Opinião
O desafio de trocar a competição pela cooperação em um mundo dominado pela subcultura dos EUA
Pior: não apenas nos devoramos entre nós, humanos, mas também massacramos os demais animais
“Acredito que nada passa sem deixar marcas e cada pequeno passo nosso tem um significado para a vida presente e futura” – Anton Pávlovitch Tchekhov
Somos continuidade, de gerações e de nós mesmos.
Tudo deixa traços, coisas boas e ruins.
E como dizia minha avó: “Tudo passa, o que é bom e o que é ruim.”
E muda.
Quem não se sentiu rejeitado na vida? Por uma pessoa ou por um grupo?
O sentimento que nos assalta, então, é o de inadequação.
Assombra-nos não sermos simpáticos o suficiente, inteligentes ou simplesmente agradáveis.
A sensação de culpa é uma inimiga com a qual devemos dialogar ao longo da vida.
Porém, ocorre-nos com frequência bem menor que se trata apenas do fluir da vida, por mais doloroso que possa ser no momento.
Não podemos amar alguém que não nos seja adequado, assim como não podemos caber na tribo errada.
Portanto, na maioria das vezes, trata-se apenas de uma incompatibilidade tribal: temos de fluir, então, para encontrar a nossa própria tribo.
Não há nada pior do que estar no grupo errado.
A rejeição pode gerar até depressão, com as consequentes estase, impotência e incapacidade de agir.
Por isso, é importante termos presente que não nos adaptarmos a uma situação deve ser um estímulo à procura, à busca por algo melhor, mais coerente.
Para isso, temos de ver os limites como algo não necessariamente negativo.
Podem ser apenas as margens de um rio, conduzindo-nos, assim, ao amplo mar.
Em A coragem de ser feliz (editora Sextante), Ichiro Kishimi e Fumitake Koga recordam: “Para sermos felizes, temos que nos empenhar em nossas relações interpessoais. Todos os problemas humanos são de relacionamento interpessoal. E toda felicidade humana é a felicidade no relacionamento interpessoal.”
Citando o psiquiatra vienense Alfred Adler, complementam: “Felicidade é a sensação de contribuição.”
Mas como são difíceis as relações interpessoais!
Somos universos cada um de nós, sob todos os pontos de vista: psicológico, físico, espiritual etc.
E nossos tempos? Tão diversos!
Na mesma obra, os autores estabelecem os parâmetros de uma sociedade democrática: “Uma comunidade que se baseasse não no princípio da competição, mas no princípio da cooperação.”
Não é disso que o mundo precisa neste momento? Por que seguimos competindo? Que sentido faz?
Citam também o filósofo alemão Immanuel Kant: “Tenha coragem de usar o próprio entendimento.”
Que desafio, quando vivemos sob o pensamento hegemônico da subcultura estadunidense, baseada na propaganda do capitalismo, da competição e da dominação do mais forte.
Pior: não apenas nos devoramos entre nós, humanos, mas também massacramos os demais animais.
Em Pensamentos vegetarianos (editora Unesp), Voltaire, já no século XVIII, advertia: “Nossos zootécnicos consideram os animais como máquinas que produzem cada vez mais ovos, leite ou carne. Não explicam que são absurdas as dores desses seres mutilados, privados de luz do dia e da liberdade de movimento?…Para legitimar seus hábitos alimentares, os carnívoros estão persuadidos que os animais foram feitos desde sempre para serem devorados pelos homens, que eles não têm alma espiritual, são incapazes de raciocínio e que não sofrem verdadeiramente quando são maltratados.”
Os animais são também portadores de símbolos: a praça em frente ao Palácio Piratini, sede do governo do Rio Grande do Sul, está tão infestada por ratos que as pessoas temem passar por lá, que dirá sentar em um banco.
Ou seja, o governo de Eduardo Leite é tão desastroso que seu Palácio está, literalmente, cercado por ratos, sendo que os mais perigosos e raivosos estão…em palácio…
No entanto, temos tanto a aprender com os animais!
Em primeiro lugar, a capacidade de fluir, de não se deixar estagnar.
Em segundo lugar, ser como são, só usando a força para a sobrevivência, jamais jogando com ela.
Por último, são verdadeiros mensageiros divinos, com sua capacidade de prospectar oportunidades e perigos, que os humanos, em grande parte, infelizmente bloqueamos, embotados em uma racionalidade redutiva.
Abramos nossa intuição e aprendamos com eles como retornar ao estádio avançado em que conservaram a deles!
Este texto não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.
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