O mito Maradona

'Maradona foi incomparável. Tudo o que sofreu foi desproporcional. E também as soluções que buscou', escreve Felipe De Angelis

Torcedor do Napoli, da Itália, homenageia Maradona em frente ao estádio San Paolo. Foto: Filippo Monteforte/AFP

Torcedor do Napoli, da Itália, homenageia Maradona em frente ao estádio San Paolo. Foto: Filippo Monteforte/AFP

Opinião

*Por Felipe De Angelis

Nasceu predestinado, dizem. Foi em 30 de outubro de 1960. Ganhou dos pais, dona Tota e don Diego, uma bola. Parecia um presságio do que estava por vir. A mãe dizia que o garoto era a reencarnação de algum grande futebolista, porque aos dez meses já brincava com as pernas em lugar de fazê-lo com as mãos, como costumam fazer os bebês. Aos três anos era fotografado pela família jogando bola no quintal da pequena casa, uma fotografia que anos mais tarde correu o mundo.

 

 

Escorpiano, vivenciou na infância, na periferia de Buenos Aires, um desfile de inclemências que o marcou para sempre. Nos bairros pobres, a propriedade é um direito alheio. Naquela Villa Fiorito sem pavimento, sem esgoto, sem água potável, a necessidade é quase uma felicidade compartilhada. O que é de um, é de todos. As crianças, mesmo com sorriso no rosto, têm os pés descalços. Estão aí, em suas raízes, traços de personalidade que o acompanharam por toda vida. “Eu tive sorte, tive chuteiras, mas a maioria dos meus amigos, não”, contou o menino de nome Diego, de sobrenome Armando Maradona.

 

Mundo da estética e a construção de mitos

O mundo vive hoje a era da estética. A era da imagem. Do click. Do simultâneo. Do instantâneo. Através da liberação das formas e dos valores, das concepções estéticas, da mixagem de todas as culturas e de todos os estilos, nossa cultura produziu uma estetização geral, uma promoção de todas as formas de cultura. Através da mídia, da publicidade, das redes sociais, tudo se tornou mais criativo, todos se tornam mais visíveis. “Diz-se que o grande empreendimento do Ocidente é a mercantilização do mundo. Parece, porém, que foi a estetização do mundo, sua transformação em imagens. Estamos assistindo a uma semi-orgia de cada coisa através da imagem”, afirma Jean Baudrillard, em A Transparência do Mal.

Nesta contextualização de mundo e conceituação dos discípulos da era da imagem, surge o mito. O homem mitificado. Na época atual, nada é mais fácil do que transformar uma imagem para ser cultuada. Se na Antiguidade o mito tinha um caráter mais religioso, o conceito dos tempos atuais foi reciclado, sendo caracterizado como um sistema de comunicação, uma mensagem, um modo de significação. “O mito é um valor, não tem a verdade como sanção: basta que o seu significante tenha duas faces para dispor sempre de um outro lado. O sentido existe sempre para apresentar a forma; a forma existe sempre para distanciar o sentido e a função específica do mito é transformar um sentido em forma”, diz Roland Barthes, em Mitologias.

Na sociedade moderna tudo pode constituir um mito, desde que seja suscetível de ser julgado por um discurso, já que o mito possui um uso social. Em síntese, o mito é um sentimento comum, comum no sentido de comunhão. A imagem, reflexo do mito, acaba sendo um vetor de adoração e de contemplação.

 

O herói metamórfico

Se escreveu de tudo sobre el pibe de oro. Mas como objeto, como fenômeno. Todas as perguntas formuladas se dirigiam a um problema com respeito à comunicação. Um problema político, entendendo o político como um domínio dos corpos. Com Maradona os meios de comunicação amplificaram o mito. Para o bem e para o mal. Uma carreira cheia de glórias acompanhada de grandes escândalos. Diego percebeu o mundo com os seus sentidos e alterou-o com o álcool e a cocaína. Foi uma das almas mais brilhantes e mais complexas do mundo futebolístico.

Mas para compreender o que representa Diego Maradona é preciso contextualizar um gênio do futebol – que constitui o fenômeno de massas por excelência dos séculos 20 e 21 – no auge das comunicações, da globalização.

Foi no Mundial do México, em 1986, que Maradona foi consagrado como mito do futebol mundial. Adorado por milhões de torcedores que vibraram com suas geniais jogadas e magníficos gols. Contemplado por bilhões de telespectadores ao redor do mundo que o viram levantar a taça. “O campeão esportivo é uma ficção, porém uma ficção realista. Recorre que é comum na massa e o unifica em uma mitologia comum, encarnando a condição humana”, destaca Sérgio Levinsky, em Rebelde com causa.

Maradona foi incomparável. Tudo o que sofreu foi desproporcional. E também as soluções que buscou. Seu gênio se esforça em fazer o oposto que esperam dele. Diego Maradona foi um herói metamórfico que com sua energia e coragem cometeu o “crime” de ser o melhor dentro das quatro linhas, de jogar com a esquerda, ser canhoto, o que significa também o contrário de como se deve fazer. Além disso, cometeu o “crime” ainda maior de, fora do gramado, denunciar as coisas que o poder manda calar.

O craque parece ter estudado cada letra de cada tango argentino. A tragédia presente no ritmo símbolo dos argentinos também se fez presente na vida do el diez. A dependência química de Maradona e sua luta para se livrar desta doença comoveu a tantos quanto tenham sensibilidade para perceber que, por detrás da lenda tem um história e que, por detrás do mito, tem um ser humano.

 

Maradona eterno

A história de Diego Maradona se confunde com a história da Argentina. Ele encarna o espírito argentino em todas as suas contradições. Sua história se mistura à história das mães da Praça de Maio, à de Evita, à de Perón, à de Gardel, à de Mercedes Sosa, à do Papa Francisco, à de Piazzolla, à de Carlos Monzón, à de Jorge Luís Borges. Diego é um revolucionário. Um Che Guevara do futebol.

Se escreverá, se dirá, se verá e se pensará tudo sobre Maradona. Seu nome, para alguns, será descanso. Para outros, cansaço. Porém, no final da história, ninguém nunca poderá explicar o que foi Maradona. O que é Maradona. Porque não alcançarão palavras. Nem caneta, nem metáforas. Nem arquivos, nem fotos. Nem contos, nem novelas. Nem os velhos saudosistas, nem os jovens apaixonados.

E ai de quem pretender defini-lo. Sofrerá como tantos outros quando, na última tentativa, trocaram suas ideias para reconhecer o fracasso. Ficarão buscando inspiração por toda a parte e admitirão a derrota: tudo que houverem de falar ou escrever, será sempre insuficiente.

*Felipe De Angelis é jornalista

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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