

Opinião
O filho candidato e o futuro do bolsonarismo
Mais do que vencer, o objetivo é preservar a hegemonia simbólica e política da família Bolsonaro no campo da direita e da ultradireita brasileira
Jair Bolsonaro não lidera um grande e organizado partido político, o que o distancia não somente de Lula, mas de outros protagonistas da ultradireita internacional. Sua posição no PL ainda é semelhante à antes ocupada no PSL: a de um inquilino privilegiado, menos influente nos rumos do partido do que seus “donos”. Há ainda as decisões do Judiciário, que decidiram não apenas por sua inelegibilidade, mas o impediram de participar de campanhas.
Este cenário sugeria uma iminente perda de influência de Bolsonaro no campo da ultradireita. Ele parecia fadado a apoiar seu mais popular apadrinhado, Tarcísio de Freitas, seja pela força do cargo, seja pelo apoio do governador de São Paulo entre as elites políticas e econômicas. Quando o nome de Flávio Bolsonaro surge como candidato, boa parte dos analistas, pautados pela crença em um gradual ocaso do patriarca Jair, apostou em um blefe, que buscava arrancar uma melhor posição do ex-presidente ante as lideranças da coalizão da candidatura Tarcísio.
Meses depois, o cenário é diferente. O filho 01 do ex-capitão consolidou sua candidatura a partir de um desempenho crescentemente positivo nas pesquisas, de modo que restou ao governador de São Paulo concorrer à reeleição e assumir o papel de cabo eleitoral. A capacidade de transferir votos e apoio a um filho despido de maior carisma ou habilidades retóricas traz questões interessantes sobre as práticas e formas de reprodução do carisma e de lideranças carismáticas.
Max Weber relaciona a rotinização do carisma – ou seja, a reprodução da dominação e da ação da liderança carismática para além da própria pessoa – à criação de instituições, como partidos políticos. Temos bons exemplos na história brasileira. Vargas foi bem-sucedido em pautar a política brasileira mesmo após a sua morte, em boa medida, por vincular sua imagem não somente a uma legenda como o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), mas também a uma série de instituições do mundo do trabalho.
Quando chegamos à escolha de Flávio Bolsonaro, as explicações mais frequentes na mídia e no debate público recorrem a um uso indiscriminado dos conceitos de polarização e populismo. Cabem, porém, interpretações mais complexas. Autores como Marcos Nobre indicam, a partir do conceito de Paolo Gerbaudo, que Bolsonaro se beneficiaria de uma nova instituição virtual, o “partido digital”, que substituiria boa parte das funções e da institucionalidade da antiga forma partido. Mesmo que concordemos sobre a existência de uma organização deste tipo da direita brasileira nas redes, o que não é de modo algum evidente, a formulação ainda tem um problema: ela não demonstra, mesmo que de forma mínima, o controle de Bolsonaro sobre esta instituição.
Bolsonaro foi hábil em usar as redes sociais e mobilizar públicos alinhados, ou potencialmente simpáticos, a ideias de ultradireita. Tanto a dinâmica da internet quanto o forte protagonismo de atores diversos neste ambiente – vários deles apenas tangencialmente alinhados a Bolsonaro, como Pablo Marçal e o MBL – demonstram, contudo, uma ausência de coordenação e uma incerteza nas ações que dificulta a analogia com a forma partido.
Uma hipótese mais interessante aponta para certa inércia na cena política, sobretudo a institucional. Frequentemente se menospreza a dificuldade de construir liderança nacional em um país com eleitorado tão amplo e com instituições políticas fortemente descentralizadas. A estabilidade nos padrões de disputa entre 1994 e 2014, assim como a aparente continuidade entre 2018 e 2026, é um sinal de como coalizões perduram no tempo.
Tomada como exemplo de abertura para novas lideranças, a vitória de Bolsonaro expõe como mudanças políticas por vezes exigem uma grande conjunção de fatores. A eleição de 2018 construiu uma nova coalizão de ultradireita, composta pelo novo protagonismo da extrema-direita e pela radicalização da direita tradicional, a qual se tornou um dos dois polos hegemônicos da política brasileira, ao lado da coalizão de centro-esquerda liderada pelo PT. Sua emergência decorreu de um bom número de fenômenos, como movimentos de longa e curta duração das direitas, novas formas de organização social, mudanças sociotécnicas a partir das redes sociais e uma conjuntura global, muito mais favorável a lideranças de ultradireita.
Bolsonaro foi bem-sucedido não apenas por uma estratégia bem azeitada nas redes, mas por articulações prévias com as elites políticas, como no aceno ao mercado financeiro, ao empresariado e à imprensa por meio da escolha de Paulo Guedes, ou na hábil articulação com lideranças religiosas conservadoras e reacionárias, evangélicas e católicas. Sua posição lateral nas elites políticas permitia a ele tanto o acesso a um mundo vedado aos excluídos quanto a credibilidade de um discurso de outsider. Há, além disso, o papel relevante do acaso, representado pelo evento da facada, de efeitos bem sensíveis no cenário eleitoral.
Mesmo que não tenha construído um partido ou outro tipo de instituição durável, Bolsonaro se consolidou como representante de certo tipo de liderança e de imaginário na política brasileira. Além disso, seu discurso é hábil em tornar suas derrotas como prova das suas virtudes, em dinâmica tipicamente identificada à figura do mártir. Tomar o lugar de uma liderança consolidada, ainda que derrotada nas urnas e punida justamente pelos tribunais, é mais difícil do que parece. Dependeria de uma disposição de renunciar à posição de liderança em prol de ideias ou de um campo político – o que não condiz com a trajetória de Bolsonaro -, ou da disposição de um grupo político em assumir custos, como a perda de eleições, para construir uma nova lógica político-eleitoral, algo pouco condizente com o perfil atual da direita brasileira.
Flávio Bolsonaro não é a escolha mais óbvia para ganhar a eleição. Com um apoio explícito de Bolsonaro, Tarcísio de Freitas poderia ter um teto maior e, dada sua popularidade dentro da elite política e econômica, eventualmente ganhar os votos do eleitorado que rejeita Lula e também Bolsonaro. O filho é, contudo, a liderança capaz de garantir que, mesmo com uma derrota, a família Bolsonaro siga como grande liderança da direita e da ultradireita brasileiras.
Jair aposta na inércia do campo da direita e em sua dificuldade de mudar. Pelos últimos movimentos da conjuntura, há boa chance que ele seja bem-sucedido.
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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