O olhar lesionado pelo racismo: sobre a “macumbaria” de Bruno Henrique

Não é novidade alguma que Bruno Henrique seja um jogador preto apartado de sua própria ancestralidade

Foto: Nelson SÁ/AFP

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Justiça,Opinião

Se o povo brasileiro tivesse os olhos bem abertos contra a feitiçaria, a bruxaria e a magia, oficializadas pela umbanda, quimbanda, candomblé, kardecismo e outros nomes, que vivem destruindo as vidas e os lares, certamente seríamos um país bem mais desenvolvido.

MACEDO, Edir.

“Orixás, Caboclos e Guias: Deuses ou Demônios?”, 15 ed. Rio de Janeiro, Universal Produções, 2002

 

Não se pode fechar os olhos para o quanto a negação da existência do outro por meio do apagamento de sua cultura e crenças religiosas possui uma estreita relação com um projeto de poder relacionado a um proselitismo eleitoral.

Da mesma maneira, não se pode negar que os ataques direcionados às CTTro – Comunidades Tradicionais de Terreiro, de origem africana, no bojo das relações sociais, começam e são reforçados por meio de um discurso legitimado pelo poder e por poderosos – padres, pastores, parlamentares, juízes e até pelo presidente da república, com vistas a um movimento de conversão de massa que extrapola a religião e alcança uma esfera eleitoral, cultural, histórica, conferindo àquele que pratica o crime de racismo religioso, concomitantemente, prestigio social e salvação cristã.

Felizmente, hoje, alguns de nós podemos estar de olhos bem abertos para as diferentes manifestações de um racismo que podemos chamar de racismo simbólico. Um racismo que tem se manifestado diariamente. Não se trata apenas de um tipo de racismo contra as pessoas que, de alguma maneira, estão vinculadas a uma cultura africana: Umbanda, Quimbanda, Candomblé, Batuque do Rio Grande do Sul, Xangô de Pernambuco, Xambá, Jurema, Candomblé de Caboclo e culturas aparentadas, mas também às origens existenciais das pessoas que seguem estas crenças e a territorialidade ancestral deste chamado povo do Axé. Trata-se de mais um dos tentáculos do racismo institucional e dos mecanismos de subalternização das coisas pretas.

Nesta semana, o jogador Bruno Henrique, um dos destaques do Flamengo, atual líder do Campeonato Brasileiro e semifinalista da Copa Libertadores, durante palestra promovida na Igreja do Recreio, no Rio de Janeiro, falou sobre a grave lesão nos olhos que sofreu quando jogava pelo Santos e deu sua versão para o caso:

“Fizeram  macumbaria (sic.) para não chegar no meu sucesso. Deus falou para ter paciência, que o melhor estava por vir. E, hoje, posso contar que o melhor aconteceu na minha vida: ter sido chamado para a Seleção e jogando no melhor time do mundo”, disse o jogador, segundo declarações reproduzidas pelo site Globoesporte.com na última segunda-feira, 07 de outubro de 2019.

Diante da repercussão de suas palavras, Bruno Henrique procurou justificar a situação em um áudio enviado a um conhecido. De acordo com o jogador, a tese da “macumbaria” foi levantada por uma tia que tem “revelações”.

“Não tenho nada contra o Santos. Isso é sobre minha vida pessoal. Minha família é toda da igreja e alguém que não gosta de mim tentou fazer isso. Em momento algum falei que o Santos ou algum torcedor do Santos fez alguma coisa comigo. O Santos me ajudou demais e agradeço por todo o carinho”, declarou.

No mesmo áudio, ao explicar suas declarações, Bruno Henrique disse ser um “cara bem transparente e muito homem”. O atual jogador do Flamengo reiterou que a tentativa de prejudicá-lo não partiu do Santos, mas disse não saber a identidade dos responsáveis pela “macumbaria”.

A pergunta que não quer calar é: por que alguém justificaria uma lesão no olho, tão comum aos jogadores de futebol, como resultado de uma suposta macumbaria?

Porém, ao que parece, a “macumbaria” sofrida pelo jogador não foi tão “preta”. Para o oftalmologista Celso Afonso, responsável pelo tratamento de Bruno, “em 1969, o Tostão rasgou e descolou a retina, o Bruno Henrique só rasgou. Imediatamente o departamento médico do Santos o levou a um oftalmologista em Lins. No dia seguinte, de manhã, nós atendemos o Bruno Henrique e já detectamos a lesão, antes de ocorrer o descolamento da retina. Por isso ele não foi para a cirurgia. Conseguimos resolver com aplicações de laser”.

Pelo visto, esta “macumbaria”, sentida pelo atacante Bruno Henrique, é coisa bem antiga.

Em 2010, o atacante Neymar sofreu lesão na íris do olho direito após uma queda durante o primeiro tempo do jogo contra o Santo André. O peixe venceu o confronto de ida da final do Paulistão por 3 a 2.

Também em abril deste ano, até um simples cumprimento teve a força da “macumbaria”. Na segunda divisão da Suécia, Mattias Ozgun, jogador do Degerfors, ao cumprimentar Axel Lindahl, que saía do gramado, atingiu o olho de Ozgun com o dedo, causando uma lesão parecida que o fez sair do jogo, um minuto depois.

Se seguirmos a lógica de Bruno Henrique, a “macumbaria” mais forte já vista foi feita contra o jogador Roberto Firmino, em 17 de setembro de 2018, quando o Liverpool venceu o Tottenham por 2 a 1, fora de casa, em duelo válido pela quinta rodada do Campeonato Inglês. O atacante brasileiro deixou sua marca, ajudando o time a permanecer com 100% de aproveitamento no topo da tabela de classificação, com 15 pontos. Apesar de ter marcado um gol, Roberto Firmino deixou o jogo aos 29 minutos do segundo tempo depois de levar uma dedada impressionante no olho. O dedo do zagueiro Vertonghen ficou quase todo dentro do olho do jogador brasileiro, que não aguentou de dor e teve que sair.

E novamente vem a pergunta: por que alguém justificaria uma lesão nos olhos muito comum aos atletas do futebol como resultado de uma macumbaria?

A resposta é a seguinte: é assim que o colonialismo divide, semanticamente, a sociedade, ou seja, entre coisas brancas (boas, positivas, abençoadas, saudáveis) e pretas (más, negativas, amaldiçoadas, doentes). É assim que o mercado da fé age atualmente. É preciso se opor às coisas pretas para se angariar prestígio, legitimidade, seguidores e um tapinha nas costas por parte do pastor.

O livro “A presença do axé — mapeando Terreiros no Rio de Janeiro”, organizado e publicado pelas pesquisadoras Sonia Giacomini e Denisi Pini Fonseca, em 2013, revelou o dramático problema enfrentado pelos fiéis das religiões afro-brasileiras: Dos 840 terreiros pesquisados, 430 – em torno de 51% – já passaram por alguma forma de agressão verbal, física ou por algum ataque ao espaço religioso. Dos agressores relatados na pesquisa, as categorias “evangélico”, “vizinho” e “vizinho evangélico” representam a grande maioria (66%).

Entre as formas de agressão, tem absoluto destaque a agressão verbal, que corresponde a quase 70% das ações especificadas. De acordo com Giacomini e Fonseca, os termos mais utilizados foram “macumbeira/o”, “filho/a do demônio”, geralmente proferidos pessoalmente, em contato face a face, mas também registrados em pichações nos muros das casas, na vizinhança do terreiro ou de pessoas de terreiro − normalmente identificadas pelo uso de roupas brancas e, em alguns casos, veiculados em sites na internet e em publicações do facebook.

Penso que não é novidade alguma que Bruno Henrique seja um jogador preto apartado de sua própria ancestralidade. Ouso dizer que, muito provavelmente, ele nem se reconheça como um homem negro. Sabemos que, no Brasil, é norma nascer branco, cristão e heteronormativo, e Bruno é a prova cabal de um negro de cor que ainda não se tornou negro também pela força do racismo estrutural e sistêmico. Ele é fruto de um racismo ontológico e por isso pratica o racismo religioso.

A questão que está posta expõe os efeitos nocivos de um racismo religioso fundamentalista.

Nesse sentido, é preciso destacar que não se trata de intolerância porque também é a intolerância uma categoria branca, eurocêntrica, cordial e não criminosa e o racismo é uma categoria semântica não-cordial que descreve crimes praticados por “brancos” contra existências e ancestralidades negras.

O uso da palavra “macumbaria” remete imediatamente ao texto em epígrafe. Texto forjado por alguém que manipula e fortalece a existência fantasiosa de um antissujeito-demônio-cristão-preto para assumir o lugar de herói e salvador.

Se o povo brasileiro soubesse mais sobre sua história, sobre suas origens, sobre a história do poder destrutivo das religiões hegemônicas no mundo e tivesse os olhos bem abertos contra os mercadores da fé em Cristo, estelionatários em nome de Jesus, oficializados por falsos profetas, certamente seríamos um país feito por pessoas autônomas, justas, mais iguais, menos racistas e teríamos, certamente, um país bem mais desenvolvido.

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Mestre e Doutor em Linguistica pela Universidade de São Paulo. Babalorixá.

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Editor no site de CartaCapital. Advogado, fundou o site Justificando, onde foi diretor de redação por quatro anos. 

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