Jorge Chaloub

Professor do Departamento de Ciência Política da UFRJ e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFJF

Opinião

O fetiche da terceira via

O PSD tenta ocupar o antigo lugar tucano num país em que o ‘centro’ ficou mais caro e mais à direita

O fetiche da terceira via
O fetiche da terceira via
Os governadores Eduardo Leite (RS), Ronaldo Caiado (GO), Ratinho Jr. (PR), e o presidente do PSD, Gilberto Kassab. Foto: Reprodução redes sociais
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Eleições 2026

Um leitor de jornais ou espectador de canais pagos de notícia dificilmente passa um dia sem esbarrar em lamúrias sobre a polarização. Raro quando um dos polos hegemônicos da cena eleitoral brasileira era representado pelo PSDB, o tema se tornou onipresente a partir de 2018, momento em que as eleições presidenciais passam a opor o PT a uma nova coalizão de ultradireita, formada por uma extrema-direita de protagonismo mais recente e por uma direita tradicional radicalizada.

Ante os males da polarização, é frequentemente indicado um único remédio: a terceira via. Utopia possível de boa parte dos nossos colunistas políticos, uma promessa de moderação em meio aos radicalismos.

O discurso frequentemente iguala, a despeito dos fatos, o PT às versões mais radicais da extrema-direita, mas suas consequências vão além. Como desdobramento comum desse enredo, produz-se tanto certa criminalização de discursos de esquerda, ou mesmo progressistas, quanto a normalização da ultradireita. Afinal, se as ideias de extrema-direita seriam tão antidemocráticas quanto as da esquerda hegemônica, não teríamos algo muito pior do que tivemos entre 2003 e 2016, apenas uma experiência diversa. O governo Bolsonaro foi uma demonstração pedagógica desses erros, mas muitos seguem na mesma toada.

A análise do discurso das lideranças do PSD mostra como o partido está longe de abraçar a neutralidade

A terceira via já teve alguns rostos, que se sucederam ao longo do tempo justamente pela dificuldade de se afirmar como liderança presidenciável. Em 2022, por exemplo, Simone Tebet foi saudada como o principal nome capaz de superar a polarização. Mais recentemente, contudo, temos não apenas lideranças eventuais, mas um projeto institucional de construção do campo: o PSD, de Gilberto Kassab.

Nas frequentes entrevistas de seu líder e criador, o PSD assume feições ambíguas, transitando entre a ausência de uma identidade ideológica mais clara a defesa de pautas identificadas à direita nas mais diversas latitudes, como a implantação de uma educação militarizada, o punitivismo aberto e a redução do tamanho do Estado, especialmente de suas instituições destinadas a limitar as desigualdades sociais. Em outros termos, o partido pretende conciliar certa ideia vaga de centro com linguagens tradicionais da direita. A frequente mobilização do conceito de Centrão reforça certos aspectos de um grupo heterogêneo e organizado a partir do parlamento, mas ignora elementos importantes de sua identidade política nos últimos anos, como a defesa aberta de algumas pautas e valores.

O objetivo mais evidente dessa concertação é ocupar o lugar do finado PSDB, vítima da radicalização da direita tradicional — inclusive de parte de suas lideranças — e da emergência de novas lideranças de extrema-direita. As semelhanças das letras da sigla e da vocação remetem, todavia, não apenas aos tucanos, mas também ao maior partido da República de 1946, homônimo da legenda de Kassab e capaz de condensar boa parte do imaginário centrista brasileiro.

É inerente à ideia de centro uma maior dependência das forças políticas hegemônicas. Se direita e esquerda são conceitos relacionais — que carregam um núcleo mínimo de sentido, mas dependem dos aliados e adversários de ocasião — pode-se dizer que o centro é ainda mais dependente dos humores da maré política. A escolha por uma identidade radical do tipo, pretensamente equidistante de dois extremos, em tempos de inflação de discursos de ultradireita, não produz os mesmos efeitos que em outros cenários. Dito de outro modo: escolher a neutralidade quando uma das forças políticas mais influentes ataca diretamente a democracia não é o mesmo que fazê-lo em tempos de menor presença de discursos e lideranças autoritárias.

Kassab, porém, faz mais que lavar as mãos. A análise do discurso das lideranças do PSD mostra como o partido está longe de abraçar a neutralidade. Dentre os dois polos, há uma clara preferência pelo bolsonarismo, com quem não apenas o ex-prefeito de São Paulo, mas personagens como Ronaldo Caiado e Ratinho Júnior flertam com regularidade. Se as incertezas em relação ao candidato da direita ainda não permitem segurança sobre as alianças de um eventual segundo turno, há, sem dúvida, mais afinidades entre o PSD e a ultradireita do que entre o partido e o PT.

Perduram, desse modo, as bases de uma visão de mundo na qual a direita tradicional brasileira funciona como sócia menor da coalizão de ultradireita, liderada pelos aliados da família Bolsonaro.

Procurar saídas para transformar conjunturas políticas, sobretudo aquelas marcadas pelo signo da crise, é uma pretensão legítima e normal. Recuperar alguns usos do conceito de terceira via na história brasileira pode sugerir possíveis caminhos e desdobramentos para tal desejo. Em chave bem distinta do movimento do PSD, é comum que, dentro e fora do Brasil, o fascismo se apresente como terceira via entre um capitalismo liberal decadente e os perigos do comunismo. Tal mote foi retomado por Jair Bolsonaro em 2018, para se distinguir das candidaturas de Lula e Alckmin.

Outro imaginário remete aos lamentos das elites políticas do pós-1945 ante supostos excessos dos radicalismos de então, vinculados sobretudo à esquerda. Aqui estamos em um terreno similar ao tom predominante na mídia e em boa parte das elites políticas atuais. Se, em 1948, o mote era um candidato de consenso, que reconstruiria os valores perdidos e isolaria os radicais, agora predomina o desejo por um novo governo Temer, munido de outra “Ponte para o Futuro”. Com isso, reconstruir-se-ia certo amálgama liberal-conservador supostamente perdido ao longo da Nova República.

Falta apenas combinar com os russos — no caso, a maior parte da direita tradicional —, que parece menos interessada em moderar ou construir uma alternativa do que em compor uma coalizão de ultradireita à moda do governo Bolsonaro. Nesse arranjo, o Executivo fica livre para as articulações golpistas e os discursos inflamados para as massas, enquanto resta ao Parlamento autonomia para gerir recursos de vulto praticamente desconhecido em nossa história republicana.

O movimento de Kassab não deixa, contudo, de indicar uma inflexão importante. Pela primeira vez desde 2015, parte importante da direita tradicional — não políticos em trajetória decadente, como Alckmin há quatro anos — faz movimentos públicos de diálogo eleitoral com a esquerda, em nível nacional, e ameaça não compor a coalizão adversária na eleição presidencial. Trata-se de sintoma da desorganização da ultradireita e da relativa fraqueza de seu candidato, mesmo com bons desempenhos nas pesquisas recentes.

É difícil prever se teremos um candidato efetivo ou um nome para ser cristianizado. O simples movimento explícito já sugere, porém, mudanças e, em meio a discursos genéricos e repetitivos, talvez exponha uma brecha para um maior isolamento da extrema-direita na política brasileira. Não teríamos, contudo, uma terceira via ou um centro, mas a retomada, sob nova roupagem, de velhas linguagens da direita brasileira do pós-1945.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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