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O modelo de negócios oculto das IAs
O plano da OpenAI e suas concorrentes parece estar ficando mais claro: emburrecer os humanos para vender de volta ‘inteligência’
Desde o boom de IAs, com a popularização do ChatGPT em 2023, essa indústria seguiu crescendo exponencialmente sem ter logrado consolidar um modelo de negócios financeiramente sustentável. Sistemas de IA seguem sendo criados e atualizados, data centers construídos, recursos (terras raras, água, energia) disputados, como se houvesse um horizonte certo de demanda e retorno para essa tecnologia.
O que vemos até o momento, porém, é um império tecnológico construído sobre bases frágeis, assentado em um novo tipo de bolha financeira inflada por capital fictício e esquemas de investimento circular entre as próprias empresas do setor.
Ao menos dois caminhos (não excludentes) parecem estar sendo tentados para evitar um estouro catastrófico dessa bolha. Um deles é a proximidade cada vez maior entre essa indústria e o governo estadunidense – sob Donald Trump – inclusive no que diz respeito à disputa geopolítica e comercial com a China. Busca-se, com isso, se tornar imprescindível e too big to burst (“grande demais para estourar”).
O outro é seguir alimentando a hype das IAs junto a investidores, governos e ao público, enquanto experimentam com novas versões de modelos de negócios já existentes: monetização de dados, publicidade direcionada, assinaturas pagas, prestação de serviços em nuvem. Nada disso, contudo, parece estar fazendo jus ao tamanho da aposta já realizada nessa nova fronteira tecnológica.
Ao invés da fantasia de uma Inteligência Artificial Geral, teríamos o rebaixamento do humano ao nível da máquina
Nas últimas semanas, parece estar se consolidando um terceiro cenário possível. Seus sinais podem ser percebidos nas entrelinhas de declarações de Sam Altman, CEO da OpenAI: que gasta-se muito mais energia treinando humanos do que IAs; que ele não imagina como seria possível cuidar de um bebê sem o ChatGPT; que “somos todos papagaios estocásticos” – termo originalmente utilizado por críticos da IA generativa para destacar sua capacidade de imitar o discurso humano sem compreensão real do que é “dito”.
O que há de comum entre estas e outras declarações de Altman e outros executivos é a equalização entre humanos e máquinas – e aí está a chave para possíveis modelos de negócios viáveis para a indústria da IA. No mês passado, Altman aventou que “visualizamos um futuro em que a inteligência seja um serviço essencial [utility] como eletricidade ou água, e que as pessoas a comprem de nós no medidor e utilizem para o que quiserem. A demanda que vemos para isso parece seguir crescendo.”
Em princípio, isso pode não parecer tão diferente do que já temos hoje, com os diferentes chatbots. Porém, Altman está falando em vender “inteligência” como serviço essencial, como água e luz. O cenário não é portanto de venda da IA como um serviço especializado e opcional, mas como algo básico à sobrevivência cotidiana das pessoas. Isso implica que máquinas venham a substituir humanos na realização de tarefas cognitivas básicas.
Mas por que abriríamos mão de realizarmos, nós mesmos, essas tarefas? A resposta preconizada pela indústria parece ser: porque iremos desaprender a realizá-las.
Se pararmos para pensar, processos desse tipo já vêm ocorrendo, através de um rebaixamento – nos termos de Tristan Harries, downgrading – de habilidades humanas diante de relações cada vez mais capilarizadas com a tecnologia. Já estamos, há anos, delegando memória e processos decisórios para aplicativos de todo tipo; desaprendendo a ler, a desenvolver pensamento crítico; tendo nosso intervalo de atenção cada vez mais reduzido. Trends de IA como o “brainrot italiano” emergem como ponta do iceberg de um processo mais geral chamado por Cory Doctorow de enshittification, ou merdificação. Não se trata de vender IA como assistente para elevar capacidades humanas, mas de atrofiar nossas capacidades básicas para que elas passem a ser performadas por máquinas e vendidas de volta para nós como serviços básicos (e ruins).
Esse processo não é novo. A substituição de capacidades humanas básicas por máquinas está nos primórdios da indústria moderna, antes ainda de Norbert Wiener definir a cibernética como ciência da “comunicação e controle no animal e na máquina” (note-se a ausência do humano nessa formulação). Numa notável elaboração sobre o papel das máquinas no capitalismo nos Grundrisse, Marx chamou-as de “autômatos” que, ao assumirem o controle do processo técnico nas fábricas, reduziriam os trabalhadores a seus apêndices orgânicos.
Tudo indica, portanto, que ao menos algumas empresas no campo da IA já apostam nesse modelo de negócios: emburrecer os usuários humanos para vender de volta “inteligência” artificial. Assim, ao invés da fantasia de uma Inteligência Artificial Geral que adquiriria consciência comparável à humana, temos uma realidade invertida: não a elevação da máquina ao nível do humano, mas o rebaixamento do humano ao nível da máquina. Como no famoso experimento nos anos 1930 em que o pesquisador criou uma filhote de chimpanzé junto com seu filho bebê, que passou a imitá-la, a tendência é que o sistema mais complexo se adapte ao mais simples, e não o contrário.
Historicamente, a estratégia da indústria tech sempre foi essa: destruir o que existia e impor novos modelos – de socialização, comunicação, trabalho, estética – controlados pelas empresas. Isso não é suposição, mas um mote explícito da indústria cuja expressão mais contundente foi enunciada por Mark Zuckerberg da Meta: move fast and break things; ou, mova-se rápido e quebre coisas. Depois de quebrar barreiras e ocupar tantos domínios na nossa vida pública e privada, as plataformas estão se preparando para colonizar, com suas máquinas, a derradeira fronteira: aquilo que nos faz sapiens.
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