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O dever de lembrar

O filme Anatomia do Caos convida o público a refletir sobre os limites do poder, a importância das instituições democráticas e o papel da sociedade na defesa da verdade

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Manifestantes protestam após Brasil ultrapassar a marca de 100 mil mortos na pandemia. Foto: Evaristo Sá/AFP
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Há filmes que informam. Outros emocionam. E há aqueles que cumprem uma função ainda mais nobre: preservar a memória de um país. Anatomia do Caos, dirigido por Dandara Ferreira, pertence a essa última categoria e por isso é imperdível.

Mais do que um documentário sobre a Comissão Parlamentar de Inquérito da Covid-19, instalada em abril de 2021, quando registrávamos mais de 395 mil mortes pela doença, o filme é testemunho histórico sobre a maior tragédia sanitária da história brasileira e sobre as escolhas políticas que contribuíram para agravá-la.

O acesso inédito da cineasta Dandara­ Ferreira aos bastidores da CPI permite ao espectador acompanhar, para além dos holofotes, a construção de uma investigação que expôs o funcionamento de um governo que optou reiteradamente pela negação da ciência, pela desinformação e pelo desprezo à vida. Nos corredores do Senado, nas reuniões reservadas, nos depoimentos e confrontos públicos, o documentário revela como se desenrolou um dos mais importantes processos de responsabilização política da democracia brasileira.

Mas a força do filme não reside apenas na reconstrução dos fatos. Seu maior mérito é recordar que, por trás das estatísticas, existiam pessoas, famílias, amores, sonhos e projetos de vida. Mais de 700 mil brasileiros perderam a vida para a Covid-19. Milhões adoeceram. Profissionais de saúde enfrentaram condições extremas de trabalho. O SUS, apesar das dificuldades, sustentou a resposta sanitária em um contexto de descoordenação federal.

A pandemia não foi apenas uma catástrofe biológica. Foi uma crise política, institucional e moral. Diversos países enfrentaram dificuldades diante de um vírus desconhecido. No Brasil, porém, parte importante do sofrimento poderia ter sido mitigada se prevalecessem a responsabilidade pública, o respeito às evidências científicas e a coordenação nacional das ações. A literatura científica demonstra que decisões governamentais influenciaram diretamente a magnitude da crise sanitária.

Foi exatamente essa dimensão que a CPI procurou investigar. O documentário transforma esse processo em narrativa cinematográfica sem perder o rigor dos acontecimentos. Ao acompanhar seus protagonistas de perto, Dandara evita o sensacionalismo e a simplificação. O resultado é uma obra que convida o público a refletir sobre os limites do poder, a importância das instituições democráticas e o papel da sociedade na defesa da verdade.

Assistir a Anatomia do Caos é também revisitar um período em que médicos eram atacados por defenderem vacinas, pesquisadores sofriam campanhas de desqualificação, gestores estaduais e municipais enfrentavam obstáculos para coordenar respostas locais, enquanto milhares de famílias aguardavam, impotentes, notícias de parentes internados. É impossível assistir às imagens sem recordar aquela tragédia.

Ao mesmo tempo, o filme evidencia outro aspecto frequentemente esquecido: a extraordinária capacidade de resistência da ciência brasileira, do SUS e de seus profissionais.

Há quem considere que revisitar a pandemia seja insistir em um passado que deveria ser superado. O documentário demonstra exatamente o contrário. Sociedades que esquecem tragédias tornam-se mais vulneráveis à sua repetição. A memória não alimenta ressentimentos. Ela fortalece a democracia, qualifica o debate público, clama por justiça e protege as futuras gerações.

Nesse sentido, Anatomia do Caos ultrapassa o registro documental. É uma obra sobre responsabilidade pública. Sobre as consequências concretas das escolhas governamentais. Sobre a necessidade­ de instituições fortes capazes de controlar abusos de poder. E, sobretudo, sobre a obrigação ética de preservar a memória daqueles que perderam a vida.

O Brasil reconstruiu as políticas públicas desestruturadas durante aquele período e fortaleceu novamente o SUS, a vigilância em saúde, a pesquisa científica e a capacidade nacional de resposta às emergências sanitárias. Mas essa tarefa não será completa se vier acompanhada do esquecimento.

A maior homenagem às vítimas da pandemia não está apenas nas estatísticas, nos memoriais ou nos relatórios oficiais. Está na disposição coletiva de aprender com a história. Anatomia do Caos nos lembra, com sensibilidade e contundência, que preservar essa memória é condição indispensável para que uma tragédia marcada pela irresponsabilidade e pelo desprezo à vida jamais volte a acontecer. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O dever de lembrar’

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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