Milton Rondó

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Opinião

O medo, o terror e a falsa superioridade de uns sobre outros não podem caber no século XXI

A despeito do clima de terror reinante no âmbito internacional, a China segue sua estrada de diplomacia pacífica, inclusive para o Oriente Médio, onde outros só semearam a cizânia…

Nova Rota da Seda representa o ambicioso projeto de infraestrutura do atual presidente Xi Jinping
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“…chegar à efetiva aplicação do direito internacional do direito à paz, como direito humano fundamental, precondição necessária para o exercício de todos os outros direitos.”
Papa Francisco
A citação acima do Pontífice encontra-se em Coragem — as razões da nossa esperança (Editora Vozes), obra que reúne algumas das homilias do Bispo de Roma.
Com efeito, cabe perguntar por que o direito à paz não está positivado, inscrito, na Constituição brasileira, mais especificamente no artigo 6, que arrola os direitos humanos das brasileiras e brasileiros, como o direito à alimentação, à saúde e à educação, entre outros, incluindo o tão menosprezado direito ao lazer.
Cabe lembrar que direitos humanos, por serem fundamentais, são universais, devendo ser protegidos, promovidos e providos pelo Estado, em qualquer latitude ou longitude.
O atual desgoverno brasileiro previu no orçamento de 2022 (em plena pandemia) o dobro de recursos para as Forças Armadas do que foi previsto para a Saúde, um absurdo compatível com a prioridades genocidas do necrogoverno.
Vale recordar que os direitos humanos não precisam estar positivados, expressos na Constituição, para serem reivindicados; no entanto, sua inserção na Lei Magna em muito contribui para o cumprimento.
Aliás, caberia reivindicar também a expressão positiva na Constituição Federal do direito à justiça, condição sine qua non para a paz.
Em apoio à anterior defesa da paz como direito humano, Francisco, na obra mencionada, cita o próprio Cristo, no Evangelho de Mateus: “Felizes os promotores da paz.”
Com pragmatismo, Francisco aduz: “É um apelo sempre atual, que vale para todas as gerações. Não diz ‘Felizes os pregadores da paz’: todos são capazes de proclamá-la, até de forma hipócrita ou mesmo mentirosa. Não. Diz: ‘Felizes os promotores da paz’, ou seja, os que a promovem.”
Com o didatismo dos que querem incluir a todos, Francisco continua sua reflexão: “E como se faz, como se constrói a paz? Foi o que nos lembrou, de maneira essencial, o Profeta Isaías: ‘Praticar a justiça trará a paz.’ A paz é obra da justiça. Aqui também: não uma justiça declamada, teorizada, planejada…mas a justiça praticada, vivida.”
Nesse sentido, o Papa aclara: “A paz é, antes de tudo, a ausência de guerras…para que a cada dia se dê um passo a mais rumo à justiça, para que não existam crianças com fome, para que não haja crianças doentes que não tenham a possibilidade de ser ajudadas na saúde…Fazer tudo isso é promover a paz.”
Como chegar lá? Francisco não nos abandona a meio caminho, indicando a estrada e os obstáculos que se antepõem à justiça e à paz, sendo o mais perverso, o medo que se instila: “O medo é uma atitude que nos faz mal, nos enfraquece, nos apequena e nos paralisa. Tanto que uma pessoa com medo não faz nada, não sabe o que fazer: está assustada, amedrontada, concentrada em si mesma para que não lhe aconteça nada de mau, de ruim. Assim, o medo leva a um egocentrismo egoísta e paralisa.
Essa é verdade tão absoluta que migra, sem objeção, do individual para o coletivo; das relações interpessoais para as internacionais.
De fato, a despeito do clima de terror reinante no âmbito internacional, de que a eclosão de uma terceira guerra — provavelmente definitiva para a humanidade – esteja às raias, a China segue sua estrada de diplomacia pacífica, inclusive para o Oriente Médio, onde outros só semearam a cizânia…
Assim, a China não apenas se tornou o maior parceiro comercial da região, mas também propôs forma inusitada de cooperação com os países do Levante, principalmente por meio da iniciativa de cooperação “Rota da Seda”, à qual, muito simbolicamente, a Síria acaba de se incorporar.
Ao império decadente (o condomínio liderado pelos EUA), não sobraram sequer os despojos da destruição: o maior parceiro comercial do Iraque – o país mais vitimado pelas mentiras e manipulações ocidentais – é também a China, como se ainda fosse necessário marco ulterior da derrota imperial na região.
Nesse sentido, bem esclareceu Achille Mbembe, em Políticas da Inimizade (N-1 Edições): “Como a maior parte das guerras contemporâneas – a guerra contra o terror e as diversas formas de ocupação nela contempladas -, as guerras coloniais eram guerras de extração e de predação…Elas liberaram forças passionais que, em contrapartida, decuplicaram a capacidade de desunião entre as pessoas…Essa reintrodução global da relação colonial e suas múltiplas reconfigurações nas condições atuais não poupa sequer as sociedades no Hemisfério Norte. A guerra contra o terror e a instituição de um ‘estado de exceção’ em escala mundial apenas amplificam isso.”
Faz-se o tempo de superarmos, definitivamente, as relações de dependência, de subordinação de dominação, entre pessoas, dentro dos próprios Estados e entre eles. O medo, o terror e a falsa superioridade de uns sobre outros não podem caber no século XXI. Seu reinado foi longo e terrível, com sequelas que ainda perduram e aterram, mas essa noite hesita, pois desponta a aurora da justiça e da paz universais.
 

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Milton Rondó

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