Opinião

O ‘nazista envergonhado’ que compara nazismo a comunismo

Comparar comunismo a nazismo, adversários históricos até hoje, representa um movimento de relativização e até mesmo de absolvição do nazismo

Manifestantes pró-ditadura militar.
Manifestantes pró-ditadura militar.

No artigo “Quem são os criminosos de guerra?”, publicado em 1943, George Orwell pergunta “qual foi o crime, se é que houve algum, que Mussolini cometeu?”. A resposta vem no mesmo parágrafo, em um diagnóstico que bate de frente com quem acredita que o fascismo se combate apenas com mediações democráticas como eleições: “nas políticas do poder não existem crimes, porque não existem leis”.

“Não há uma canalhice cometida por Mussolini entre 1922 e 1940 que não tenha sido louvada e guindada aos céus pelas mesmas pessoas que agora prometem levá-lo a julgamento”, prossegue o escritor, questionando “como é que algo que era louvável na época em que vocês o praticaram – digamos, dez anos atrás –de repente torna-se repreensível?”.

Orwell cita pessoas proeminentes na vida pública que estavam dispostas a “defender que, se Mussolini estivesse esmagando os sindicatos italianos, não intervindo na Espanha [que passou por uma guerra civil em que houve o confronto entre comunistas e as tropas fascistas do general Franco], jogando gás de mostarda nos abissínios, expulsando árabes de aviões ou construindo uma armada para usá-la contra a Grã-Bretanha, o governo britânico e seu porta-voz oficial o apoiariam para o que desse e viesse”.

Pela ótica do governo, Alvim não errou por ser nazista, mas por ser indiscreto

Repare que Orwell faz questão de destacar a disposição do governo britânico em apoiar as forças do Eixo Roma-Berlim em um primeiro momento. Não surpreende, assim, que da sua lista sejam as declarações de Winston Churchill que ganham mais destaque.

Em 1927, o ex-primeiro-ministro declarou que “se eu fosse italiano, estou certo que estaria de todo coração com você em suas vitórias luta contra os bestiais apetites e paixões do leninismo (…). [A Itália] forneceu o necessário antídoto contra o veneno russo. De agora em diante nenhuma grande nação estará desprovida de meios definitivos de proteção contra o crescimento canceroso do bolchevismo”.

É importante notar que Churchill não apresenta qualquer constrangimento em desumanizar os bolcheviques, qualificando-os não apenas como bestas selvagens, mas como um câncer. Sua estética não difere muito da retórica anticomunista do nazi-fascismo, a mesma reproduzida hoje por Jair Bolsonaro quando afirma que pessoas de esquerda não merecem ser tratadas como normais, que índios não são “seres humanos como nós” e que quilombolas, pesados em arrobas (unidade usada para pesar cabeças de gado), não servem nem para procriar.

No texto “O que é fascismo?”, de 1944, Orwell tenta categorizar os grupos nos quais incide a amplitude semântica do fenômeno. Um deles é o dos conservadores, “apaziguadores ou antiapaziguadores”, tidos subjetivamente como pró-fascistas e composto por defensores do imperialismo britânico que, na Índia e nas colônias inglesas, é comumente visto como indistinguível do nazismo. Churchill, um herói da Segunda Guerra, não pensava muito diferente de Hitler e Mussolini quando o assunto era comunismo e supremacia racial.

Uma boa parte do eleitorado de Bolsonaro votou nele em função da retórica anticomunista contra o PT – cujos governos foram marcados pela mais moderada e conciliatória social-democracia – e das acusações de corrupção da Lava Jato (meio que implodidas pela série Vaza Jato do The Intercept Brasil, embora isso não faça muita diferença para o fascismo que brota do coração dos liberais assustados, diria Brecht).

O ponto fundamental parece estar no fato de que, diante do consenso histórico acerca das atrocidades do nazi-fascismo, perdeu-se, hoje, um álibi que fora fundamental para racionalizar o anticomunismo, ainda que o embrulho de valores – racismo, homofobia, misoginia, anti-sindicalismo, etc – que costumam se manifestar junto ao ódio à esquerda permaneça intocado.

O problema é que optar por se calar, fazer falsos paralelismos, pagar de isentão e bater nos inimigos do fascismo enquanto ele avança são formas de cumplicidade.  Eis então a questão: como fazer para passar o pano para o governo Bolsonaro, orgulhoso herdeiro dos derrotados de 1945, sem correr o risco de ter a testa carimbada com uma suástica?

A resposta é simples: comparando comunismo com nazismo; ladeando, ignorante e desonestamente, os mortos do período stalinista com os do Holocausto e fazendo vista grossa às insolúveis disparidades entre as ideias e os projetos de sociedade que cada lado defende. Quem lança mão desse sofisma, por sinal, costuma ser indiferente aos horrores do colonialismo e de episódios como a genocida colonização belga no Congo, com mais de dez milhões de mortos, as Guerras do Ópio na China e as grandes fomes de Bengala de 1770 e 1943, ambas sob a responsabilidade do governo britânico e a segunda, em particular, sob o comando de Churchill. Nelas, somam-se ao menos 13 milhões de pessoas – racialmente inferiores, de acordo com o então primeiro-ministro – que morreram de fome e desnutrição. Cifra maior que os números que as discussões adolescentes em foros da internet costumam apresentar em relação a Stalin.

Mas isso não significa que o legado de Stalin não deva ser objeto de análises críticas. Como bem concluiu o professor Francisco Calazans Fálcon no prefácio de “Uma Revolução Perdida: a história do socialismo soviético”, de Daniel Aarão Reis Filho, o verdadeiro espírito é o de nada omitir e de não deixar de criticar o criticável, pois, para que se continue fiel ao sonho, é fundamental não estar cego às evidências. O que não se deve fazer, porém, é cair na armadilha de usar as lentes da panfletária narrativa anticomunista, fornecendo carvão à fornalha que pretende equiparar comunismo e nazismo para, a partir daí, criar condições para a interdição de partidos e organizações de esquerda.

O crescente anticomunismo estimulado por Bolsonaro e sua mordaz e a destrambelhada comparação entre comunismo e nazismo são a síntese da expressão de um nazi-fascismo envergonhado ou, pelo menos, de uma condescendência inconfessável com suas ideias. Está certa a conclusão de que, para o bolsonarismo, Roberto Alvim não errou por ter professado orgulhosamente as ideias hegemônicas na Alemanha da década de 30, mas por ter sido indiscreto. Em tempos de Bolsonaro, a melhor maneira de ser correligionário sem dar pinta é atacar seus adversários, comparando-os, veja só, com exatamente aquilo que o mandatário melhor representa.

Não foi à toa que o anticomunismo reapareceu com toda força como padrinho do casamento entre Bolsonaro e Paulo Guedes, que serviu à ditadura de Pinochet e seguiu a boa tradição de economistas liberais como Roberto Campos, Milton Friedman e mesmo Ludwig von Mises, figura obscura idolatrada pelos liberteens de internet, em assessorar regimes fascistas. Este último chegou a afirmar em sua obra “Liberalismo” que, passado o calor emocional dos enfrentamentos com os bolcheviques, retomar-se-ia o curso da moderação, resultado do fato de que os pontos de vista tradicionais do liberalismo continuam a exercer influência inconsciente sobre os fascistas”, concluindo, após tratar brevemente da necessidade de reações violentas, que “jamais um liberal colocou isto em questão”.

Em 1940, Orwell escreveu uma resenha sobre “Minha Luta”, de Hitler. Ao comentar sobre o elogioso prefácio feito pelo tradutor da edição, acusou sua óbvia intenção de baixar o tom da ferocidade do livro e, assim, apresentar seu autor da forma mais moderada possível. Afinal, “Hitler na época ainda era respeitável. Tinha esmagado o movimento obreiro alemão, e por isso as classes de proprietários estavam dispostas a perdoar-lhe quase tudo”.

Comparar comunismo a nazismo, adversários históricos até hoje, representa no fim das contas um movimento de relativização e até mesmo de absolvição do nazismo. A escolha em atacar comunistas em um período de ascensão do fascismo mostra não apenas a quem este anticomunismo serve, trazendo à luz uma espécie de nazismo envergonhado que ganha forma no dilema de se alinhar com pessoas como o aspirante a Goebbels tupiniquim Roberto Alvim sem ser considerado parte delas.

Mas são. Por mais que ainda não saibam disso.

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