O levante das sementes Marielles: a noite não adormecerá jamais

Hoje, transcorrido um ano, a morte de Marielle pode ser compreendida como um elo que conecta nosso presente, passado e futuro.

'Hoje, mais do que nunca, precisamos de gente que escolha resistir a tudo o que compromete a vida plena para todas as pessoas'

'Hoje, mais do que nunca, precisamos de gente que escolha resistir a tudo o que compromete a vida plena para todas as pessoas'

Justiça,Opinião

 

Era uma noite de quarta-feira, dia 14 de março de 2018, quando eu morri também. Voltava para casa sozinha, depois de participar de um intenso debate sobre violência policial, no momento exato em que Marielle Franco foi executada a tiros no Centro do Rio de Janeiro. Ainda no percurso, recebi a notícia dilacerante da nossa morte. Sim, porque, naquele dia, todas nós morremos um pouco. Nós, mulheres, negras, mães, defensoras de direitos humanos. Fomos mortas simplesmente pela essência que é a razão de nossas vidas e, ao mesmo tempo, o alvo de nossos algozes.

De fato, a morte de Marielle foi um prenúncio da consagração da era do ódio na qual estamos submerso(a)s e que parece nos inundar, cada dia um pouco mais. A aversão à diferença e a sanha de opressão do(a) diferente, travestidos de projeto político, revelaram às escâncaras o racismo à brasileira que, ubíquo e fluido, intersecciona-se com outros mecanismos de subalternização. No atual contexto político, as pessoas se sentem inteiramente legitimadas a manifestar seu ódio, a subjugar o(a) outro(a), a aplaudir o extermínio dos indesejáveis em praça pública.

Mas essa ferida, hoje indisfarçavelmente exposta, sempre esteve aberta, nunca cicatrizou. Ela nos reconduz ao nosso passado de genocídio indígena, de escravização dos negros, de política de embraquecimento, de apagamento das múltiplas e sobrepostas formas de violência contra a mulher negra. Os fatores raça e gênero – embora, ainda em muitos aspectos ignorados[1] – sempre foram elementos sobrepostos de opressão para as mulheres negras na história do Brasil e refletem sua atual situação de vulnerabilidade nas mais diversas esferas da vida.

Não é mera coincidência que sejamos as mais vitimadas pelo feminicídio, pela violência doméstica e familiar, pela mortalidade materna, pela violência sexual e obstétrica; que sejamos também submetidas mais intensamente às diferenças salariais, ao desemprego, ao encarceramento em massa e à quase completa ausência nos espaços de poder e na política.  

As intersecções entre gênero, raça e classe – enquanto elementos agregados e que, historicamente, potencializam as vulnerabilidades a que são submetidas as mulheres negras na realidade brasileira – precisam ser reconhecidas. Não se trata de hierarquizar opressões ou de estabelecer primazia de uma categoria sobre as outras, mas de (re)conhecer que elas se relacionam mutuamente e se cruzam[2], de forma a – a depender do modo como o poder articula tais identidades[3] –,  produzir o reforço de desigualdades no acesso a direitos, bens e status. Em contextos patriarcais, racistas, classistas, sexistas e misóginos, raça, gênero e classe determinam quem está autorizado(a) a viver e quem está destinado(a) a ser morto(a).

Ser mulher negra, na realidade brasileira, é ser alvo de uma necropolítica que se renova e se retroalimenta, periodicamente, entre exclusão e extermínio dos corpos tidos como descartáveis[4]. E são inúmeras as formas de matar e deixar morrer; apertar o gatilho é apenas a ação mais direta. É responsável quem aperta o gatilho e quem manda matar, não há dúvidas! Mas a responsabilidade é também de quem deixa matar, seja por omissão, seja pela legitimação de políticas de retrocesso dos direitos de mulheres, negros, quilombolas, indígenas e população LGBT. O esquema de retirada de direitos afeta sempre, em primeiro lugar, a mulher negra.

Marielle Franco morreu por ser mulher, negra, “cria da Maré” – como ela mesma gostava de dizer –, e por ter ousado ocupar um espaço que a sociedade e o Estado brasileiros ainda acreditam que não é nosso lugar. Nossa existência (sobrevivência) nessa sociedade, por si só, já desafia toda a lógica das relações de poder historicamente arquitetadas, às quais a elite brasileira pretende se agarrar com unhas, dentes e armas. Mas nossa presença ativa nos espaços de poder, além do potencial pedagógico e multiplicador, é capaz de abalar as estruturas sociais.

As ex-vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco (PSOL) (Foto: Divulgação)

Quanto ao nosso futuro, não há dúvidas de que o (re)equilíbrio dessa estrutura subalternizante de poder somente se concretiza a partir da base. Aqueles que estão no topo, na normalizada posição hegemônica, não cedem seus privilégios em busca da igualdade de direitos para os grupos vulnerabilizados. Pelo contrário, ameaçados pelo inevitável conflito de poder que emerge da busca por equidade, reagem violentamente contra nossos corpos e contra nossa existência. E se as mulheres negras estão, de fato, na base dessa pirâmide, pensar no porvir, já em construção, é lembrar a mensagem alafiada de Angela Davis: “quando a mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela”.

Nós, rainhas da diáspora negra, que, a despeito de tudo e de todos, seguiremos traduzindo o atlântico negro, dialogando insubmissamente, construindo coletivamente. Somos expressão da resistência herdada da nossa ancestralidade. Conjugamos e vivemos com voracidade o verbo resistir. Do latim resistere, é o mesmo que oferecer resistência, negar-se, recursar-se, não sucumbir. Atitude própria de quem, muito embora aviltada, subsiste com altivez, insubordina-se à opressão.

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Nossos passos vêm de longe, confluência de energias ancestrais. Somos encarnadas as Anastácias que jamais poderão ser caladas. Mordaças não são capazes de emudecer nossos prantos, nossas vozes, nossos cantos, que ecoam (e se multiplicam) ensurdecedores; fluidos como as águas que seguem insubmissas seus caminhos, contornando pedras e outros desafios; revoltosos como o vento, força invisível e arrebatadora que atiça o fogo, mantendo acesa a chama[5].

O que (e quanto de cada uma de nós) morreu com Marielle Franco? Mas, mais importante ainda – e eles pareciam não contar com isso –, o que (e quanto de cada uma de nós) renasceu com ela? O grande preceito que nossas mais velhas deixaram permanece vivo: a resiliência. Compartilhamos a dor e o renascimento; do luto à retomada da luta!

E, a propósito, eu (nós) também tenho (temos) interesse em saber quem mandou me (nos) matar! Para anunciar que, apesar de você(s), de seu ódio pretensiosamente aniquilador, nós, ainda assim, sempre nos levantaremos!!!

Somos o levante das sementes Marielles, Marias, Mahins, Dandaras, malês!

Somos campos férteis de girassóis, mas somos também campo minado, forjado pelo legado de nossas ancestrais. A noite jamais adormecerá nos nossos olhos que, em vigília atenta, vigiam a nossa memória e entrelaçam nossos destinos, pois nosso sangue-mulher em cada gota faz jorrar os fios que cosem a rede da nossa milenar resistência[6].

“E entre os becos e vielas da favela, sobreviver é nossa a maior resistência. Nossa voz, muitas vezes silenciada, terá de ser ouvida. Agora é pra fazer valer. Sou força porque todas nós somos. Sigo porque seguiremos todas juntas. Eu sou (nós todas somos) Marielle Franco!” .


[1]  Carla Akotirene, O que é interseccionalidade?, Belo Horizonte: Letramento: Justificando, 2018. p. 61, observa que “as leis antirracistas, assim como as pautas do movimento negro também ignoram o marcador de gênero informante da opressão, assim como nos movimentos feministas a insistência pelo marcador de gênero não enxerga raça acentuando as experiências de opressão feminizadas”.
[2] Ver Angela Davis, As mulheres negras na construção de uma nova utopia. Disponível em «https://www.geledes.org.br/as-mulheres-negras-na-construcao-de-uma-nova-utopia-angela-davis/».
[3]  Cfr. Djamila Ribeiro, O que é lugar de fala?, Belo Horizonte: Letramento: Justificando, 2017, p. 31.  
[4]  Ver Achille Mbembe, Necropolítica, 3ª ed. São Paulo: N-1 Edições, 2018.
[5] Trecho adaptado de homenagem feita pela autora, em 2017, no texto Anastácias Encarnadas, Candaces da Justiça, por ocasião da passagem do Dia Internacional da Mulher Negra, Latino-Americana e Caribenha.
[6]  Em referência e reverência ao poema A noite não adormece nos olhos das mulheres, de Conceição Evaristo, escrito em memória de Beatriz Nascimento.
[7]  Trecho da fala de Marielle, no vídeo Quem é Marielle Franco, produzido em 2017. Disponível em «https://www.youtube.com/results?search_query=marielle+franco+campanha».

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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