Opinião

O mundo sem QR-Code

‘Para mim, trata-se apenas de um quadradinho cheio de labirintos e nada mais’, escreve Alberto Villas

Foto: Arquivo pessoal
Foto: Arquivo pessoal

Não vou falar do armazém do Seu José, aquele que a gente ligava e dizia: ‘Alô, Alô! É do Armazém do Seu José? A mamãe pediu para comprar uma lata de biscoitos Aymoré’. Não vou falar também do aviso dependurado ao lado da caixa registradora National: ‘Fiado, só amanhã!’

Também não vou falar daquelas terríveis maquininhas que passavam o dia nas mãos dos funcionários dos supermercados remarcando os preços.

Vou falar que já me acostumei com esses tempos modernos, dos mil e um aplicativos, do código de barra, da voz eletrônica, do iFood e do Uber Eat.

Dias atrás, quando falei pros meus amigos que ia passar uns dias em Galinhos, no Rio Grande do Norte, eles logo me alertaram: leva dinheiro vivo! Há meses, desde que começou a pandemia, eu não via dinheiro vivo, uma nota de 20, 50 ou 100 reais. Eles contaram que lá em Galinhos, a internet pega mal e quase ninguém aceita cartão.

Que nada! Os comerciantes de Galinhos, uma cidadezinha quase ilha, lá no norte do Rio Grande do Norte, já aceitam cartões e até o condutor da charrete aceita Pix.

O que não vi lá foi o tal do QR-Code de que tanto falam.

Segundo o Google, o QR-Code é um código de barras tridimensional que pode ser facilmente escaneado usando a maioria dos telefones celulares equipados com câmara. Esse código é convertido em texto, um endereço URI, um número de telefone, uma localização georreferenciada, um e-mail, um contato ou um SMS.

Para mim, trata-se apenas de um quadradinho cheio de labirintos e nada mais.

Na televisão, o QR-Code aparece a toda hora. E o apresentador avisa: basta apontar o seu celular para o QR-Code que está aqui no canto esquerdo da sua tela para obter mais informações.

O QR-Code surgiu de repente e hoje parece mais uma praga, uma nuvem de gafanhotos que se espalha com a maior facilidade pelos quatro cantos do mundo. Menos em Galinhos.

A vida por lá ainda é cheia de plaquinhas indicando onde é a balsa, o banheiro, a casa lotérica, a pousada Villa Galinhos, o Armazém do Seu José. Ou simplesmente Eu Amo Galinhos, vende-se esta casa, temos gelo ou aqui tem coco gelado.

Quem é do tempo em que chamávamos táxi esticando o braço na calçada e gritando taxi!, em que ligávamos para a pizzaria pedindo meia portuguesa e meia calabresa e dizendo vou pagar com dinheiro, do tempo em que pagávamos a conta de luz no banco, em que discávamos o telefone e andávamos com a carteira cheia de notas, passar uns dias sem ver QR-Code foi uma volta ao passado.

Mas tudo acabou de repente, quando desembarcamos no aeroporto de Cumbica, em São Paulo, e trombamos num totem com um QR-Code imenso e um aviso: aproxime o seu celular para obter todas as informações sobre o funcionamento do aeroporto.

Mas eu queria saber apenas onde era a saída.

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