O espantalho covarde e conveniente de Pazuello

''Vimos um sujeito autoritário e afrontoso, empregando uma estratégia que parece ter pego os arguidores desprevenidos', escreve Camilo Aggio

Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Opinião

O depoimento do general três estrelas do exército brasileiro, Eduardo Pazuello, para a CPI da Covid ainda não terminou, mas não precisa chegar ao fim para já constatarmos um fato objetivo: ao contrário da expectativa generalizada, o ex-ministro da saúde de Jair Bolsonaro passou longe de vestir o figurino do depoente medroso e claudicante.

A expectativa se justificava, obviamente. Por mais de uma vez, o jornalismo ouviu de suas fontes que o general estava amedrontado, temendo ser preso a mando do presidente da CPI, assim como fomos munidos de suspeitas do tipo quando o general adiou sua ida à comissão alegando suspeita de adoecimento por Covid-19 – ou mesmo quando começou a circular a história de que o ex-ministro estudava se esconder por detrás de uma farda militar com um objetivo duplo: envolver simbolicamente o Exército à sua gestão e, com isso, intimidar congressistas. Tudo levava a crer nessa hipótese, além do simples fato de que a missão de Pazuello é impossível: defender o indefensável.

 

 

No entanto, não é o que se vê. Diante da postura do general , fico cada vez com mais certeza de que o “Pazuello nervoso, desesperado e sem defesa” e o “Pazuello que iria de farda para se impor” foram táticas diversionistas para vender um Pazuello acuado que não existe, dar uma confiança desproporcional
aos membros da CPI e uma expectativa irrealizável ao público em geral. Parecem sinais razoáveis de que fez parte de uma estratégia de comunicação política ou propaganda de guerra.

Não é à toa que, por mais que reações indignadas estejam pululando nas redes digitais diante dos malabarismos do ex-ministro da saúde, a sensação é de alguma frustração com aquilo que parecia ser o “O Dia D, na Hora H”. Isto porque uma gestão que ‘consegue’ fazer o número de mortos por Covid-19 no Brasil sair de 15.633 para 280 mil, com direito ao estado do Amazonas enterrar pessoas por falta de oxigênio que poderia ter sido providenciado pela pasta, parece uma casa que nem teto de vidro tem.

Mas, ao contrário do que esperávamos com esse show da CPI, tudo aquilo que indicava que Eduardo Pazuello seria o sucessor de Fabio Wajngarten no quesito “vergonha alheia” da comissão não parece mais verdadeiro. O que se vê é um sujeito confiante, autoritário e afrontoso, empregando uma estratégia de combate que parece ter pego seus arguidores desprevenidos, afinal, quanto maior a expectativa criada, maior é frustração. Uma performance que destoa do papel servil e acovardado que desempenhou à frente do Ministério da Saúde.

Em que pese o fato mais que previsível de que não se poderia esperar sinceridade e honestidade nas falas de Eduardo Pazuello (ou de qualquer ex-ministro de Jair Bolsonaro), o fato é que parece que, enquanto o general e sua equipe (militares incluídos?) vendiam ao público uma presa ao ponto do abate, talvez se aproveitando da boa-vontade e confiança do jornalismo em suas fontes oficiais, o general, ao mesmo tempo que criava um espantalho conveniente, ganhava tempo para treinar e se preparar.

Pazuello está usando a única tática que poderia funcionar: tergiversa, devolve perguntas, insinua acusações, tumultua, critica arguidores, mas, principalmente, segue dois pontos tradicionais do roteiro clássico do bolsonarismo: gera confusão pela cacofonia e pela indignação alheia diante do emprego de um nível cavalar de dissimulação e cinismo.

Há um componente fundamental que poderia ser chamado de servilismo, vez que está, claramente, trabalhando para blindar as decisões de quem foi o verdadeiro ministro da Saúde ao longo de sua gestão. No entanto, mais do que servir ao outro, o ato é de servir a si mesmo. Salvar-se é tentar salvar Bolsonaro, em que pese o sentimento militar de lealdade.

Não sei exatamente se fica alguma lição aí, mas a verdade é que o bolsonarismo vem sabendo lidar com estratégias de comunicação que findam por preparar terrenos bastante férteis e favoráveis a seus propósitos, ainda que seja num campo de guerra com muitas batalhas difíceis de serem ganhas, como é o caso da CPI da Covid. No entanto, já não faltam os frustrados que, neste momento, comentam a sessão de hoje ao lado dos tantos que veem um Pazuello “destruindo os senadores na CPI”, afinal, a disputa da comunicação é simbólica, é sobre percepções, o jogo fundamental se dá na esfera da opinião pública. E parece que o Pazuello covarde nunca existiu, ou melhor, só existiu como uma personagem para fazer da expectativa uma estratégia de frustração.

 

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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PhD em Comunicação e Cultura Contemporâneas, professor e pesquisador da Universidade Federal de Minas Gerais, membro do Grupos de Pesquisa em Democracia e Justiça (Margem) e pesquisador associado ao Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Democracia Digital (INCT.DD).

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