Alberto Villas

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Jornalista e escritor, prepara o lançamento do “Almanaque Maurício Kubrusly”, pela Panda Books.

Opinião

O eterno movimento dos barcos

Eu estou cansado… E você também

O Porto di Brindisi. Foto: Reprodução/YouTube
O Porto di Brindisi. Foto: Reprodução/YouTube
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EU ESTOU CANSADO…

Ele está meio cansado de tudo. Lutou tantos e tantos anos contra a ditadura, pela democracia, chegou a pegar em armas, fugiu do país, foi viver no frio, criou dois filhos na neve.

E VOCÊ TAMBÉM…

Claro, fez companhia a ele durante todos aqueles anos, segurou muitas barras. Acostumada com o luxo da casa dos pais, largou tudo pra trás para seguir um caminho da incerteza e da aventura.

VOU SAIR SEM ABRIR A PORTA…

Ele vai tentar não fazer barulho, caminhar pé por pé, como se pisasse em ovos. Sorte a porta não estar trancada porque, sem óleo nas dobradiças, ela acordaria com o ranger.

E NÃO VOLTAR NUNCA MAIS…

Ele saiu decidido, decidido a nunca mais colocar os pés neste país. Não vai esperar outubro chegar, quiçá a revolução, a luz no fim do túnel, a esperança.

DESCULPE A PAZ QUE LHE ROUBEI…

Roubou da noite pro dia prometendo socialismo e luta que, pensando bem, não veio. Foram anos e anos lavando prato, cuidando de crianças. Crianças que cresceram, viraram videomakers militantes da natureza.

E O FUTURO ESPERADO QUE NUNCA LHE DEI…

Ele não deu praticamente nada a ela, apenas algumas noites de prazer, algumas viagens ao oriente médio, comida árabe da boa por exatos quarenta e cinco dias. E só.

É IMPOSSÍVEL LEVAR UM BARCO SEM TEMPORAIS…

Sem chuva, ele passou horas e horas no porto de Brindzi sentindo aquela brisa e o balançar maneiro das embarcações ancoradas, porto seguro de gaivotas voando numa boa.

E SUPORTAR A VIDA COMO UM MOMENTO ALÉM DO CAIS…

Tudo passou pela cabeça dele ali no cais do porto, todos aqueles anos de sonhos, calça vermelha desbotada e casaco de general comprado no mercado livre do Portobello, numa das viagens à terra da Rainha. Os anéis escolhidos em barraquinhas no mercado das pulgas de Porte des Lilas que se foram, ficaram apenas os dedos.

QUE PASSA AO LARGO DO NOSSO CORPO…

Um corpo que não tem mais aquele frescor dos anos 1970, corpo coberto por batinhas indianas e pés com tamancos suecos.

NÃO QUERO FICAR DANDO ADEUS…

Ele sente uma vontade enorme de ir embora sem olhar pra trás, se arrepender, voltar e continuar sentado à beira do caminho, vendo caminhões e carros a passar por ele.

AS COISAS PASSANDO…

Carros, automóveis, motocicletas, bikes, skates, patinetes, indo para onde? Pra chegar onde?

EU QUERO É PASSAR COM ELAS…

Seguir um rumo, seja ele qual for. Até que a morte e a plenitude coincidam um dia.

E NÃO DEIXAR NADA MAIS DO QUE CINZAS DE UM CIGARRO…

Um único cigarro que ele fumou em El Methein, para obedecer aos estatutos locais da família. O Kent ficou ali inteiro no cinzeiro de cobre que tinha o desenho de um velho cedro, frondoso e belo.

E A MARCA DE UM ABRAÇO NO SEU CORPO…

Que, com o tempo, foi apagando, sumindo, dando lugar a um branco que quase confundia com vitiligo.

NÃO QUERO FICAR DANDO ADEUS…

Não, ele não quer. Isso sei que não quer.

NÃO, NÃO SOU EU QUEM VAI FICAR NO PORTO CHORANDO…

Ele é duro na queda, os dias que chorou na vida, pode-se contar nos dedos de uma mão. Não vai ser agora que as lágrimas vão encher os seus olhos e transbordar.

LAMENTANDO O ETERNO MOVIMENTO, MOVIMENTO DOS BARCOS

São todos eles muito bonitos, alguns imaculadamente brancos, outros coloridos. Eles não saem do lugar, ficam ali balançando, enquanto ele precisa ir.

Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

Alberto Villas

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