O enaltecimento da objetificação das mulheres na série sobre Hugh Hefner

Série da Amazon Prime chancela a todo momento o olhar masculino, condecorando um dos mais conhecidos nomes da indústria pornográfica

Hugh Hefner, fundador da Playboy falecido em 2017.

Hugh Hefner, fundador da Playboy falecido em 2017.

Opinião

“American Playboy: a história de Hugh Hefner” é uma série documental produzida pela Amazon Prime, com dez episódios, cada um com cerca de 40 minutos, que narra a história do conhecido fundador da revista Playboy. A série mistura arquivos pessoais de Hugh Hefner, entrevistas com seus sócios, amigos e familiares e representações cinematográficas, que trazem uma abordagem curiosa sobre a história de um dos homens mais influentes da história da pornografia moderna. Pela perspectiva Hefner, a história é narrada por lentes masculinas de mundo, que normalizam e enaltecem a objetificação das mulheres.

Basicamente, a série conta que, insatisfeito com seus empregos no ramo jornalístico, Hefner decidiu criar uma revista que abordasse o lifestyle do homem americano. Com um aporte inicial baixíssimo, o criador de uma das mais famosas revistas pornográficas do mundo conseguiu se inserir no mercado jornalístico, se diferenciando com uma revista que era mainstean middle class sexuality, construindo um império. Do ponto de vista de mercado, não há dúvidas: Hefner foi um visionário que soube impactar a construção cultural da sociedade estadunidense, mais especificamente no desenvolvimento da abordagem de temas sexuais.

A Playboy estreou com uma incrível jogada de marketing: os direitos autorais de uma foto seminua tirada antes de sua fama da já aclamada atriz Marilyn Monroe foi comprada por um preço módico por Hefner de uma empresa de calendários pin-up da época.  A cada edição, a Revista lançava uma playmate do mês – the girl next door -, que era escolhida dentre garotas desconhecidas: o mais novo “objeto” de desejo poderia ser sua vizinha, professora ou uma outra mulher qualquer que você conheça, passando a ideia de que todas nós, mulheres, somos acessíveis sexualmente. 

Pela sua narrativa, Hugh Hefner se inseriu no estilo de vida da sociedade norte-americana da década de 50, casando-se e tendo filhos. Apenas após lançar a revista (em 1953), passar a ser rodeado por mulheres, conhecer um amigo mulherengo e passar a ter aparições públicas frequentes, foi que ele se tornou o “Rei das Coelhinhas”, adotando o American Playboy Lifestyle.

Alguns fatos sobre a Playboy me chamaram a atenção. Além de pretender construir um novo lifestyle masculino, a Playboy se engajava na luta por justiça social, tendo, inclusive, financiado grupos sociais por meio da Playboy foundations. A inclusão social e racial e o apoio ao movimento negro, como, por exemplo, as entrevistas com líderes dos movimentos sociais e culturais da época, a inclusão de artistas negros nos programas da Playboy e, mais tarde, a escolha de uma mulher negra como Coelhinha do mês, chegou a gerar boicote pelos estados do Sul dos EUA à empresa.

Os fóruns da Revista Playboy abordavam assuntos controvertidos socialmente, adaptando-se ao que estava acontecendo na cultura e impulsionando mudanças comportamentais, tendo se posicionado contra a pena de morte, contra a guerra do Vietnam, a favor das pílulas anticoncepcionais e do direito ao aborto, etc.

Hefner chega a dizer que as mensagens da Playboy eram intensificadas pelo fato por ser uma revista de diversão masculina. Sem dúvidas, por ser uma revista utilizada, majoritariamente, para fins masturbatórios, as mensagens transmitidas são muito mais potentes, pois quem está tendo um orgasmo não está pensando, mas consumindo os prazeres daquela sensação.

Ocorre que a suposta justiça social, perseguida pela Revista, tinha limites: as mulheres poderiam avançar, desde que continuassem cumprindo o seu papel sexual, sendo servíveis aos interesses sexuais masculinos. Como se vê, o discurso não passava de uma mera ilusão.

A série narra que, quando os bares da Playboy foram abertos, as garçonetes, que se vestiam como coelhinhas e eram treinadas para exibir seus corpos enquanto serviam os clientes, não podiam se relacionar com eles, exceto com os proprietários dos clubs e alguns homens importantes que faziam parte de uma ‘lista vip’. Para quem pretende lutar por justiça social, manter esse tipo restrição, com privilégios, é um tanto quanto incoerente, não é mesmo?

De outro lado, Hefner afirmava que empresa tinha uma política séria contra o assédio sexual, sendo um ambiente protetivo às mulheres, e que as garçonetes adoravam aquele lugar, por ser um ambiente de alto luxo, onde elas ganhavam altas gorjetas dos clientes e eram admiradas. Muitas mulheres participavam da seleção para o cargo, sendo entrevistadas de biquini – afinal, o corpo era um critério importante de escolha.

Do ponto de vista das mulheres, a história não era bem assim. Gloria Steinem, jornalista estadunidense e importante feminista do movimento contra pornografia, se infiltrou no club de Nova York, trabalhando como coelhinha, e registrou sua experiência de trabalho intenso, extremamente degradante e sexista, onde as mulheres eram vistas como pedaços de carne e usadas para o benefício dos homens.

Ativista Gloria Steinem nos anos 70. Foto: Nancy Gee

Diante das suas incongruências e com o fortalecimento das lutas feministas, em especial nas décadas de 1960/70, a Playboy passou a ser alvo de fortes críticas dos movimentos de mulheres. Críticas pesadas e sérias, distintas daquelas provenientes das mulheres religiosas e conservadoras, por não estarem centradas na moralidade, mas sim na defesa dos direitos das mulheres. Hefner se indignada com isso, sentindo-se incompreendido pelas feministas, já que ele também se posicionava a favor da luta pela justiça social. Realmente, deve ser difícil ser um homem branco, bilionário e em posição de poder, incompreendido por exibir um padrão de corpo feminino desejável pelo mercado…

Em entrevista, Hefner afirmou que era a favor do direito das mulheres, que era a favor do voto feminino, do direito de as mulheres trabalharem, do direito de propriedade das mulheres, mas que também acreditava que as mulheres podiam ser atraentes.

O problema que Hefner não queria observar, e que existe até hoje, é que as mulheres têm sua inteira existência resumida a sua beleza, e que as publicações da revista naturalizavam essa mensagem. O próprio dono da empresa durante toda sua vida apenas se relacionou com mulheres brancas, jovens, esbeltas, com corpos padrões. Assim, a filosofia de seus empreendimentos e de seu estilo de vida transmitia a ideia de que apenas certas mulheres são passíveis de serem desejadas, mas todas são dispensáveis com a idade.

E é justamente por isso que a pornografia é potencialmente maléfica para as mulheres: há uma forte intermediação mental dos pornógrafos com seus consumidores no que se refere a transmissão da mensagem de submissão e discriminação feminina, com a intensificação de uma realidade de violência contra a mulher.

Já a série por sua vez, chancela a todo momento o olhar masculino, justificando as escolhas de Hefner e normalizando a objetificação da mulher na forma da beleza feminina.

Vale a pena assistir, com um olhar crítico e com a seguinte advertência: cuidado para não se encantar com as narrativas do discurso do poder de Hugh Hefner, porque a realidade, vista pela perspectiva das mulheres e pela ótica das suas Bunnies, pode ser bem diferente…

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Professora universitária (UNIRIO) e advogada feminista, doutoranda em Direito (UFRJ), mestra em Direito Constitucional (UFF) e especializada em Direitos Humanos (Universidade de Coimbra - Portugal), pesquisadora e coordenadora do projeto Feminismo Literário.

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