Maria Inês Nassif

Jornalista e cientista social. Trabalhou nos principais jornais do país. Foi assessora do Instituto Lula.

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O desafio de Lula é ser candidato sem deixar de ser estadista

A sociedade brasileira está partida e o diálogo deve ser feito com toda a população

O desafio de Lula é ser candidato sem deixar de ser estadista
O desafio de Lula é ser candidato sem deixar de ser estadista
O presidente Lula em pronunciamento em 7 de março de 2026, sobre o Dia Internacional da Mulher. Foto: Ricardo Stuckert/PR
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Eleições 2026

Os meses que separam o Brasil de uma nova eleição presidencial serão palco do mais difícil teste da longa vida política do presidente Luiz Inácio Lula da Silva – maior do que as disputas eleitorais das quais participou; mais intenso do que o período de enfrentamento da conspiração política, judicial, midiática e militar que o levou à prisão; ou da luta contra o golpe militar que queria impedi-lo de tomar posse ao seu terceiro mandato. É o momento em que Lula se verá diante de um grande desafio: ser candidato à reeleição sem abdicar de ser um estadista.

Estes dias serão também o momento mais delicado do Brasil pós-redemocratização.

O que espera os brasileiros não é apenas um processo eleitoral violento. Coisas do tipo, afinal, ocorrem desde a reeleição de Dilma Rousseff, em 2014, quando o então candidato da direita abrigado no PSDB, Aécio Neves, fez uma campanha suja e, derrotado, disse que não aceitaria o resultado das urnas. Em outubro deste ano, Lula enfrentará o golpismo fortalecido pelo apoio da plutocracia estadunidense, agora no comando do governo dos EUA, à qual foram oferecidas as riquezas naturais do país se o príncipe herdeiro de Jair Bolsonaro, o Flávio, chegar ao poder. A disputa pela Presidência, por parte da extrema-direita local, vem embrulhada em uma ação criminosa contra a soberania nacional, definida no artigo 359-T da lei 14.197. O mesmo artigo que condenou o pai.

O presidente Lula, o maior líder político que este país já teve, enfrenta desde o primeiro dia de seu terceiro mandato uma multidão fascista que se enfileirou na política com a ajuda de um setor da igreja evangélica e da ala ultradireitista da igreja católica; grupos financiados por entidades internacionais ultraliberais, ultraconservadoras e negacionistas e partidos de mentira que foram às urnas com financiamento de empresas pouco comprometidas com a democracia. Sofre a resistência de uma parte da população manipulada por uma guerra travada no mundo cibernético, cuja origem e abrangência é difícil detectar. Tem um efetivo militar recém-saído de uma tentativa de tomada do poder por um golpe de Estado engendrado nos seus próprios quartéis – e do qual não se tem certeza das convicções democráticas ou de alguma preocupação com a soberania nacional, e uma elite historicamente desapegada da democracia e com grande dificuldade de conviver numa sociedade minimamente justa.

Não é um governo fácil e fica mais difícil a cada dia, com o avanço rápido do processo de fascistização dos Estados Unidos, sob o comando do tresloucado Donald Trump, e com a perspectiva de um novo confronto eleitoral com um bolsonarismo claramente apoiado pelo imperador do Norte que terá, novamente, Steve Bannon como estrategista da extrema-direita, disposto a semear a fúria contra o candidato petista; um farto financiamento da elite nacional e o uso do dinheiro dos EUA que pousar em seus cofres eleitorais ilegalmente (a lei proíbe financiamento de governos  ou instituições estrangeiros a eleições). Quatro anos atrás, o Jair – pai dos rapazes que vão a Trump oferecer as riquezas brasileiras em troca de apoio eleitoral – tentou um golpe, que foi contido pela recusa do então governo de Joe Biden, do Partido Democrata, de apoiar os militares brasileiros envolvidos na articulação de um golpe para destituir o presidente Lula, recém-empossado no seu terceiro mandato. O presidente estadunidense agora não é Biden. É Trump.

O Brasil vive uma situação de guerra, e não apenas Trump o ameaça. Parte das fileiras inimigas é composta por brasileiros. As estripulias da família Bolsonaro nos Estados Unidos constituem crime, e é de espantar que até hoje os filhos Eduardo e Flávio não tenham sido denunciados à Justiça pelos sucessivos atentados que cometem contra a soberania nacional e contra as instituições da democracia brasileira. Mas é fato que, desde o fim da Segunda Guerra, o Brasil manteve uma elite econômica mais ligada aos EUA do que ao seu próprio país. E a direita brasileira, em momentos de acirramento da luta de classes, recorre aos Estados Unidos, aos serviços de segurança deles – que fazem o trabalho sujo da articulação de golpes e ajudam no financiamento da direita nacional – e aos militares nacionais que orbitam em torno do império desde a Segunda Guerra.

Internamente, o governo de Bolsonaro e o golpe desferido contra a democracia no 8 de Janeiro trouxeram para as urnas um país cindido, machucado. Abalou crença majoritária do país pós-1985 de que a democracia deve ser o valor a unir todos os brasileiros, independentemente de suas convicções políticas. E, com esse público, Lula terá que dialogar mais como presidente; menos como candidato.

Como presidente, Lula tem meios, veículos e informações que podem chegar a cada um dos brasileiros. É ele que tem de afirmar, e reafirmar, o compromisso de cada brasileiro com a democracia e com o bem coletivo. Tem que ser um promotor da reconstrução da civilidade política e do amor ao País; colocar diuturnamente a democracia como bem maior e a defesa da soberania como um dever de todo cidadão que se considere brasileiro. A trincheira da guerra pela soberania é essa.

A brasilidade, o sentimento de que nenhuma disputa política pode colocar em risco o território, a riqueza e o futuro do país, é o liame que a sociedade precisa hoje. A fúria, o ódio, a naturalização da traição ao Brasil e a ideia de que não existem limites para a disputa política ou para a ambição pessoal não são apenas sentimentos que afloram, mas sintomas de uma histeria coletiva, uma neurose social que contamina cidadãos, independentemente de classes sociais, e que apenas se cura com uma educação para a civilidade e para a convivência democrática.

No passado, em momentos de grandes rupturas e enormes incertezas quanto ao futuro, pelo menos dois grandes estadistas trilharam caminhos semelhantes para unir o país em torno de valores capazes de dar coesão social à Nação. O único veículo capaz de chegar a todos era o rádio. Franklin Delano Roosevelt, nos EUA, driblou a oposição da imprensa estadunidense e o bloqueio à divulgação das razões de governo e resultados do New Deal, programa de recuperação da economia com forte conteúdo social, com o programa Conversas à Beira da Lareira”. No total, foram feitos 30 programas radiofônicos entre 1933 e 1944, todos eles no formato de uma conversa direta entre o presidente e os cidadãos do país. Ganhar a confiança dos governados foi fundamental para atravessar um período prolongado de crise econômica e durante a participação tardia do país na segunda guerra mundial. O rádio também foi o maior aliado do primeiro-ministro britânico Winston Churchill para manter a coesão  a altivez nacionais durante a Segunda Guerra, na luta contra o fascismo.

O avanço tecnológico do último século trouxe à ribalta possibilidades infinitas de comunicação, mas é preciso separar a figura do estadista, que fala a todos do alto de seu cargo, e a do candidato, que é obrigado a se envolver em bate-bocas infindáveis nas redes sociais e a desfilar desmentidos a falsas notícias infinitamente, sem entender em quem chegam ou como foram interpretados pelo seu público. Lula é estadista, não é um militante das mídias sociais; não é um igual, não se equipara nem deve disputar com um Nikolas Ferreira (PP-MG). Deve ter espaço próprio, discurso voltado para agregar uma sociedade em pedaços e uma conversa estruturada para dar noções de civilidade e cidadania a uma Nação que perdeu a educação e a noção de sobrevivência.

A opinião de colunistas e articulistas não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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