

Opinião
A Faria Lima já desistiu de Tarcísio?
Anotem: o que veremos nos próximos meses é o aumento das notícias positivas sobre Ratinho Junior
O bloco político-econômico que orbita a Faria Lima e a direita tradicional segue empenhado em derrotar simultaneamente Lula (PT) e Jair Bolsonaro (PL) em 2026. Para esse campo, o revés de Lula passa pela substituição da candidatura de Flávio Bolsonaro por um nome supostamente mais moderado, capaz de atrair o eleitor que rejeita o petista, mas também demonstra fadiga com o bolsonarismo. O plano A do “mercado” e do Centrão continua sendo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
O projeto Tarcísio, no entanto, acumula fragilidades que se tornam evidentes quando se pensa em um voo nacional. A primeira delas é estrutural: seu vínculo orgânico com Bolsonaro. Ex-ministro do ex-presidente, Tarcísio foi eleito governador em 2022 em uma campanha inteiramente acoplada à tentativa de reeleição de seu padrinho político.
Essa dependência moldou seu governo. Nem mesmo os altos índices de aprovação lhe deram autonomia para se descolar do bolsonarismo. Houve oportunidades para a construção de um caminho próprio, mas nenhuma foi aproveitada. Tarcísio referendou, sem exceções relevantes, todas as movimentações do ex-capitão.
O governador não apenas deixou de condenar a tentativa de golpe de 8 de Janeiro, como se somou às pressões contra o STF para absolver Bolsonaro. Chegou ao ponto de chamar o ministro Alexandre de Moraes de “tirano” em um ato bolsonarista. O gesto foi coerente com sua atuação como ministro, quando jamais questionou a decisão de Bolsonaro de não vacinar a população durante a pandemia de Covid-19 — inclusive quando o então presidente debochou publicamente das vítimas do coronavírus.
A segunda fragilidade é política. Tarcísio frequentemente se mostra um articulador inábil, com dificuldade de leitura do tempo da política, uma limitação diretamente ligada à sua dependência de Bolsonaro.
Um episódio recente ilustra bem o problema. Ao solicitar uma visita ao ex-presidente, o governador paulista apostava que poderia levar boas notícias: a possibilidade de avanço na concessão de prisão domiciliar a Bolsonaro. Flávio, experiente operador político desde os tempos de deputado estadual, explorou o erro. Antecipou-se e anunciou que Tarcísio ouviria do próprio Bolsonaro um “pedido” para que se dedicasse mais à campanha do senador. O governador, sentindo o golpe, cancelou a visita.
O recuo expôs a terceira fragilidade — agora eleitoral, dentro do próprio campo da direita. Além da resistência do eleitor de centro, que dificilmente esqueceria a imagem de Tarcísio ao lado de Bolsonaro rindo dos mortos da pandemia, o episódio repercutiu mal na base bolsonarista. Para esse núcleo duro, o governador passou a ser visto como um potencial traidor. E é justamente essa base que sustenta Flávio na disputa pelo protagonismo da extrema-direita.
A mais recente pesquisa da AtlasIntel, divulgada na quarta-feira 21, confirma essa leitura. Em um cenário improvável com ambos como candidatos, Lula aparece com 48%, Flávio marca 28% e Tarcísio apenas 11%. No cenário em que apenas o senador concorre, Lula mantém 48% e Flávio chega a 35%. Já Tarcísio, sem Flávio na disputa, alcança 28%. Por qualquer ângulo, o senador se consolida, enquanto o plano Tarcísio perde tração.
Ainda assim, Faria Lima e Centrão alimentam a esperança de que uma eventual prisão domiciliar de Bolsonaro seja creditada ao governador paulista e force uma reavaliação da escolha de Flávio como herdeiro político. Como temos argumentado nesta coluna desde o ano passado, essa hipótese é altamente improvável. Diante disso, o “mercado” já começa a desembarcar do plano A e a investir em um plano B: Ratinho Junior (PSD), governador do Paraná.
Anotem: nos próximos meses, tende a crescer o volume de notícias positivas sobre Ratinho Junior — tanto sobre sua gestão quanto sobre os bastidores de sua articulação com setores econômicos.
Ratinho reúne algumas vantagens objetivas em relação a Tarcísio. A primeira é institucional: impedido de disputar um terceiro mandato, ele precisará se desincompatibilizar até o fim de março, independentemente do desempenho de Flávio. Tarcísio, ao contrário, seguirá no governo paulista e buscará a reeleição.
A segunda vantagem é partidária. O PSD se posiciona mais claramente no centro do que o Republicanos. Seu presidente, Gilberto Kassab, é um operador experiente, com presença simultânea em vários campos: integra o governo Tarcísio, declarou voto em Bolsonaro, mas comanda um partido que abriga quadros ligados a Lula, como Eduardo Paes e Otto Alencar, além de lideranças que se mantiveram neutras em 2022, como a governadora Raquel Lyra.
A terceira vantagem é simbólica. Embora seja de direita e tenha apoiado Bolsonaro, Ratinho construiu uma trajetória mais autônoma — vacinou-se contra a Covid-19, por exemplo, algo que o ex-presidente jamais fez. Isso amplia seu potencial de diálogo com o eleitor de centro.
Contra Ratinho pesa o desempenho ainda tímido nas pesquisas, inferior ao de Tarcísio. Mas, nesse quesito, ambos enfrentam o mesmo obstáculo: estão longe do patamar de Flávio e seguem pouco conhecidos nacionalmente. Ainda assim, tudo indica que Faria Lima e Centrão apostarão nele como o novo sonho da chamada terceira via para tentar, mais uma vez, escapar da polarização.
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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