Paulo Nogueira Batista Jr.

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Economista. Foi vice-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, e diretor-executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países

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O melhor país do mundo

Qual outro, além do Irã, enfrenta praticamente sozinho, e até agora com sucesso, EUA e Israel?

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Um pequeno grupo de torcedores recebeu o time iraniano no desembarque no México – foto: Guillermo Arias/AFP
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A minha admiração pelo Irã só faz crescer. Que país enfrenta praticamente sozinho, e até agora com sucesso, Estados Unidos e Israel? Que país assume imensos riscos para defender outro? Foi o que fez o Irã, ao atacar Israel em represália às barbaridades que esse Estado genocida vem cometendo no Líbano.

Arrisco dizer que o Irã deve ser o país que mais admiração suscita no mundo inteiro, exceto, obviamente, em Israel e nos Estados Unidos. E mesmo nos Estados Unidos a opinião pública parece inclinar-se pelo Irã, ao mesmo tempo que cai o apoio ao governo Trump e ao regime israelense.

A ficha demorou a cair. O poderoso ­lobby sionista comprou a maior parte da classe política dos Estados Unidos e tem conseguido, assim, subordinar as ações da superpotência às prioridades criminosas de Israel. E a mídia corporativa faz o possível para defender Israel, manipulando e ocultando informações de forma sistemática.

Mas Israel foi longe demais e perdeu todo respeito e credibilidade. Tornou-se o país mais detestado do mundo. Os norte-americanos, por sua vez, estão se dando conta, finalmente, de que o apoio incondicional a Israel está saindo caríssimo para eles. Cresce a percepção, inclusive entre os eleitores de Trump, de que os Estados Unidos estão lutando uma guerra que não interessa a eles. Tornou-se evidente que a guerra em curso obedece primordialmente aos interesses israelenses. É o rabo abanando o cachorro. Um país pequeno, de cerca de 10 milhões de habitantes, dá as cartas para uma superpotência.

Isso pode mudar? Talvez. O apoio a Israel está atingindo, como diria Delfim Netto, a parte mais sensível do corpo humano – o bolso. Como consequência da guerra, o preço da gasolina, dos alimentos e de outros produtos sobe de forma acentuada, ameaçando derrotar os republicanos nas eleições congressuais de meio de mandato, em novembro. O impacto econômico só não é pior porque os Estados Unidos e outros países estão desovando suas reservas estratégicas de petróleo para amortecer a alta dos preços. Essas reservas não são ilimitadas e estão aparentemente prestes a se esgotar. Não é à toa que Donald Trump parece ansioso para encontrar uma maneira razoavelmente honrosa de encerrar o conflito para o qual foi arrastado por Israel.

As consequências desta guerra para a economia mundial tendem a se agravar. Tudo depende, claro, dos desdobramentos militares, da duração e da intensidade do conflito. Desta vez, ao que parece, haverá não só o bloqueio do Estreito de ­Ormuz, como também o de Bab ­el-Mandab, fechando o acesso ao Mar Vermelho para Israel e outros países hostis. Os preços do petróleo e seus derivados, dos produtos petroquímicos, dos fertilizantes e dos alimentos tendem a subir ainda mais – um choque de oferta de grandes proporções que produzirá não só o aumento da inflação como a retração da atividade econômica na maior parte do planeta. Em caso de um conflito prolongado, cenário que parece agora mais provável em face dos acontecimentos recentes, pode haver uma recessão global e um aumento ainda mais acentuado das taxas de inflação. FMI, Banco Mundial e OCDE, entre outras organizações multilaterais, não tardarão a ajustar para baixo as suas estimativas de crescimento econômico mundial e para cima as suas projeções de inflação.

A quem devemos debitar esse desastre? Não ao Irã, que está agindo em legítima defesa. Mas aos agressores, Estados Unidos e Israel, que jogaram a Ásia Ocidental e grande parte do mundo em uma situação desastrosa. Os poucos países que se beneficiaram do tumulto até agora são os grandes exportadores de petróleo, entre eles o Brasil, que não dependem do Estreito de Ormuz para escoar suas produções. Estes estão vendendo mais petróleo a preços mais altos. Mas mesmo eles estão sentindo o impacto da alta de preços críticos sobre a sua inflação doméstica, como se vê claramente no nosso caso.

A insegurança quanto ao futuro é enorme. Ainda não sabemos o tamanho do estrago. Mas uma coisa é certa: a guerra está resultando num enfraquecimento do Império Norte-Americano e de Israel. Os bárbaros estão finalmente pagando um alto preço pelos seus incontáveis crimes. Em retrospecto, é bem possível que a guerra contra o Irã constitua um marco no declínio dos Estados Unidos e na consolidação do mundo multipolar.

Bravo, Irã! O melhor e mais nobre país do mundo merece todo o nosso respeito e gratidão. •

Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O melhor país do mundo’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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