O Orgulho LGBTQIA+ não é sobre amor, nem sobre consumo

O que estamos de fato celebrando?

A drag queen Rita Von Hunty (Foto: Reprodução/Redes sociais)

A drag queen Rita Von Hunty (Foto: Reprodução/Redes sociais)

Opinião

Chegamos a mais um mês no qual celebramos a diversidade de gênero e sexualidade, mas, sem consciência do processo histórico envolvido nesta data, o que estamos celebrando de fato? Este é um ponto ao qual sempre importa retornar: “amor é amor”, sem a politização de nossos entendimentos sobre seus significados e usos, tanto mercadológicos quanto políticos, resulta apenas em mais um ­slogan, puído por seu uso exaustivamente reproduzido e esvaziado de conteúdo.

A discussão deve ser iniciada pelo debate acerca da data na qual se comemora uma série de acúmulos, demandas, vitórias e embates travados por aqueles que nos precederam na luta por uma realidade que validasse outras formas de existir dentro do sistema sexo-gênero, para além da cis-heteronormatividade.

Junho marca o mês no qual ocorreu a famosa revolta de Stonewall (1969). Mais precisamente no dia 28, quando frequentadores do bar que nomeia o motim, ao sofrerem mais um episódio de extorsão mediante a coação e abuso das autoridades policiais locais de Manhattan, uniram-se, resistiram e revidaram o ataque policial. Este marco não foi, cronologicamente, o primeiro levante de resistência LGBT nos EUA, tendo sido precedido por outro episódio similar na Cafeteria Compton, na Califórnia, em 1966, ou mesmo pelas manifestações do grupo Nuestro Mundo na Argentina em 1967. O episódio consagrou-se, no entanto, como uma espécie de “mito fundador” das lutas por orgulho e contra as fobias impingidas pelo estigma social ligado às identidades ditas “desviantes”.

Stonewall, bem como os outros episódios citados, tinha muito pouco a ver com amor e muito mais a ver com a decisão de enfrentamento a um sistema de injustiças políticas e sociais. Ele não foi operado por juristas ou congressistas, tampouco foi liderado por homens brancos com diplomas universitários. Stonewall é um levante dos corpos abjetos e subalternizados, é uma devolutiva violenta e raivosa dos sujeitos vilipendiados pelo sonho americano de consumo, de família e de nação. Sylvia Rivera, Marsha P. Johnson e Stormé DeLarverie, três dos nomes iconizados como centrais para a agitação da revolta eram, respectivamente, duas travestis e uma pessoa não binária. As duas primeiras ainda lutavam por direitos à moradia e de organização de trabalhadores sexuais em Nova York. Não era sobre amor, era sobre melhores acessos e plenitude de garantias civis.

Com o tempo, os movimentos de orgulho e resistência foram apropriados e cooptados, tanto por dentro quanto por fora da comunidade LGBTQIA+. Internamente por setores “higienistas”, que manobraram as passeatas de modo a torná-las mais palatáveis à opinião pública. Externamente pelo capital, que descobriria, nas décadas seguintes, nova e promissora fatia de mercado consumidor. Os atos, que eram demonstrações de poder e demanda por justiça social, foram, pouco a pouco, tornando-se sobre outra coisa mais morna, identitária, festiva e lucrativa.

Hoje é possível ver de forma muito nítida como uma data de celebração e luta é apropriada pelo sistema sob a forma de mercadoria ao estilo “feriado-lucrativo”. Sem trabalho no sentido contrário à reificação de nossas consciências, o Orgulho LGBTQIA+ pode tornar-se uma espécie de Natal ou Dia das Mulheres, datas que foram gradativamente esvaziadas de seus conteúdos originais e preenchidas por ideais de festa e consumo, muitas vezes contrários às suas próprias origens.

Assim como os movimentos feministas lutam para reavivar a memória de que o Dia das Mulheres é uma conquista das trabalhadoras e homenagem às operárias russas que contribuíram infinitamente para a Revolução de 1917, ou os cristãos lutam contra o Natal consumista e por aquele célebre nascimento de um Cristo que pregava a igualdade e não o acúmulo, também nós, LGBTs, devemos lutar por um mês do orgulho que não se resuma às lojas de departamento, cujos donos são bolsonaristas (e, portanto, nossos inimigos políticos e sociais), fazendo campanhas com arco-íris e lucrando à custa de nossas pautas.

Não é sobre amor nem sobre consumo ou mercado. Nosso orgulho é sobre luta e emancipação, sobre a demanda e a conquista de uma realidade que nos reconheça em nossa inalienável humanidade e nos respeite como sujeitos plenos de direitos. A luta continua.

Publicado na edição n° 1161 de CartaCapital, em 10 de junho de 2021.

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Drag queen intepretada pelo professor Guilherme Terreri

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