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O conforto da mentira

Em um mundo guiado por certezas absolutas, a recusa em mudar se torna um risco político, social e até civilizatório

O conforto da mentira
O conforto da mentira
Ruídos. Um vídeo de Wagner Moura, astro da produção independente O Agente Secreto, expôs o racha entre os artistas, base importante do governo – Imagem: CinemaScópio/Vitrine Filmes
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“A pior verdade é aquela sobre nós mesmos.”
Leon Tolstói

O governo brasileiro anunciou a doação de alimentos e medicamentos a Cuba, com a condição de que os cubanos enviem um navio para buscar as doações — o que, na conjuntura atual de bloqueio imposto por Trump à ilha, é praticamente impossível.

Vale notar que o México, ao contrário, enviou suas doações em navios próprios.

Conclui-se que o desejo de fazer propaganda foi maior do que o de fazer chegar, efetivamente, a ajuda humanitária a Cuba.

No entanto, bastaria um único burocrata da Agência Brasileira de Cooperação (ABC) levantar o telefone e propor a um terceiro país (por exemplo, a Espanha) que assumisse o frete. Isso já foi feito nos próprios governos Lula, com êxito, inclusive para doações à própria Cuba.

Vale lembrar que a embaixada da Espanha em Brasília pode ser alcançada pela ABC por telefone, e-mail, carta, ofício, de carro (pago por nós) e até a pé — estando ambas na Asa Sul. Fica a dica.

Pois, lembrando o nosso imortal Nelson Rodrigues, “o óbvio tem muitos inimigos”.

Bem menos evidente: O Agente Secreto não recebeu Oscars por ser um filme sofisticado demais para o paladar fast-food de Hollywood.

Trata-se de um roteiro democrático, em que todos, à sua maneira, são protagonistas. Para quem está acostumado a enredos maniqueístas — limitados a bandidos e mocinhos —, a fórmula dificilmente agradaria, dada a aridez cognitiva da Academia.

Pior: estamos nos engessando em ideologias, em suas vertentes mais nefastas — quando deixam de ser objeto de crítica e passam a operar como crenças. Não mais abertas à contestação, nem mesmo factual, essas crenças sobrepõem versões, interpretações e narrativas à dialógica e à dialética, impondo o unilateral ao diálogo — única via possível para se alcançar uma verdade que nunca é unívoca.

Passamos, assim, a cultivar “verdades” blindadas: dogmas, infalíveis como papas de outrora.

Por isso, tampouco a esquerda consegue se impor politicamente. Ao contrário, oferece flanco fácil à extrema direita religiosa, ao imitá-la em sua incapacidade de se abrir à participação. Reduz a democracia às eleições periódicas — exatamente nos termos que convêm à direita.

De fato, já dizia Tolstói:
“As questões mais difíceis podem ser explicadas aos homens menos inteligentes, se eles não tiverem formado nenhuma ideia prévia sobre elas; mas as coisas mais simples não podem ser apreendidas pelo homem mais inteligente se ele estiver firmemente persuadido de que já sabe, sem sombra de dúvida, o que lhe foi apresentado.”

Com efeito, mudar talvez seja uma das tarefas mais difíceis da vida.

A força dos hábitos — inclusive mentais — é avassaladora.

Vivemos sob o paradoxo de desejar o novo e, ao mesmo tempo, temer a mudança. E isso é compreensível: mudar implica trilhar caminhos desconhecidos, imaginados como perigosos.

Em A Consulta (editora Fósforo), Katharina Volckmer sintetiza o fascismo de forma precisa:
“O que é o fascismo, afinal, se não uma ideologia com um fim em si mesma?”

Ou seja: uma crença. Como acreditar que a Terra é plana, ou que a ivermectina previne a Covid.

Crenças sem comprovação científica que, como os mitos, prescindem de base real. São fátuas, não fatos.

Vamos nos tornando seres solitários, isolados na busca da meritocracia, do dinheiro, do poder, do reconhecimento.

Vivemos em habitações isoladas, nas quais os outros nos chegam apenas como ruído, como incômodo.

Nesse contexto, a autora diagnostica:
“…é isso que a solidão faz com as pessoas… Elas esquecem como expressar seus desejos.”

São tempos em que a violência cala — submerge falas e anseios.

É simbólico o documentário de Lúcia Murat, Hora do Recreio, no qual secundaristas da periferia do Rio de Janeiro narram seu cotidiano marcado pela violência doméstica e estatal. Diante da câmera, os jovens se abrem e expõem a dura verdade de suas vidas.

Retomando a autora alemã, cumprem seu enunciado:
“…o único consolo verdadeiro que podemos encontrar na vida é ser livre das nossas mentiras.”

Mas como é difícil. Como dói.

Ainda em Katharina Volckmer, surge uma verdade tão evidente quanto mascarada pela masculinidade tóxica — estrutura que, não por acaso, também mata mulheres:
“…como é que eu podia saber que os homens também morrem por causa de um coração partido? Sempre pensei que isso só acontecesse com as mulheres.”

Estamos todos, homens e mulheres, prisioneiros de padrões coletivos ultrapassados. Mas ao menos alguns já têm consciência disso — e querem mudar.

Como?

Talvez com Erika Hilton presidindo a Comissão das Mulheres na Câmara. Com mais homens usando brincos. (A tanga de crochê de Gabeira, nos anos 80, não nos mudou?) Com pais e professores mais acolhedores de crianças e adolescentes trans.

Mudar não é uma experiência fácil. Mas, diante de um horizonte de colapso ambiental e risco nuclear, nada se faz mais necessário.

A opinião de colunistas e convidados não representa, necessariamente, a opinião de CartaCapital.

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