O dia em que conheci a escritora Paulina Chiziane, vencedora do Prêmio Camões

A vitória se deu pela preocupação de seus livros com os problemas da mulher moçambicana e africana e com o reconhecimento de sua obra

Foto: Reprodução

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Opinião

Na última quarta-feira 20, foi divulgado o resultado do Prêmio Camões, o mais importante e prestigiado concedido a autores lusófonos. Na edição de 2021, a escritora moçambicana Paulina Chiziane sagrou-se a grande vencedora da honraria patrocinada pelos governos do Brasil e de Portugal.

De acordo com o corpo de jurados, formado por intelectuais de vários países, a vitória de Paulina Chiziane se deu pela preocupação de seus livros “com os problemas da mulher moçambicana e africana”, como também pelo reconhecimento “acadêmico e institucional” de sua obra.

Nascida em 1965, Paulina Chiziane foi a primeira moçambicana a publicar um romance. Autora de Niketche, lançado pela Companhia das Letras, e O alegre canto da perdiz (Editora Dubliense), sua obra tem encontrado grande recepção no Brasil, sendo tema, inclusive, de teses e dissertações defendidas em universidades de todo o País.

 

 

Em 2015, imbuída pelo compromisso de levar aos meus alunos da Educação Básica a História e a Cultura da África, conforme determina a Lei Federal nº 10.639/03, não pensei duas vezes ao tomar conhecimento de que Paulina Chiziane participaria de um evento em Belo Horizonte. Terminadas as aulas, deixei a escola em que trabalhava e atravessei a cidade para vê-la e ouvi-la. Ao chegar na Academia Mineira de Letras, encontrei um auditório lotado, o que obrigou várias pessoas a se acomodarem no chão, nos corredores.

Por mais de uma hora, Paulina Chiziane falou das dificuldades enfrentadas pelo povo de Moçambique, país que se tornou independente de Portugal há pouco mais de quatro décadas. Paulina abordou o machismo, a violência que permeia a vida de muitas moçambicanas. Revelou que, em muitas ocasiões, foi vista com maus olhos pelo simples fato de ser escritora. Falou ainda que páginas inteiras de seus livros foram escritas ao som de tiros, resultantes dos conflitos armados ainda presentes na nação que fica no Sul da África.

Naquela manhã, o que mais me surpreendeu foi o fato de Paulina relatar essas experiências tão duras e difíceis de maneira terna, com doçura. Durante o bate-papo, que contou com a presença da escritora mineira Conceição Evaristo, houve espaço para muitas gargalhadas, que contagiavam a todos que ali estavam.

Ao final do evento, não me furtei de enfrentar uma fila imensa e pedir um autógrafo. Paulina Chiziane atendeu dezenas de pessoas com paciência e generosidade. Houve tempo também para uma foto, em que eu, Paulina e minha amiga Glauciane sorríamos efusivamente. Foi um encontro para a posteridade. Sorte a nossa.

Desde que me mudei para o apartamento em que moro atualmente, criei o hábito de revelar fotos, emoldurá-las e colocá-las na parede. Na minha sala, o cômodo de que mais gosto, é possível encontrar registros com Pepe Mujica, Nilma Lino Gomes, Ailton Krenak, Conceição Evaristo, Mart’nália, Benedita da Silva e outras personalidades. Envergonhada, digo que ainda falta expor ali o meu clique com Paulina, mas nos próximos dias essa falha imperdoável será resolvida. Paulina Chiziane ganhará um espaço muito especial na minha casa.

Que com o Prêmio Camões mais brasileiros abram os olhos e os ouvidos para a doçura, para a escrita forte e refinada de Paulina Chiziane.

Viva Paulina e seu talento inspirador!

Este texto não reflete necessariamente a opinião de CartaCapital.

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Mestra em Educação pela UFOP. Atuou como professora de História em escolas públicas da periferia de Belo Horizonte e da região metropolitana. Atualmente tem se dedicado à Formação Inicial e Continuada de Professores. É autora do livro Outra educação é possível: feminismo, antirracismo e inclusão em sala de aula, lançado em 2018 pela Mazza Edições.

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