Esther Solano

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Doutora em Ciências Sociais pela Universidade Complutense de Madri e professora de Relações Internacionais da Unifesp

Opinião

O lavajatismo é maior do que a Lava Jato. E sobreviverá

‘Em suas mais diferentes formas, ele continuará uma força simbólica e retórica mobilizadora de massas’, escreve Esther Solano

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Apesar do teor das conversas entre os procuradores da força-tarefa e o ex-juiz Sergio Moro, a Operação Lava Jato não perdeu apoio como se imagina: 80% dos brasileiros continuam a favor do trabalho. O número sobe para 89% entre aqueles com ensino superior. E 69% acreditam que a principal razão para o fim do trabalho é a interferência dos políticos investigados.

São dados do relatório Exame/Ideia Big Data de 12 de fevereiro de 2021. A conclusão salta aos olhos. O lavajatismo é maior do que a Lava Jato. E sobreviverá à operação. Conviveremos com um lavajatismo sem Lava Jato. Estamos lascados.

O lavajatismo significa populismo do Judiciário, justiça militante, justiça do inimigo, processo penal do espetáculo, justiça moralista, justiça criminalizadora da política, justiça messiânica, justiça punitivista. Tudo isso é lavajatismo. É a destruição do tecido político.

 

Durante manifestação verde-amarela de 16 de agosto de 2015, realizei uma série de entrevistas com os manifestantes que lá estavam para entender o apoio dos mesmos aos excessos da Operação Lava Jato. Eis um dos diálogos que travei com alguns manifestantes:

Eu: E o que o senhor pensa sobre a condução coercitiva de Lula? Acha que isso vulnera os direitos dele?

Manifestante 1: Que direitos? O cara é o maior ladrão deste país e ainda quer direitos? Agora político corrupto está de mimimi também. É cadeia.

Eu: O senhor acha que a Operação Lava Jato vulnera os direitos dos políticos que investiga?

Manifestante 2: Que direitos que nada! O cara quer direitos, que não roube então.

Direitos humanos para humanos direitos. Mimimi. Vitimismo. O político corrupto é um câncer, a corrupção é o maior problema do Brasil. Político corrupto não se trata segundo as normas do devido processo penal. Político corrupto, ainda mais petista, se aniquila. O corrupto (mas não o de estimação) não representa mais um sujeito de direito. O “mal” tem de ser extirpado e para isso o devido processo penal incomoda.

Eis outro trecho:
Manifestante 4: O juiz Moro tem uma missão, limpar o Brasil porque o câncer do Brasil são os políticos corruptos.

Manifestante 5: Moro é nosso salvador. Se não fosse por ele, nada teria acontecido. É dever de todos os brasileiros apoiar a Lava Jato. Ele vai passar o Brasil a limpo. Ele é o homem que estávamos aguardando.

Manifestante 6: Se não fosse por ele, estaríamos perdidos. É um herói.

Uma parte do campo democrático abraça a Lava Jato e, portanto, fortalece suas consequências malditas. A outra parte ignora a importância de se disputar o discurso

Sérgio Moro era o herói messiânico. A figura do juiz-Deus, o juiz-Messias, o juiz-herói. O político destrói. O juiz salva. Retórica pseudofascista, higienista.

A política é corrupta por natureza, devemos limpá-la, passar o Brasil a limpo. Devemos desinfetar, despoluir, esterilizar o Brasil de políticos.

Eu: E os vazamentos, concorda?

Manifestante 6: Sim. Tem de vazar mesmo. Veja bem, se não fosse por isso, eles escondiam, a gente não ficava sabendo e eles não iam presos.

Um tipo de justiça teatral na qual os conflitos são definidos e julgados jornalisticamente, com papéis confusos e sobrepostos entre mídia e Judiciário. A imprensa tem atribuições que eram específicas dos tribunais e os julgamentos são televisados numa lógica de Big Brother. Do mensalão à Lava Jato, show business, audiência, ibope são agora elementos desta justiça do espetáculo. Teatralização que provoca linchamentos. Justiça mercadoria. A punição como gozo coletivo. A banalização da destruição midiática da política.

Estamos lascados. O lavajatismo, nas suas mais diferentes formas, continuará uma força simbólica e retórica mobilizadora de massas. Diante deste cenário sombrio, é urgente que as forças políticas democráticas, progressistas, combatam esse discurso anticorrupção totalmente controlado pela extrema-direita. Devemos disputar a hegemonia do lavajatismo com narrativas sobre a corrupção enraizadas nos valores e símbolos progressistas.

O que não vale é o que temos feito até agora. Uma parte do campo democrático abraça a Lava Jato, tem orgasmos com ela e, portanto, fortalece suas consequências malditas, enquanto a outra parte ignora a importância de se disputar o discurso.E quando falo disputar é ir muito além do “Lula livre”. Criticar a perseguição, a paródia, e a tragédia dos julgamentos de Lula é essencial não só para o PT, não só para a esquerda, se não para a democracia brasileira, mas não podemos parar por aí.  Desmascarar a Lava Jato é essencial, mas devemos ir além, devemos disputar o lavajatismo como sintoma.

Não só devemos expor a Lava Jato, devemos destruir o lavajatismo. Se não o fizermos, sempre haverá alguém que o faça ressurgir em outros momentos históricos. Sempre haverá um fantasma, um palhaço, um Messias, um monstro. Lembre-se: 80% dos brasileiros são a favor da operação. Disputemos esse número. Não o ignoremos.

Publicado na edição n.º 1146 de CartaCapital, em 26 de fevereiro de 2021.

Esther Solano

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