Luana Tolentino

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. É autora dos livros 'Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula' (Mazza Edições) e 'Sobrevivendo ao racismo: memórias, cartas e o cotidiano da discriminação no Brasil' (Papirus 7 Mares).

Opinião

O futebol me ajudou a sobreviver ao racismo

O futebol não é só um esporte. É um mecanismo de inclusão, de reconhecimento mútuo, de superação das diferenças

Foto: Reprodução
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Quem me conhece sabe: sou alucinada por futebol. Desde que me entendo por gente. Como torcedora apaixonada pelo Galo mineiro, meus dias têm sido de tristeza e sofrimento. Temos um time medíocre, sem tesão, sem vontade, que não cria, não marca, não faz gol, não vence. São quase dois meses sem ganhar uma única partida…

Mas não foi para me aborrecer que resolvi escrever essa coluna. Assim como muitos brasileiros, estou tomada pela Copa do Mundo de Futebol Feminino. Acho que nunca tivemos uma cobertura jornalística tão grande, o que é fundamental para o reconhecimento e popularização do esporte. Sempre me emociono com as histórias das jogadoras, muitas vezes marcadas pela pobreza, por portas fechadas, pelo preconceito. No jogo de estreia das meninas contra a seleção do Panamá, em que a atacante Ary Borges marcou três gols, fiquei pensando na emoção dos pais dela diante da vitória pessoal e coletiva da filha. Mesmo com uma semana intensa de trabalho, estou ansiosa para acordar bem cedo no sábado e assistir ao confronto entre Brasil e França.

Os holofotes em torno das jogadoras me fizeram lembrar da importância do futebol feminino em minha vida. Em 1996, estudava na Escola Municipal Professor Tabajara Pedroso, situada em um bairro da periferia de Belo Horizonte. Além da arquitetura inclusiva e acessível, com poucas escadas e muitas rampas, a instituição contava com diversos professores comprometidos com uma educação popular, democrática e de qualidade. O Tabajara ainda tinha quadras de futsal e atletismo, salas para a prática de ginástica artística e de artes marciais, o que ainda é algo raro em escolas públicas. Possuía também portas abertas para a comunidade escolar. Lembro que, no turno da manhã, eram ofertadas aulas de ginástica e alongamento para as mães dos alunos.

Nessa escola tão cheia de possibilidades, senti na pele – e de maneira muito intensa – a violência racista. Todos os dias, eu era alvo das ofensas do Bruno, que me chamava de “macaca”, “nega do cabelo duro”, “namorada do Mussum”, “carvão”, “tiziu” e uma série de apelidos que, passado tanto tempo, ainda ressoam no meu ser. Conforme contei no livro Sobrevivendo ao racismo, certa vez, enquanto me dirigia à sala de aula, Bruno, com a boca cheia de biscoitos, cuspiu em mim. Não reagi. Meu sentimento era de dor e incredulidade. Humilhada, fiquei com a blusa do uniforme toda suja e com a lembrança da gargalhada dele diante de tamanha crueldade.

Nessa mesma escola, havia a professora de Educação Física Vânia Noronha, que me faz abrir um sorriso cada vez que eu me lembro dela. Quando pouco se falava em promoção da igualdade de gênero, Vaninha, como é carinhosamente chamada pelos seus alunos, já tinha um posicionamento firme de que essa história de “esporte de menino e esporte de menina” é fruto da ignorância e da estupidez. Pensando nisso, ela organizou um campeonato de futebol feminino. Não sem antes nos ensinar técnicas e fundamentos da modalidade esportiva. Ela era, e ainda é, uma exímia professora. Animada, logo me inscrevi. Jamais iria perder essa oportunidade. Coube a mim convencer minhas colegas de turma a se inscreverem também.

Jogava no ataque, ao lado da Denise. No meio-campo, Ariadne e Patrícia. No gol, a pequena e valente Joyce. Surpreendentemente, superamos o time da antiga 8.ª série, formado por jogadoras dois anos mais velhas do que nós, já que estávamos na sexta. Tomamos um gol logo no início do jogo, mas fiz o gol que nos levou ao empate e à disputa de pênaltis. Na minha vez de bater, não desperdicei. Acertei no cantinho, sem chance para a goleira. Para mim, foi mágico. Era como se estivesse vivendo um sonho.

Disputamos a final contra a equipe de uma outra sala da 6.ª série. A escola parou para assistir à disputa. A quadra estava lotada. Foi um jogo duro, difícil, com poucas chances para os dois lados. Já nos minutos finais, Denise tocou a bola pra mim. Na entrada da área, matei com o pé esquerdo. Com calma, olhei para o gol e chutei de canhota, no ângulo, na “gaveta”, onde a “coruja dorme”, como costumavam dizer os narradores de futebol de antigamente. Foi um golaço! Modéstia às favas, o gol faria Reinaldo, Toninho Cerezo e Éder Aleixo, jogadores que tenho como ídolos, sentirem orgulho de mim.

Foi o gol do título. Saí correndo, ensandecida, pela quadra. Minhas companheiras corriam atrás sem que conseguissem me alcançar. Eu vivia o céu, o olimpo, a glória. A garota que todos os dias era chamada de macaca, que na impossibilidade de comprar um tênis novo, ia para a escola com o calçado rasgado, tornara-se a Marta do time. A garota que ia para a escola com o uniforme sujo por não dispor de água encanada em casa, e que na falta de sabonetes, tomava banho com sabão de lavar louça, sagrara-se campeã do campeonato de futebol feminino da Escola Municipal Professor Tabajara Pedroso.

Embora não tenha registros fotográficos, jamais vou me esquecer desse dia. Conforme escreveu Viola Davis: “Existe um abandono que vem com a pobreza e com o fato de ser negro. O peso do trauma geracional e da luta por necessidades básicas não deixa espaço para mais nada. Você apenas acredita que não passa de lixo”. Ser a Marta do time, ter responsabilidade e participação incontestável na vitória da minha equipe, erguer o troféu de campeã… tudo isso me ajudou a acreditar que eu não era um lixo. O torneio organizado pela professora Vaninha, há quase trinta anos, me ajudou a sobreviver ao racismo.

Posso estar equivocada, mas acredito que esta edição da Copa do Mundo de Futebol Feminino representará um marco para a modalidade, trazendo mais visibilidade e valorização às jogadoras, bem como incentivo para as meninas que veem no esporte uma possibilidade de realização e futuro. Que esse movimento seja acompanhado pelas escolas. Que educadoras e educadores possam se inspirar no trabalho da minha querida professora Vânia, que eu pude reencontrar e abraçar recentemente, no lançamento do meu novo livro. Havia 27 anos que não nos víamos. Foi emocionante demais.

O futebol não é só um esporte. É um mecanismo de inclusão, de reconhecimento mútuo, de superação das diferenças, de promoção da cidadania. Eu posso provar.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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