

Opinião
O Deus de Espinosa
Nossa interação – seja de uns com os outros, seja com o meio ambiente – gera consequências e dita o nosso destino
Charles Darwin (1809–1882) teria sido a última pessoa a avistar a ave sanã-das-galápagos na Ilha de Floreana, quando visitou Galápagos, em 1835. A ave havia desaparecido de vista por quase 200 anos, até o início deste ano de 2026, quando surpreendeu a todos com seu reaparecimento.
Segundo reportagem da BBC, nesse mesmo período, “outras aves ameaçadas também se recuperaram, e algumas chegaram a cantar melodias novas, nunca ouvidas na ilha”.
Projetos liderados pela Diretoria do Parque Nacional de Galápagos e pela Galápagos Conservancy estão revitalizando áreas de nidificação costeira, o que ajuda novas gerações de aves a prosperar em ambientes saudáveis e protegidos.
Tivemos muitos exemplos de recuperação rápida da natureza durante a pandemia de Covid–19, período durante o qual reduzimos, involuntariamente, as agressões ao meio ambiente.
Quando se cuida da natureza, as espécies nativas vão retornando e os biomas se refazem. Tanta esperança isso nos traz.
Segundo o diretor do Parque Nacional de Galápagos, “os esforços de conservação focam em reduzir os fatores que podemos gerenciar, como a restauração do hábitat e o controle de espécies invasoras”.
Pois vejam: nosso organismo também responde dessa maneira. Parafraseando o diretor do parque, falando sobre Galápagos, nossa saúde também melhora, simplesmente, a partir da modificação de fatores que podemos gerenciar.
Tomemos como exemplo o tabagismo. Após 20 minutos sem fumar, a pressão arterial volta ao normal; após 12 horas, o monóxido de carbono no sangue cai; em 48 horas, o olfato e o paladar melhoram; entre um e dois meses, a função pulmonar vai se normalizando; e, no período de cinco a dez anos, os riscos de infarto e câncer caem drasticamente.
Outros fatores podem ser gerenciados de forma a trazer benefícios indubitáveis à nossa saúde: álcool, dieta, exercícios, alimentação, hábitos de leitura, interação social e com o meio à nossa volta, por exemplo.
Ao iniciarmos uma transformação cuidadosa desses fatores, nossas células começam a se recuperar e nossos “biomas internos” retomam sua harmonia.
Essa corrente do bem se inicia no interior do nosso corpo e da nossa mente e se espalha pelo nosso entorno, influenciando nossos familiares e amigos a mudarem também.
Imagine se vários microfocos de transformação surgissem na sociedade. Somos, afinal de contas, natureza.
Baruch de Spinoza (ou Espinosa, na forma lusitana), nascido em Amsterdã, em 1632, filho de judeus portugueses que fugiram da Inquisição, foi um filósofo cujas ideias falavam fundamentalmente de liberdade e responsabilidade. Ele questionava os dogmas religiosos. Aos 24 anos, foi banido de sua religião por apresentar ideias então consideradas radicais.
Para Espinosa, Deus é a natureza e nós somos parte dele. Nossa interação – seja de uns com os outros, seja com o meio ambiente – gera consequências e dita o nosso destino.
O Deus de Espinosa não ouve preces individuais nem atende a pedidos: “O sobrenatural é apenas o natural que ainda não entendemos”.
Deus está na natureza, em cada planta, em cada animal e, da mesma forma, em cada célula do nosso corpo. Estamos entrelaçados uns com os outros e à natureza.
Para Espinosa, estamos imersos em Deus o tempo todo. Nesse cenário, o grande problema seria nos entregarmos à servidão emocional e agirmos sem pensar nas consequências.
Espinosa defendia um modo mais consciente de ser: compreender melhor as causas que moldam nosso comportamento e tentar uma atitude ativa e crítica diante das situações da vida.
Nossa interação racional com os nossos semelhantes e com a natureza resultaria em um mundo interior e exterior melhor para todos. O grande perigo é quando permitimos que nossas emoções sejam manipuladas.
Devemos entender o nosso mundo sob a luz da ciência. A liberdade seria consequência do conhecimento. Promover a liberdade consciente seria o grande objetivo de uma liderança política ou religiosa. “Deus, natureza, liberdade e empatia.” •
Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.
Este texto aparece na edição impressa de CartaCapital sob o título ‘O Deus de Espinosa’
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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