Milton Rondó

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Diplomata aposentado, foi secretário socioeconômico do Instituto Ítalo-Latino Americano; vice-presidente do Comitê Consultivo do Fundo Central de Emergências da ONU e representante, alterno, do Itamaraty no extinto Consea

Opinião

O desafio da renovação, após o fosso ético que o golpe de 2016 nos jogou

‘A cultura, o conhecimento e o diálogo em muito podem-nos ajudar a entender o porquê das coisas e interpretar as saídas do poço’

Foto: iStock Foto: iStock
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“Ser jovem e não ser revolucionário é uma contradição genética”.
Che Guevara.

No ano novo que se aproxima, teremos o desafio posto da renovação, em meio ao velho, ao decrépito, ao obsoleto.

Não se trata de tarefa de pouca monta, tendo em vista o fosso ético, jurídico e político em que fomos lançados com o golpe de estado de 2016.

A cultura, o conhecimento e o diálogo em muito podem-nos ajudar, na medida em que nos auxiliam a entender o porquê das coisas e interpretar as saídas do poço – que sempre existem – mas que muitas vezes não reconhecemos.

Um grande escritor nicaraguense, Fernando Silva, médico, romancista e poeta, em seu livro “O Comandante” afirma: “A riqueza do homem é a tranquilidade”.

Com efeito, sem ela dificilmente conseguiremos identificar as formas de superação de obstáculos, impasses e medos.

Com ela, podemos subir e ver de cima os problemas, dimensionando-os melhor e buscando saídas adequadas.

Na obra citada, o protagonista – referindo-se a um dos outros personagens – procede à seguinte reflexão: “Este velho está só, pensava eu, e precisa falar, porque o único que pode curar a solidão é a voz, a voz cura o medo também”.

Com efeito, São Oscar Romero, o Arcebispo de São Salvador assassinado por defender os mais empobrecidos daquela sociedade tão desigual teve a alcunha de “A voz dos que não têm voz”. Tamanho foi o ódio dos poderosos contra o verbo dos despossuídos que lhe tiraram a vida, mas continuou a ecoar, com ainda mais força.

O mesmo impulso teve Edward Snowden ao denunciar o controle ilegal e massivo das comunicações de todo o mundo, por parte do governo dos Estados Unidos da América.

Deu voz aos que não sabiam que suas escutas estavam sendo devassadas, não apenas violando sua privacidade, mas tendo conversas e imagens – inclusive dentro dos próprios lares – ilegalmente invadidas, com finalidades políticas as mais torpes, como a preparação do referido golpe de estado no Brasil e em outros países, por exemplo.

A esse respeito, recomendo a leitura de “Snowden, um herói do nosso tempo“, de Ted Rall, publicado pela Editora Martins Fontes.

Trata-se de obra seminal para entender em que nível de controle vivemos, valendo observar que tanto os aparelhos de telefone quanto os de televisão, mesmo desligados, podem transmitir sons e imagens para as centrais de espionagem. O governo dos EUA obtém-nos sem qualquer legalidade, consentimento ou pudor, de cidadãos estrangeiros e nacionais, aos bilhões.

Snowden, o ex-agente da CIA que se rebelou contra essas práticas ilegais, asseverou: “Eu tinha as credenciais para grampear qualquer um, desde você ou seu contador até um juiz federal e até mesmo o presidente, se eu tivesse um e-mail pessoal”.

Vale recordar que essa amplitude de espionagem foi obtida após os atos de terrorismo de 11 de setembro de 2001, que destruíram as Torres Gêmeas em Nova York, matando e ferindo milhares de pessoas.

Como resultado e como bem conclui o autor do livro em apreço: “Numa era de terror, muitos acreditavam que a legalidade era um luxo”.

Os reflexos dessa prática – de considerar um luxo a legalidade – foi o que justificaria o golpe de estado de 2016 no Brasil, com a consequente perda, de fato, da soberania nacional, do retorno da fome e do desemprego ao país; pior, acometido por uma pandemia e sob um desgoverno genocida, que sequer tem um plano de vacinação, quando países vizinhos como a Argentina e o Chile já iniciam a imunização de suas populações mais vulneráveis.

Em contraponto, Noam Chomsky, em “O debate Chomsky – Foucault, natureza humana, justiça vs. poder“, fez as seguintes reflexões: “Ficando no que interessa e esquecendo os legalismos, o que acontece é que o estado está tentando processar pessoas por expor crimes dele, Estado. Em suma, é isso que está acontecendo.

Ora, é claro que isso é absurdo, e não devemos dar a mínima atenção a essa distorção de qualquer processo judicial razoável. Além disso, creio que o sistema legal até mesmo explica por que ele é absurdo. Mas se não o fizesse, então teríamos que nos opor a esse sistema legal”.

Chomsky arremata: “O conceito de legalidade e o conceito de justiça não são idênticos, mas também não são inteiramente distintos. Na medida em que a legalidade incorpore a justiça – no sentido de uma justiça melhor, que diga respeito a uma sociedade melhor -, então deveríamos seguir e obedecer à lei e obrigar o Estado a obedecer à lei, e obrigar as grandes corporações a obedecerem à lei, e obrigar a polícia a obedecer à lei, se tivermos o poder de fazê-lo.

É claro, naquelas áreas em que o sistema legal acaba não expressando uma justiça melhor, mas, pelo contrário, expressa as técnicas de opressão que foram codificadas em um sistema autocrático específico, então um ser humano razoável deveria desconsidera-las e opor-se a elas, ao menos em princípio. Pode ser que, por alguma razão, ele não possa fazê-lo de fato”.

Em 2021, teremos muito a discernir: será um belo desafio, poderá ser uma aurora.

Milton Rondó

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