantam a contrapartida ao patrocinador, isto é, a Fundação Itaú Social. Ah: não obstante isso, e não obstante o acompanhamento do trabalho por uma Comissão que responde aos dois parceiros, e não obstante também a obrigação de dar espaço para “o outro lado”, a liberdade será total! E será ainda mais total para quem der a sorte de trabalhar em um dos temas livres.

Qualificar a cobertura de educação na imprensa

Incluo-me entre os que, em 2016, ficaram felizes com a criação da Associação de Jornalistas de Educação, a Jeduca. Na época, uma colega mais velha que também comemorava a chegada da Jeduca me disse que “o jornalismo de educação acabou”, e que esperava muito de uma associação como a Jeduca. Depois, contou como ela própria se relacionava com jornalistas que cobriam educação quando era mais jovem, e como tinha se tornado um tormento, a cada entrevista, ter que explicar inúmeras vezes para os focas, os jornalistas iniciantes, a estrutura do financiamento da educação básica no Brasil, as contradições do debate sobre acesso e qualidade, o problema do excesso de confiança nos indicadores educacionais, etc.

A conversa foi tão impactante que mudou a minha forma de ver a imprensa de educação. E faz uma década que me dedico a ler dezenas de matérias sobre educação quase que diariamente. De uns anos para cá, virei eu mesmo fonte de jornalistas que cobrem educação, exclusivamente ou não, veteranos e focas, em veículos grandes e pequenos.

Em 2018, a Jeduca tinha 880 associados, dentre eles os melhores jornalistas de educação do país. Produziu materiais de apoio à cobertura educacional, ofereceu cursos e promoveu diversos webinários temáticos sobre educação junto com parceiros. A entidade também produziu pesquisas acerca da percepção do público sobre matérias de educação, cujos resultados foram divulgados no 2º Congresso Internacional de Jornalismo de Educação, grande evento anual promovido pela Jeduca.

A entidade ainda mantém um serviço de Editor Público para auxiliar colegas com menor experiência na lida com os temas educacionais. Em seu descritivo institucional, a Jeduca afirma que a “educação é um tema prioritário para o país, mas ainda não tem na mídia a mesma atenção que recebem política, economia e esportes, por exemplo. Além disso, parte da cobertura é feita por profissionais com pouca experiência no tema”. A entidade reconhece, portanto, que há problemas a serem mitigados na cobertura de educação.

A associação assumiu desde o começo a tarefa de qualificar a cobertura de educação na imprensa. Daí advém seu compromisso ético de não “se envolver em campanha em favor de alguma corrente de pensamento ou se posicionar sobre debates educacionais”. Pela mesma razão, a Jeduca assume o compromisso adicional de tomar posição “quando entender que o ambiente para o trabalho do jornalista de educação esteja prejudicando a cobertura do tema. É o caso, por exemplo, da dificuldade no acesso a dados públicos ou proibição para que professores de escolas públicas sejam entrevistados”. Como alguém que, pelo lado da pesquisa, vive as agruras do acesso a dados e a escolas públicas, reconheço que a Jeduca tem feito um bom trabalho nesse sentido. Mas há sempre um “não obstante”.

Financiadores, fontes, atores políticos

Os parceiros mantenedores da Jeduca para o ano de 2019 são: Fundação Lemann, Fundação Telefônica Vivo, Instituto Ayrton Senna, Instituto Natura, Instituto Unibanco, Fundação Itaú Social e Itaú BBA. No relatório de atividades de 2018, a lista de mantenedores da Jeduca incluía, além dos financiadores de 2019, a Editora Moderna e o Instituto C&A. Já no relatório anual de 2017, os “parceiros mantenedores” e os “parceiros institucionais” apareciam aglutinados em uma lista única de indistintos “apoiadores institucionais”. Não obstante a defesa apaixonada da transparência pública, a Jeduca não detalha a composição de suas receitas anuais em seus relatórios de atividades. Não obstante seja uma organização privada sem fins lucrativos, a especificidade de suas atividades e a origem dos patrocínios que recebe tornam a composição anual de suas receitas uma informação de estrito interesse público.

Comparemos, por exemplo, os relatórios de atividades da Jeduca com os da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), uma de suas parceiras institucionais. O site da Abraji tem uma aba intitulada “Transparência”, onde se encontram o estatuto da associação, os relatórios de atividades e de auditorias e o regulamento do seu fundo patrimonial – criado para garantir meios de sobrevivência à entidade em tempos menos auspiciosos para o jornalismo investigativo. Apesar da existência do fundo, a Abraji não prescinde de patrocínios para seus congressos.

O relatório de atividades do biênio 2016-2017 não discrimina os valores por patrocinador, mas traz uma série histórica com o demonstrativo de receitas da entidade desde 2012. A maior entrada vem de projetos financiados. Em 2016/2017, três novos financiadores passaram a apoiar projetos da Abraji: Open Society, Fundação Ford e Instituto Betty e Jacob Lafer. Em outra parte do relatório, a entidade informa que o “12º Congresso da Abraji contou com o patrocínio de 11 empresas. Aos parceiros tradicionais Globo, Google, Estadão, Folha, Gol, Itaú, Twitter e UOL, somaram-se Facebook, McDonald’s e Nexo”. É a fonte dos valores mostrados no seu demonstrativo de receitas.

Além da maior transparência na divulgação das receitas anuais, há uma outra especificidade dos parceiros mantenedores da Jeduca: eles não são meros espectadores do debate educacional brasileiro, e sim fundações e institutos ligados aos donos das maiores fortunas do Brasil e com claro interesse em influenciar processos de elaboração e implementação de políticas educacionais em todos os níveis federativos. São organizações que produzem estudos e pesquisas educacionais para embasar seus próprios projetos e tecnologias sociais, sendo também, por essa razão, fontes de informação para jornalistas de educação. Elas apoiam comitês de secretários municipais e estaduais de educação, seus espaços privilegiados de advocacy. A Fundação Lemann e a Itaú Social, por exemplo, estão envolvidas na organização suprapartidária Vetor Brasil, que forma quadros para atuar em cargos de confiança na gestão pública.

Institutos e fundações empresariais não são, ao contrário do que tentam parecer, plataformas desinteressadas para a organização do debate educacional na sociedade civil. Seu alegado interesse por qualificar tecnicamente as políticas educacionais do país, por mais moralmente elevado que possa parecer, vem sempre a reboque de projetos societários mais amplos. Por isso mesmo, o interesse dessas organizações em apoiar uma associação que congrega os melhores jornalistas de educação do país não é casual. A sobrevida da influência política de institutos e fundações empresariais depende não apenas do dinheiro de seus patronos, mas da possibilidade de ter uma indústria da persuasão ao dispor de suas agendas. Se pudessem, muitos desses institutos e fundações colocariam todos os jornalistas de educação do país trabalhando para si dentro das redações.

O “outro lado” que é o mesmo lado

O governo Bolsonaro é, hoje, o maior gerador de hard news na imprensa de educação brasileira. Ao atacar professores, estudantes e instituições de ensino, e ao negar a ciência e o conhecimento, estabeleceu um novo patamar para o absurdo educacional no país. Diante disso, qualquer discurso minimamente racional soa palatável e torna-se candidato a representar o “outro lado”: gestão para resultados, boas práticas, centralização curricular, políticas baseadas em evidências. Discursos que, não obstante, estão longe de serem consensuais no campo educacional. Quem acompanha a educação pública a partir das escolas, por exemplo, tem uma visão bem menos exultante sobre as boas intenções de institutos e fundações empresariais. Diante do opróbrio bolsonarista, no entanto, estariam todos em um mesmo “outro lado”?

Alcançar uma percepção abrangente daquilo que representa o “outro lado” e, a partir disso, ter a capacidade de equilibrar diferentes perspectivas, não é tarefa simples. Quando vários discursos são colocados em nível de equivalência, como se constituíssem um “outro lado” aparentemente coeso que se opõe ao primeiro, esse novo lado é, na verdade, um balaio de gatos em que continuam prevalecendo os discursos daqueles com mais condições de influenciar a pauta.

 

Nossa ética e nosso rigor estão em permanente competição com nossos próprios sistemas de crenças, filtros de informação eficientes que, muitas vezes, diminuem a nossa capacidade de analisar problemas complexos com o devido cuidado. Jornalistas, obviamente, também não escapam a isso. O negacionismo científico e a doxa empresarial, cada qual com as suas especificidades, demonstram todo dia como é difícil enxergar o mundo para além das próprias crenças.

Trago um exemplo da própria Jeduca. Um texto de divulgação do 2º Congresso da entidade (6–7 ago. 2018) dizia o seguinte: “O debate sobre financiamento da educação estará presente em outra mesa sobre a relação entre o debate econômico e a educação. Em tempos de PEC do Teto, a atividade vai contrapor a visão de economistas e educadores. O que deve prevalecer, o equilíbrio macroeconômico ou a percepção de que, sem uma população instruída, o Produto Interno Bruto não tem como avançar de forma sustentável?”.

O problema aqui não é o pequeno deslize de, em junho de 2018, se referir à Emenda Constitucional n. 95/2016 como “PEC do Teto”. Longe disso. Se o debate objetivava de fato tensionar a relação entre economia e educação, “contrapor a visão de economistas e educadores”, o texto, não obstante, evidencia que para os proponentes do debate a primazia é sempre da economia. A educação deriva como resíduo ou entra como insumo. Não existe “outro lado” nessa formulação. O contraditório – a ideia de que a educação é, antes e para além do devir econômico, um direito humano – foi expurgado da narrativa. Aqui, como no edital Jeduca/Itaú Social, é sempre possível objetar que as dúvidas e ambiguidades derivam de problemas de redação.

Não obstante, repito que é difícil domar nossos próprios filtros em um ambiente coalhado de interesses político-econômicos – ambiente no qual organizações politicamente interessadas são, ao mesmo tempo, fontes de informação e financiadoras. Estão desse lado e do “outro lado”, a depender da conveniência. Veja-se que o Instituto Ayrton Senna, um dos parceiros mantenedores da Jeduca, ofereceu um dos seus diretores para ser ministro da educação de Bolsonaro ainda durante a transição de governo, no ano passado.

O melhor dos congressos da Jeduca são as discussões sobre o fazer jornalístico, dados, fontes, cobertura, transparência. Atividades com algum nível de meta-análise, em que filtros e vieses são colocados em debate. Já as mesas sobre educação, carecem quase sempre das visões do “outro lado”, da imensa maioria de estudantes e professores do país que estão totalmente fora da cobertura jornalística e que não são vinculados a projetos de fundações ou institutos empresariais. Em um debate realmente equilibrado, os financiadores da Jeduca seriam constrangidos pelo “outro lado” a dizerem o que pensam sobre educação e os mediadores não conseguiriam se portar como quem passa o açúcar na mesa do chá.

Durante os intervalos da programação oficial do 3º Congresso da Jeduca, os patrocinadores realizaram seus próprios eventos paralelos, a exemplo do “café com a Fundação Lemman e um bate-papo sobre oportunidade de bolsas para universidades americanas e britânicas”. Os patrocinadores tiveram não apenas assento garantido nas mesas principais através de seus assessores e parceiros, mas também acessaram a totalidade dos participantes do evento, agora todos juntos no momento do café e não mais dispersos pelas sessões simultâneas. Tiveram a própria agenda no congresso de uma associação cujo compromisso é não privilegiar nenhuma agenda.

Jornalismo declaratório

A existência de uma associação de jornalistas de educação é fundamental em um país onde pouca gente reconhece que a educação é um dos principais campos de disputa dos grandes projetos políticos e econômicos. A despeito dos esforços da Jeduca, parte importante do conteúdo noticioso sobre educação ainda está fora da cobertura. Classes noturnas estão sendo fechadas, desigualdades educacionais estão sendo induzidas pelo Estado, startups estão roubando dados de estudantes e professores nas redes de ensino, o necroestado está se consolidando com a disseminação da militarização escolar. Esse conteúdo “quente” e mais complexo concorre, muitas vezes perdendo, com matérias sobre inovação pedagógica ou com relatos de “boas práticas” e histórias exemplares. Há, inclusive, quem tenha se especializado na produção desse tipo de conteúdo “frio”. Pessoas que, nas redações, habitam a fronteira entre o jornalismo e a assessoria de imprensa.

Na mesa de abertura do 3º Congresso da Jeduca, Paula Cesarino Costa (editora de Diversidade da Folha de S. Paulo) e José Roberto de Toledo (editor-executivo do site da revista Piauí) criticaram o “jornalismo declaratório” – a prática comum de “acompanhar a agenda política e reproduzir os discursos de deputados, senadores, ministros e do presidente da República”, o que, segundo eles, “não faz mais sentido em um contexto de polarização política e desinformação como o que se vive no Brasil de hoje”.

Concordando com os dois expositores, incluo a advertência de que, na imprensa de educação, o jornalismo declaratório vai muito além do citacionismo a políticos eleitos, já que uma infinidade de outros atores políticos também elabora e implementa políticas educacionais no Brasil. A lista desses atores inclui todos os parceiros mantenedores da Jeduca.

Essa contradição interna, dirão alguns, é o preço a pagar diante da necessidade de conseguir meios para financiar uma associação com os compromissos da Jeduca. Isso considerado, a entidade deveria lidar com os seus “não obstantes” de maneira mais franca. Se isso ainda não ocorreu, é porque todos sabem o que aconteceria se os “parceiros mantenedores” fossem lançados à arena sem rede de proteção e realmente obrigados a enfrentar o debate público da educação com o “outro lado”.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Doutor em Ciências pela USP e professor da UFABC. Integra a Rede Escola Pública e Universidade (REPU) e o comitê diretivo da Campanha Nacional pelo Direito à Educação

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