Aldo Fornazieri

Cientista político, autor de 'Liderança e Poder'

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O fim da onda rosa

Consolida-se o avanço da extrema-direita na América Latina

O fim da onda rosa
O fim da onda rosa
A figura de Abelardo Espriella é um exemplo pedagógico do tipo de estratégia-padrão adotada pelas elites latino-americanas (Foto: Rodrigo BUENDIA / AFP)
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O início do século XXI foi marcado pela ascensão de vários governos progressistas em países da América Latina. Foi a chamada “onda rosa”, caracterizando as tendências ideológicas de esquerda desses governos. Hugo Chávez, Lula, Néstor ­Kirchner, ­Tabaré Vasquez e Pepe Mujica e Evo ­Morales foram os principais expoentes desse processo. Em 2011, quase todo o mapa da América do Sul era vermelho. A onda rosa se fortaleceu na esteira da terra arrasada social provocada pelo neoliberalismo. Foi marcada por programas de crescimento econômico, combate à pobreza e inclusão social. O boom das commodities lastreou a sustentação das políticas dos governos progressistas. Mas, nas crises financeiras de 2008 a 2012, surgiram os primeiros sinais de problemas de sustentação do modelo.

Em 2015, Mauricio Macri vence na Argentina, em 2016 Dilma Rousseff foi derrubada, em 2017 Sebastián Piñera volta à Presidência do Chile e em 2018 Jair Bolsonaro foi eleito no Brasil.

Em torno de 2020, contudo, parecia que se iniciava uma segunda onda rosa. Andrés López Obrador assumiu a Presidência do México em 2018, Luís Arce na Bolívia em 2020 e Gabriel Boric, Gustavo Petro e ­Xiomara Castro assumem em 2022 no Chile, Colômbia e Honduras. Em 2023, Lula começa o seu terceiro mandato no Brasil.

Mas a segunda onda não se sustentou. Logo começaram sérios reveses. As derrotas, agora, não foram para candidatos de direita liberal, mas por radicais populistas de extrema-direita. Bolsonaro e Nayib Bukele, eleito em El Salvador em 2019, foram uma espécie de pioneiros desse novo perfil de governantes. O ciclo extremista de direita se consolida com a vitória de ­Javier Milei na Argentina (2023), Daniel Noboa no Equador (2023), reeleição de Bukele em El Salvador (2024), José Antonio Kast no Chile (2025), Nasry Asfura em Honduras (2025), Laura Fernández Delgado na Costa Rica (2026), Keiko Fujimori no Peru (2026) e Abelardo de la Espriella na Colômbia (2026). Na Bolívia, República Dominicana, Honduras, Panamá e Paraguai foram eleitos líderes da direita tradicional.

O Brasil, com eleições neste ano, e o México, com Claudia Sheinbaum, eleita em 2024, são as duas referências de esquerda que sobraram, secundadas pelo Uruguai e Guatemala, com presidentes de centro-esquerda. A Venezuela e Cuba atravessam processos transitórios e a Nicarágua está sob uma ditadura que expurgou a velha guarda revolucionária do sandinismo. Os três países são apontados pela direita como expoentes do fracasso das esquerdas na região.

Analistas de diversas tendências apontam causas comuns do fracasso das esquerdas nos processos eleitorais. Dizem que, com uma exceção ou outra, não há um processo de guinada ideológica das populações, mas a busca de alternativas em face da incapacidade das esquerdas de apresentar soluções para problemas reais. Ressalvadas as especificidades de cada país, alguns denominadores comuns conformam o eixo das mudanças políticas. O principal é o da segurança pública, do crime organizado e do narcotráfico. A América Latina está tomada por esse fenômeno das organizações criminosas e pela violência crescente. Os governos progressistas têm uma dificuldade crônica em enfrentar esses problemas. Os candidatos extremistas prometem agir com mão de ferro, construindo presídios para prisões em massa e reprimindo com violência os traficantes, classificados como terroristas. É a chamada bukelização da América Latina.

A má gestão da política econômica, corrupção institucionalizada, inflação (caso da Argentina), pouca inovação e influência da política externa do governo Trump são outras causas apontadas para explicar as derrotas dos partidos de esquerda. Mesmo com indicadores econômicos razoáveis, como no Brasil, o eleitorado reprova os governos por conta do mal-estar social.

Esse mal-estar se configura pelo endividamento e pelo alto custo de vida. Hoje, os cidadãos não trabalham para viver. Vivem para trabalhar e pagar contas. Os orçamentos pessoais e familiares são espremidos.

Quanto à corrupção, mesmo que os governos de esquerda não sejam corruptos, pagam a conta da inação. No Brasil, pesam os escândalos do INSS, do Banco Master, das emendas, da bandalheira e roubalheira administrativa a exemplo do Rio de Janeiro, dos penduricalhos, dos privilégios dos políticos e da partidocracia. O cenário gera insatisfação, insegurança e medo. Os discursos da lei e da ordem, da mão de ferro, da repressão violenta, do antissistema, fazem eco com o espírito do descontentamento e do medo. Os grupos e movimentos conservadores dominam as narrativas nas redes sociais. Disseminam o ódio e sustentam saídas individualistas que agravam a desagregação social.

As esquerdas, em contrapartida, se tornaram receituárias e burocráticas. Suas narrativas não conseguem mobilizar afetos, emoções e engajamentos. Perderam suas capacidades persuasivas, coroando as derrotas eleitorais. •

Publicado na edição n° 1419 de CartaCapital, em 30 de junho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O fim da onda rosa’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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